Globo, Veja e Estadão, acompanhados por outros pesos-pesados da velha mídia, parecem ter transformado a disputa eleitoral em uma operação política na qual o jornalismo corre o risco de virar mero instrumento de campanha. O que deveria ser cobertura equilibrada, fiscalização rigorosa e informação de interesse público passa a ser questionado diante da seletividade com que os fatos são apresentados, amplificados ou simplesmente deixados de lado.
Não se trata de exigir neutralidade absoluta de veículos que possuem linhas editoriais e interesses econômicos bem definidos. Trata-se de cobrar responsabilidade pública de empresas que concentram enorme poder de comunicação e que, por isso mesmo, têm o dever de oferecer ao cidadão informações capazes de ajudá-lo a formar sua própria opinião — e não de tentar conduzi-lo pela mão até o candidato escolhido pelos interesses que essas empresas representam.
O problema se agrava quando questões que exigem esclarecimentos, como as relações políticas, os financiamentos, os compromissos assumidos e as alianças de uma candidatura, não recebem o mesmo tratamento dispensado aos adversários. Quando um candidato é submetido a uma lupa permanente, enquanto outro parece desfrutar de uma proteção editorial, a pergunta inevitável é: quem está fiscalizando os fiscais do poder?
Globo, Veja e Estadão conhecem muito bem o peso de suas manchetes, editoriais, comentaristas e escolhas de pauta. Sabem que não é preciso declarar apoio formal a um candidato para favorecer sua campanha. Basta determinar quais assuntos dominarão o noticiário, quais denúncias ganharão destaque, quais contradições serão repetidas à exaustão e quais temas desaparecerão discretamente do horizonte público.
É assim que a disputa política pode ser distorcida sem que seja necessário publicar um único pedido explícito de voto. A influência se exerce pela repetição, pela omissão, pela hierarquia das notícias e pela construção cotidiana de uma narrativa que apresenta determinados candidatos como aceitáveis, enquanto transforma seus adversários em ameaças permanentes.
E há uma contradição histórica que não pode ser ignorada: setores da velha mídia que reivindicam para si o papel de guardiões da democracia precisam responder por seus próprios critérios democráticos. Não basta invocar a liberdade de imprensa quando são criticados. Essa liberdade, indispensável à sociedade, não elimina a obrigação de apurar os fatos com rigor, distinguir informação de opinião e submeter todos os atