A vacina Covaxin que revelou o porão do governo Bolsonaro
O escândalo da Covaxin foi um daqueles episódios que, por si só, deveriam ter sido suficientes para marcar para sempre a história de um governo. Enquanto o Brasil enterrava seus mortos pela Covid-19, enquanto famílias desesperadas procuravam oxigênio, leitos e vacinas, nos subterrâneos do governo Bolsonaro se desenrolava uma operação bilionária cercada de pressões, inconsistências documentais, intermediários suspeitos e perguntas que até hoje não podem ser tratadas como mero detalhe burocrático.
Foi a CPI da Covid que abriu a porta desse porão.
E o que apareceu não foi bonito.
O governo havia contratado 20 milhões de doses da Covaxin por aproximadamente R$ 1,6 bilhão, em um negócio que passou a despertar uma sucessão de suspeitas. O processo avançou em velocidade incomum, apesar dos obstáculos e inconsistências apontados por servidores do próprio Ministério da Saúde. Havia problemas nos documentos, questionamentos sobre o pagamento e uma tentativa de envolver uma empresa que não constava originalmente do contrato.
O mais impressionante, porém, estava em outro lugar.
O presidente da República foi avisado.
Os irmãos Luís Miranda e Luís Ricardo Miranda levaram ao conhecimento de Jair Bolsonaro as suspeitas relacionadas à operação. Luís Ricardo, servidor do Ministério da Saúde, havia identificado problemas na documentação e relatado pressão para dar andamento ao negócio.
A partir daí, o escândalo ganhou uma dimensão política explosiva.
Porque, se o presidente da República recebe informações sobre possíveis irregularidades em uma contratação bilionária de vacinas e, em vez de determinar imediatamente uma investigação, deixa o episódio seguir seu curso, surge uma pergunta inevitável: quem estava sendo protegido?
A CPI foi atrás dessa resposta.
E encontrou uma história ainda mais incômoda.
A operação envolvia a Precisa Medicamentos, intermediária da negociação, e documentos que apresentavam inconsistências. Um dos pontos mais graves era a previsão de pagamento a uma empresa chamada Madison Biotech, sediada em Singapura, que não aparecia como contratada no negócio original.
Em qualquer administração minimamente comprometida com o dinheiro público, uma sucessão de sinais dessa natureza deveria acender todas as luzes vermelhas.
No governo Bolsonaro, as luzes precisaram ser acesas por uma CPI do Congresso.
Essa é talvez a dimensão mais importante do caso.
A Covaxin não foi apenas uma história sobre uma vacina que acabou não sendo aplicada. Foi uma história sobre como o poder público negociava bilhões de reais durante uma emergência sanitária e sobre o que acontecia quando servidores levantavam dúvidas sobre a operação.
E há algo particularmente repugnante no contraste.
De um lado, o governo Bolsonaro tratava a vacinação com uma mistura de negligência, sabotagem política e desinformação. De outro, quando surgia uma oportunidade de contratar uma vacina por bilhões de reais, apareciam pressa, pressão e uma cadeia de acontecimentos que despertou suspeitas no próprio Ministério da Saúde.
A CPI fez aquilo que as instituições do Executivo deveriam ter feito desde o primeiro alerta: perguntou, confrontou documentos, ouviu servidores, rastreou responsabilidades e colocou o negócio sob os holofotes.
O contrato acabou suspenso e posteriormente cancelado.
Mas o cancelamento não apaga o escândalo.
Ao contrário.
Ele torna ainda mais necessário perguntar por que uma contratação cercada de tantos sinais de alerta chegou tão longe.
A Covaxin entrou para a história da pandemia brasileira como um símbolo do que acontecia quando interesses políticos, negócios privados e dinheiro público se encontravam no pior momento possível: quando milhares de brasileiros estavam morrendo e cada dia de atraso na vacinação custava vidas.
A CPI da Covid teve muitos episódios, mas o caso Covaxin ocupa um lugar especial porque desmontou uma das narrativas centrais do bolsonarismo: a de que o governo seria simplesmente vítima de uma perseguição política.
Não era perseguição.
Era investigação.
E investigação existe justamente para fazer aquilo que governos acuados detestam: colocar documentos sobre a mesa, reconstruir os caminhos do dinheiro, confrontar versões e perguntar quem sabia o quê — e quando sabia.
No caso Covaxin, a pergunta permanece brutalmente simples:
se o presidente foi alertado sobre possíveis irregularidades em uma operação bilionária de compra de vacinas, por que a investigação não partiu imediatamente do Palácio do Planalto?
Foi preciso uma CPI para fazer essa pergunta em voz alta.
E talvez seja esse o maior legado do escândalo: a Covaxin mostrou que, durante a tragédia da Covid-19, havia muito mais acontecendo dentro do governo Bolsonaro do que aquilo que aparecia nas coletivas e nas redes sociais.
Enquanto o país contava mortos, a CPI contou documentos.
Enquanto o governo tentava controlar a narrativa, a comissão desmontava versões.
E enquanto Bolsonaro procurava se apresentar como alguém que nada sabia, a Covaxin deixou uma pergunta política impossível de esconder:
O que exatamente o presidente sabia — e por que, diante dos alertas que recebeu, não fez aquilo que qualquer presidente deveria fazer quando suspeita de uma fraude bilionária: mandar investigar?
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Ministro suspendeu perfis, debates e recursos públicos do candidato à presidência Renan Santos (Missão)
O ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), impôs no domingo (30) uma série de restrições à campanha presidencial de Renan Santos (Missão): mandou suspender perfis nas redes sociais, proibiu o candidato de participar de debates, bloqueou repasses do Fundo Eleitoral e impediu gastos com eventuais recursos públicos já recebidos pela chapa. Integrantes do TSE ouvidos pelo ICL Notícias afirmam que a decisão está entre as mais severas destas eleições e, embora não suspenda formalmente a candidatura, produz efeito próximo disso.
“É quase uma suspensão do registro da candidatura”, afirmou reservadamente um integrante da Corte. Renan continua candidato enquanto seu registro estiver sob análise, mas teve restringidos instrumentos centrais de uma campanha presidencial.
A decisão foi tomada depois de Toffoli constatar que 16 perfis de Renan foram informados à Justiça Eleitoral em 19 de agosto, 12 dias após a apresentação do pedido de registro. Pelas regras eleitorais, contas preexistentes usadas na campanha deveriam ter sido declaradas no próprio requerimento.
As restrições impostas por Toffoli Até nova decisão, o ministro determinou:
suspensão dos perfis informados fora do prazo e retirada das contas dos sistemas de recomendação das plataformas;
suspensão da propaganda digital em endereços não informados tempestivamente, inclusive em novos perfis do candidato ou em perfis de terceiros;
suspensão de repasses do Fundo Eleitoral à chapa presidencial; proibição de gastar eventuais recursos do Fundo Eleitoral já repassados;
suspensão da participação em debates em rádio, televisão, podcasts ou qualquer outro meio;
informação, em 24 horas, de todas as outras contas, sites e grupos de mensagens utilizados pela campanha;
explicações sobre as irregularidades em 24 horas, sob pena de indeferimento do registro.
Toffoli chegou a analisar também a suspensão da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão. A medida só não foi aplicada porque o Missão não possui esse direito.
“O partido Missão não é destinatário de tempo de propaganda em rádio e televisão, razão pela qual descabe impor a suspensão do exercício do direito”, escreveu.
Ao justificar a proibição de Renan participar de debates, o ministro os classificou como uma “prerrogativa própria à condução de campanhas regulares”, especialmente relevante numa disputa presidencial por sua “ampla visibilidade”.
Ministro fala em ‘indício de fraude à lei’ Toffoli adotou tom duro ao avaliar a apresentação tardia das redes. Para ele, o episódio não pode ser tratado como uma simples pendência burocrática do registro.
“A omissão das informações devidas não é apenas uma falha formal no registro de candidatura, mas quebra de isonomia e risco de cometimento de ilícitos ainda mais graves”, afirmou.
Na sequência, foi ainda mais incisivo: “A própria omissão de dados é indício de fraude à lei.”
A razão está no funcionamento das redes durante a eleição. As plataformas devem retirar os perfis oficiais informados ao TSE dos sistemas de recomendação algorítmica. Uma conta que fica fora da relação oficial pode continuar sendo recomendada a usuários enquanto candidatos que cumpriram a regra deixam de receber esse benefício.
Toffoli verificou pessoalmente um dos perfis de Renan no Instagram, com 2,4 milhões de seguidores, e encontrou propaganda eleitoral e recomendações cruzadas com outros candidatos.
Para o ministro, isso indica que “ao menos um perfil está em utilização irregular para difusão de conteúdo a milhões de seguidores e com favorecimento pelos algoritmos de recomendação”.
“Violou frontalmente a obrigação. Os benefícios já auferidos são irreversíveis”, escreveu Toffoli.
Plataformas terão de entregar dados O ministro também determinou que as plataformas preservem o conteúdo publicado desde 7 de agosto e entreguem ao TSE, em 24 horas, informações sobre postagens, impulsionamentos, recomendações e anúncios, incluindo alcance e valores.
As empresas terão seis horas para suspender os perfis e retirá-los dos sistemas de recomendação. O descumprimento pode gerar multa de R$ 10 mil por hora e por perfil. A não entrega dos dados pode resultar em multa diária de R$ 50 mil.
Para a campanha, propaganda digital feita após a intimação pode gerar multa de R$ 50 mil por veiculação, inclusive em contas novas ou de terceiros. A participação em debates também está sujeita a R$ 50 mil por ato.
Renan e o Missão terão ainda de informar quando cada perfil foi criado, quando começou a ser usado eleitoralmente e se existem outras contas ou canais de campanha.
Ao final dessa determinação, Toffoli deixa aberta a consequência mais grave: as explicações deverão ser apresentadas “sob pena de indeferimento do registro”. A candidatura não foi formalmente suspensa, mas seu futuro passou a depender também da apuração sobre o uso das redes e das respostas que candidato, partido e plataformas apresentarão ao TSE.
*Cleber Lourenço/ICL
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A Justiça Eleitoral decidiu apertar o cerco sobre o X e exigir da plataforma respostas que, até agora, estavam escondidas atrás da opacidade de seus sistemas. O TRE de Minas Gerais deu apenas 24 horas para que a empresa esclareça se o perfil de Nikolas Ferreira ficou fora do mecanismo de “desrecomendação” destinado a impedir que conteúdos de candidatos sejam automaticamente apresentados a usuários que não os seguem.
A questão é extremamente grave porque, em uma eleição, alcance algorítmico também é poder político. Não se trata de uma mera diferença técnica entre plataformas ou de uma falha burocrática sem consequências. Quando um candidato pode aparecer espontaneamente diante de milhares ou milhões de eleitores enquanto seus adversários estão submetidos a uma trava de recomendação, cria-se potencialmente uma diferença de exposição que pode interferir na própria disputa eleitoral.
Foi justamente uma reportagem do ICL Notícias que revelou a discrepância. O X havia divulgado uma lista com 665 contas submetidas à restrição, mas o nome de Nikolas Ferreira não aparecia entre elas, embora seu perfil tivesse sido informado à Justiça Eleitoral. Também ficaram fora da relação outros candidatos, como Bia Kicis e Alfredo Gaspar.
A Justiça, corretamente, não partiu para uma condenação antecipada. O TRE-MG não afirmou que Nikolas foi beneficiado nem que o X deliberadamente violou a legislação. Mas fez algo fundamental: determinou que a caixa-preta seja aberta.
O X terá de informar se a conta de Nikolas estava na lista interna de desrecomendação, desde quando, quais mecanismos de limitação foram aplicados e se houve falha, atraso, inconsistência ou erro de sincronização. A plataforma também deverá explicar se a lista pública divulgada em 14 de agosto correspondia efetivamente à base utilizada pelo sistema. Além disso, terá de preservar por 180 dias registros técnicos, logs, versões das listas e dados de atualização relacionados à aplicação da regra.
É exatamente aí que está o ponto central. Não basta uma plataforma dizer que cumpre as regras eleitorais. É preciso que seja possível verificar se ela realmente as cumpre. Uma democracia não pode depender da palavra de empresas privadas para saber se candidatos estão recebendo tratamento equivalente nos mecanismos que determinam sua visibilidade.
E o episódio é ainda mais relevante porque o próprio TSE já investiga nacionalmente como o X está aplicando a regra. O tribunal quer saber, entre outras coisas, quantos perfis foram efetivamente retirados das recomendações, de onde vêm os dados utilizados para identificar candidatos e com que frequência essas informações são atualizadas.
O problema ganhou dimensão ainda maior porque o X reconheceu um lapso na atualização da lista de perfis de candidatos. Reportagem da Folha apontou que a plataforma deixou inicialmente mais de 1.400 contas fora da filtragem e só posteriormente atualizou o sistema, incluindo cerca de 2.400 contas.
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Por Alice Maciel (ICL Notícias) e Natalia Viana (Agência Pública)
Mansões, carros de luxo, viagens: a vida de Eduardo Bolsonaro e Figueiredo nos EUAEduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo foram centrais na articulação para impor tarifas contra o Brasil e retaliações contra ministros do Supremo. Desde 2025, eles participaram de dezenas de reuniões com deputados republicanos e membros do governo dos EUA pedindo intervenções em resposta à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023.
Em maio de 2025, três meses após se mudar para o Texas e anunciar que viveria uma espécie de “autoexílio”, Eduardo Bolsonaro comprou um carro novo. Não exatamente um modelo econômico para atravessar tempos difíceis. Ele adquiriu um GMC Acadia Elevation 2025 preto, um SUV de três fileiras de assentos, avaliado em cerca de 43,8 mil dólares nos EUA, o que equivale a aproximadamente R$ 226 mil.
Os registros de gastos associados à família Bolsonaro nos EUA mostram que, desde a mudança para o país, em fevereiro do ano passado, o padrão de vida não parece ter encolhido, nem mesmo após o STF determinar o bloqueio dos bens de Eduardo Bolsonaro e de sua esposa, Heloísa Bolsonaro, em julho de 2025. Eduardo ainda perdeu o salário que recebia como deputado federal em dezembro, quando seu mandato foi cassado por faltas, e, desde 2015, não recebe salário como escrivão da PF, de onde a corporação recomendou sua demissão por abandono do cargo.
Ao chegar aos EUA, o ex-deputado escolheu Arlington, no Texas, onde já havia mantido uma empresa entre 2023 e 2024. A residência alugada estava longe de ter as dimensões de um refúgio improvisado. Tinha pouco mais de 300 metros quadrados, quatro quartos e quatro banheiros, com valor de mercado estimado em 707,7 mil dólares (cerca de R$ 3,6 milhões). O valor da locação anunciado em sites imobiliários, quando eles alugaram a casa, era de 4,5 mil dólares, aproximadamente R$ 23,3 mil na cotação atual.
Em maio de 2025, Jair Bolsonaro chegou a transferir R$ 2 milhões ao filho. “Botei dinheiro na mão dele, dinheiro limpo, legal, Pix”, afirmou o ex-presidente.
Dias dep
ois, Eduardo chegou a reclamar para o pai, em mensagens trocadas por Whatsapp, que estava “se fodendo” nos EUA. Ao reclamar de uma entrevista em que Jair dizia que o filho era imaturo, Eduardo reclamou que, ao jogar ele para baixo, o ex-presidente o estaria condenando a passar o “resto da vida nessa porra aqui”. “VTNC seu ingrato do caralho!”, escreveu.
A situação parece ter melhorado desde então. Pouco mais de um ano depois, em maio de 2026, a família trocou Arlington por um endereço ainda mais valorizado, em Southlake, uma das cidades mais ricas do Texas, onde a renda familiar média é de 250 mil dólares – três vezes maior do que em Arlington, por exemplo. Eduardo, a esposa e os dois filhos moram atualmente em uma casa que oferece “uma vida de resort”, conforme revelou o The Intercept Brasil.
Avaliada em 1,22 milhão de dólares, cerca de R$ 6 milhões, a mansão foi anunciada para aluguel por aproximadamente 5,9 mil dólares (em torno de R$ 30 mil mensais), segundo anúncios imobiliários que permaneceram ativos até fevereiro deste ano. O imóvel tem 424 metros quadrados de área construída, em um terreno de 1.366 metros quadrados, quatro quartos e piscina, além de acesso a um clube com quadras de tênis e a uma lagoa.
Fotos da casa de Eduardo Bolsonaro
A filha mais velha do casal Bolsonaro, de cinco anos, foi matriculada numa escola cristã a cerca de 15 minutos de casa, com custo anual de 18 mil dólares (R$ 93,4 mil), conforme divulgado no site da escola.
Eduardo nega ter usado parte da verba do filme Dark Horse para custear sua vida nos EUA. O filme foi financiado com cerca de R$ 61 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro, por meio do Fundo Havengate. O negócio veio à tona após reportagem do Intercept Brasil. Conforme revelou o portal, Flávio Bolsonaro chegou a pedir o dobro desse valor ao banqueiro, hoje preso por gestão fraudulenta e estelionato, lavagem de dinheiro, corrupção de servidores públicos, organização criminosa e obstrução da Justiça.
“A história de que recebi dinheiro do fundo de investimento não se sustenta e é tosca”, afirmou Eduardo em suas redes sociais. “No meu processo migratório, expliquei às autoridades americanas toda a origem dos meus recursos e não tive qualquer problema”, disse.
Procurado pela reportagem, Eduardo não respondeu como financia seu padrão de vida nos Estados Unidos.
Em outras ocasiões, ele afirmou que se mantém com “renda passiva” e já disse também que recebe dinheiro por meio de cursos que ministra – os cerca de 50 mil dólares que ele disse ter investido no filme Dark Horse, por exemplo, teriam esta origem.
20 viagens em 18 meses Chama a atenção o volume de dinheiro que Eduardo Bolsonaro vem gastando com viagens dentro e fora dos EUA. Desde fevereiro do ano passado, o ex-deputado federal viajou ao menos 20 vezes, entre compromissos políticos e passeios turísticos.
Para comemorar o primeiro aniversário de Heloísa Bolsonaro após a mudança para os EUA, a família foi para a Disney em junho de 2025. Cinco meses depois, em dezembro, Eduardo Bolsonaro esteve na cidade de Park City, em Utah, destino nas montanhas conhecido internacionalmente por suas estações de esqui. A passagem ocorreu justamente no início da alta temporada de neve na região.
Já em fevereiro deste ano, Eduardo viajou para West Palm Beach, na Flórida, onde o custo diário de acomodação pode ser superior a R$ 1.000.
Durante a Copa do Mundo, ele foi a Miami assistir à partida entre Brasil e Escócia, que ocorreu no dia 24 de junho. Ficou hospedado em um hotel de luxo, que cobra diárias de R$ 16 mil e chega a oferecer pacotes de experiência avaliados em um milhão de dólares, conforme revelou a Revista Fórum.
Mas a maior parte dos deslocamentos do ex-deputado desde que se mudou para os EUA está ligada à sua atuação política. Ao lado de Paulo Figueiredo, Eduardo tem se mobilizado para pressionar o governo norte-americano a impor sanções ao Brasil e a ministros do STF. Juntos, os dois estiveram pelo menos sete vezes em Washington e fizeram outras três viagens a Mar-a-Lago, na Flórida. Paulo frequenta o resort desde 2019 e parece manter sua primeira impressão: “simplesmente lindo!”
Em meados de maio, Eduardo hospedou-se, junto com Paulo, no histórico hotel Willard Intercontinental Washington, quando se reuniram com Trump na Casa Branca. Eduardo e sua turma alugaram os quartos, que têm preço a partir de R$ 1,5 mil por noite, mas podem chegar a custar R$ 50 mil por diária. Eles chegaram a receber, no hotel, a visita de Darren Beattie, assessor sênior de política para o Brasil no Departamento de Estado.
Eduardo Bolsonaro no Willard Hotel, em maio de 2026. Foto: Ken Silverstein / Agência Pública
A agenda de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo também cruzou as fronteiras norte-americanas, com pelo menos três viagens ao Oriente Médio.
“Pra quem surfa, sabe que isso aqui é o que há de melhor no mundo.” Com uma prancha debaixo do braço, Eduardo Bolsonaro aparece diante da maior piscina de ondas artificiais do mundo, em Abu Dhabi. No vídeo, publicado em 8 de fevereiro, ele também demonstra suas habilidades ao longo de uma sequência de manobras. As imagens foram gravadas no Surf Abu Dhabi, na ilha de Hudayriyat, onde uma sessão de 45 minutos para surfistas de nível intermediário e avançado custa 1,8 mil dirhams dos Emirados Árabes Unidos (AED) US$ 953 — cerca de R$ 2,5 milhões.
Eduardo no Surf Abu Dhabi, na ilha de Hudayriyat
Na ocasião, Eduardo viajava pelo Oriente Médio ao lado do irmão, o senador e então pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro, e de Paulo Figueiredo. O trio divulgou encontros com autoridades no Bahrein e nos Emirados Árabes Unidos como parte de sua agenda política na região. Mas, entre um compromisso e outro, as redes sociais também registraram momentos de lazer.Figueiredo, por exemplo, compartilhou avaliações de restaurantes em Dubai, como o CZN Burak Dubai, especializado em culinária turca, onde comeu um dos melhores kebabs da sua vida, além de um ensopado de camarão apimentado. “Divino”, “sobremesa perfeita” estão entre os elogios feitos à casa, cujo preço estimado por pessoa é de R$ 140 a R$ 210. Ele também visitou o Clay Dubai, na marina da cidade, onde se paga entre R$ 560 e R$ 630 por pessoa. “Este lugar não é apenas LINDO, mas tudo o que comemos estava delicioso”, escreveu . Em um restaurante de comida japonesa, reclamou de ter comido um sushi de abacate com salmão por 45 dólares. “ATENÇÃO! Este lugar é uma armadilha para turistas!”, escreveu .
Procurado pela reportagem, Paulo Figueiredo dirigiu ironias e agressões contra a Agência Pública antes de afirmar “Eu me financio através das minhas empresas e não devo satisfação a ninguém”.Em intervalo de 6 meses, Figueiredo comprou mansão de R$ 6,1 milhões e Cybertruck da TeslaOs registros levantados pela reportagem indicam que Paulo Figueiredo também elevou seu padrão de vida no último ano. Em novembro de 2025, conforme revelaram a Agência Pública e o ICL Notícias, o influenciador comprou por 1,2 milhão de dólares — cerca de R$ 6,1 milhões — uma mansão em Clermont, na Flórida. Para fechar o negócio, contratou um financiamento imobiliário de 1 milhão de dólares.
Fotos da casa de Paulo Figueiredo
A propriedade fica em um terreno de 17,5 mil metros quadrados, o equivalente a cerca de dois campos e meio de futebol, e tem 515 metros quadrados de área construída. São dois andares, seis quartos e cinco banheiros, além de salas de estar e de jantar, cozinha gourmet e sala de jogos. Do lado de fora, há piscina de água salgada, jacuzzi para 12 pessoas, varanda, lareira e até uma casa na árvore.
Seis meses depois, em maio de 2026, Figueiredo ampliou a garagem com um Cybertruck 2026, da Tesla, montadora de Elon Musk. O veículo tem valor de mercado estimado em 83 mil dólares, o que equivale a R$ 427,9 mil. O influenciador também possui, desde 2024, uma BMW Série 6 de 2004, hoje avaliada em cerca de 9 mil dólares (aproximadamente R$ 51 mil).
Tesla Cybertruck 2026
A compra da mansão ocorreu apenas um mês depois de Figueiredo informar à Justiça dos Estados Unidos que não tinha recursos para contratar um advogado para representar sua empresa, a International Treasure Group, condenada à revelia. A ação contra a companhia faz parte de um processo de falência que visa recuperar transferências supostamente vinculadas ao esquema de fraude atribuído ao magnata chinês Miles Guo.
A International Treasure Group entrou no processo após receber 140 mil dólares— cerca de R$ 670 mil — por serviços prestados à rede social Gettr entre agosto de 2021 e abril de 2022, segundo a defesa de Figueiredo. Fundada pelo ex-assessor de Donald Trump, Jason Miller, a plataforma tinha Guo como financiador oculto.
A mansão em Clermont não é o único imóvel de Figueiredo na Flórida. Ele também possui uma casa em Weston, colocada à venda em junho deste ano por 1,09 milhão de dólares — cerca de R$ 5,5 milhões —, segundo sites imobiliários americanos. Desde 2016, a propriedade estava registrada em nome da Olive-Fig Tree Real Properties LLC, empresa que também pertence ao influenciador.
Em outubro de 2025, porém, o imóvel de Weston foi transferido para o nome de Figueiredo, segundo documentos do estado da Flórida. No mês seguinte, ele adquiriu a mansão de Clermont.
As movimentações contrastam com declarações feitas pelo próprio Figueiredo sobre sua situação financeira. Em 2024, quando já articulava, nos Estados Unidos, possíveis retaliações contra autoridades brasileiras, ele fez deu seu testemunho em uma audiência no Congresso norte-americano afirmando ser vítima de perseguição do STF e que estava “desempregado, sem minhas redes sociais e suas respectivas monetizações, responsável por sustentar minhas duas filhas americanas de 7 e 8 anos”.
Paulo é cidadão americano, assim como suas filhas, e usa este fato para alardear que tem sido censurado pelo STF – o que embasou diversas ações de aliados no governo e no legislativo norte-americano, como a lei “No Censors in Our shores”, proposto pela deputada republicana Maria Elvira Salazar um mês depois dela ter recebido uma doação de campanha de Paulo no maior valor possível na época (R$ 57 mil), conforme revelou a Pública.
Na Flórida, Paulo frequenta restaurantes renomados e costuma ser bastante crítico quanto à gastronomia. Frequenta estabelecimentos com estrelas Michelin, mas nem sempre sai satisfeito. Por exemplo, em abril, ele foi ao restaurante de culinária asiática fusion Nami, no hotel Lake Nona Wave, em Orlando, onde também se paga, por pessoa, cerca de 500 reais por refeição. “Fiquei muito decepcionado, ainda mais por se tratar de um restaurante com estrela Michelin. As porções são ridiculamente pequenas, não condizendo com o preço cobrado. Pra ser sincero, este é o primeiro lugar com estrela Michelin onde definitivamente não pretendo voltar”.
Em outros restaurantes, ele reclama dos valores pagos por porções pequenas, o que ele diz ser regra em Miami, “restaurantes muito caros com comida mediana”.
Não que ele não tope pagar caro. Há cerca de um ano ele foi com a esposa ao Restaurante MAASS, em Fort Lauderdale, onde pagou “quase 400 dólares” – R$ 2 mil reais – em um menu degustação para duas pessoas. “Mesmo experimentando o menu degustação, nada do que comi foi memorável e me fez querer voltar”, escreveu.
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Pesquisa AtlasIntel divulgada hoje mostra o candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 43,4% das intenções de voto do primeiro turno da eleição presidencial, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) tem 33,7%. Augusto Cury passou de 1,6% para 7,8%.
A pesquisa ouviu 5.014 eleitores, por recrutamento digital aleatório, entre os dias 25 e 30 de agosto. A margem de erro é de 1 ponto percentual, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O registro no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) é BR-07972/2026.
No levantamento anterior, em 29 de julho, Lula aparecia com 44,9%, e Flávio Bolsonaro, 35,8%.
1º turno – estimulada (quando é apresentada lista com nomes dos candidatos)
Lula (PT): 43,4%
Flávio Bolsonaro (PL): 33,7%
Augusto Cury (Avante): 7,8%
Renan Santos (Missão): 7,6%
Ronaldo Caiado (PSD): 3,3%
Pablo Marçal (PRTB): 1,9%
Romeu Zema (Novo): 1%
Samara Martins (UP): 0,9%
Rui Costa Pimenta (PCO): 0,1%
Wilton Grassi (Democrata): 0,1%
Nenhum/Branco/Nulo: 0,1%
Não sabe/Não respondeu: 0,2%
2º turno
Lula x Flávio Bolsonaro
Lula (PT): 47,1% (era 49,2% em 28/7)
Flávio Bolsonaro (PL): 42,6% (era 42,9%)
Branco/Nulo/Não sei: 10,3% (era 7,9%)
Lula x Ronaldo Caiado
Lula (PT): 46,6% (era 48,2% em 28/7)
Ronaldo Caiado (PSD): 41% (era 38,9%)
Branco/Nulo/Não sei: 12,3% (era 12,9%)
Lula x Romeu Zema
Lula (PT): 47% (era 48,6% em 28/7)
Romeu Zema (Novo): 40,7% (era 39,6%)
Branco/Nulo/Não sei: 12,3% (era 11,8%)
Lula x Renan Santos
Lula (PT): 47.5% (era 47,6% em 28/7)
Renan Santos (Missão): 26% (era 30,2%)
Branco/Nulo/Não sei: 26,6% (er 22,2%)
Evolução das intenções de voto no 2º turno Lula (PT)
Fevereiro – 46,2%
Março – 46,6%
Abril – 47,5%
Junho – 48,8%
Julho – 49,2%
Agosto – 47,1%
Flávio Bolsonaro (PL)
Fevereiro – 46,3%
Março – 47,6%
Abril – 47,8%
Junho – 42,3%
Julho – 42,9%
Agosto – 42,6%
Branco/Nulo/Não sabe
Fevereiro – 7,5%
Março – 5,8%
Abril – 4,7%
Junho – 8,9%
Julho – 7,9%
Agosto – 10,3%
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Com uma fieira de escândalos e crimes acumulados ao longo da trajetória política, Flávio Bolsonaro chegou ao Senado e agora se apresenta como candidato à Presidência da República. É uma das mais impressionantes demonstrações de como a impunidade pode se transformar em método político.
Flávio aprendeu que, no Brasil, basta repetir uma versão até que ela ganhe aparência de verdade — e, sobretudo, basta contar com uma blindagem política e midiática suficientemente resistente para que as contradições não produzam consequências imediatas. O resultado é um candidato que pode desfilar diante das câmeras, acumular declarações desmentidas por fatos e documentos e, ainda assim, seguir falando como se estivesse acima de qualquer cobrança.
As recentes entrevistas e checagens são um retrato desse mecanismo. Veículos de checagem apontaram distorções e contradições em suas declarações sobre o Banco Master, Daniel Vorcaro, o 8 de Janeiro e outros temas. E as investigações envolvendo suas relações com o caso Master e a produção do filme sobre Jair Bolsonaro continuam produzindo novos capítulos.
O mais escandaloso, portanto, não é apenas a quantidade de controvérsias que acompanha sua carreira. É a naturalização delas. Flávio parece ter chegado a um estágio em que a mentira deixou de ser um recurso excepcional da política e passou a funcionar como instrumento permanente de comunicação: diz, nega, distorce, muda a versão e segue adiante.
E há algo ainda mais grave: a candidatura presidencial transforma esse passado em uma espécie de teste para as instituições. Se alguém pode atravessar uma longa sucessão de crimes, investigações, contradições e denúncias e, em vez de prestar contas, simplesmente subir mais um degrau na hierarquia do poder, a mensagem transmitida à sociedade é devastadora.
A questão já não é apenas o que Flávio diz. É por que ele pode dizer qualquer coisa, tantas vezes, sem que a mentira tenha custo político, jurídico ou institucional proporcional à gravidade das acusações que a cercam.
A impunidade, quando se torna rotina, deixa de ser apenas ausência de punição: transforma-se em licença para continuar. E Flávio Bolsonaro parece apostar justamente nisso — na ideia de que, aconteça o que acontecer, haverá sempre uma narrativa pronta, uma tropa política para repeti-la e uma blindagem suficiente para impedir que a realidade alcance o personagem.
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Lula decidiu fazer aquilo que Flávio Bolsonaro provavelmente mais gostaria de evitar, colocar o caso Banco Master no centro da campanha eleitoral e obrigar o candidato do PL a responder por sua relação com Daniel Vorcaro.
Na propaganda eleitoral, a campanha de Lula não tratou o episódio como uma nota de rodapé, muito menos como um assunto superado. Fez o contrário, trouxe o caso para o primeiro plano, recuperou o áudio de Flávio dirigindo-se ao banqueiro e recolocou diante dos eleitores a pergunta que continua sem uma resposta politicamente convincente: afinal, o que aconteceu com o dinheiro que Flávio pediu a Vorcaro?
É uma jogada eleitoral de alto impacto porque atinge justamente o ponto mais vulnerável da candidatura de Flávio, a distância entre o discurso de candidato que promete combater a corrupção e as notícias sobre sua proximidade com personagens e negócios que estão sob investigação.
A campanha de Lula explorou essa contradição sem rodeios. O áudio, as referências ao Banco Master e ao projeto do filme Dark Horse passaram a funcionar como uma espécie de cartão de visitas político de Flávio. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, Flávio teria solicitado R$ 134 milhões a Vorcaro e recebido R$ 61 milhões; o senador afirmou que os recursos estavam relacionados à produção do filme e prometeu prestar contas.
O problema político é que, enquanto Flávio tenta declarar o assunto encerrado, a campanha adversária insiste em mantê-lo aberto. E eleição é, sobretudo, disputa pela narrativa. Se Lula conseguir fazer o eleitor associar o nome Flávio Bolsonaro às palavras Banco Master, Vorcaro e dinheiro sem explicação, terá criado uma marca eleitoral extremamente difícil de apagar.
Mais do que atacar Flávio, portanto, Lula está tentando transformar o episódio em uma pergunta permanente durante a campanha: por que um candidato à Presidência precisa ser cobrado para explicar sua relação financeira com o dono de um banco envolvido em um dos maiores escândalos do momento?
A ofensiva é ainda mais significativa porque ocorre justamente quando a corrupção voltou a ocupar lugar central na disputa presidencial.
Flávio pode tentar mudar de assunto, atacar Lula ou repetir que o episódio é “página virada”. Mas há um detalhe cruel para sua campanha: quem decide se uma página virou não é o candidato; é o eleitor.
E Lula acaba de colocar essa página bem no meio da propaganda eleitoral.
A mensagem é brutalmente simples: antes de pedir o voto dos brasileiros, Flávio terá de explicar o dinheiro, o banqueiro e a história que envolve os dois.
E quanto mais ele tentar fugir do Banco Master, mais Lula terá oportunidade de perguntar por que ele está fugindo.
O caso do Banco Master é um dos mais graves escândalos de corrupção da história do Brasil. No epicentro de tudo está Flávio, o pior dos Bolsonaros. pic.twitter.com/ODSYpoCalC
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Há uma diferença essencial entre governar e simplesmente ocupar o Palácio do Planalto: governar é escolher que país se quer construir. E, na saúde pública, a escolha de Lula é inequívoca: reconstruir o SUS, recuperar aquilo que foi desmontado e preparar o Estado brasileiro para enfrentar um dos maiores desafios das próximas décadas — o envelhecimento da população.
Não é uma tarefa pequena. O SUS atravessou anos de subfinanciamento, descontinuidade de políticas públicas, negacionismo e uma concepção de Estado que tratava direitos sociais como despesas incômodas. Durante a pandemia, essa visão produziu consequências dramáticas. Agora, o movimento é inverso: recuperar programas, recompor políticas, ampliar investimentos e devolver ao sistema público sua capacidade de cuidar de milhões de brasileiros.
Mas Lula não está apenas reconstruindo o SUS que encontrou. Está tentando fazê-lo avançar para uma nova etapa.
E a atenção à população idosa é talvez uma das expressões mais importantes dessa mudança.
O Brasil envelhece rapidamente. Ignorar essa transformação demográfica seria uma irresponsabilidade histórica. O país precisa de um sistema de saúde capaz de cuidar não apenas da doença, mas também da autonomia, da prevenção, da qualidade de vida e da dignidade de quem envelhece.
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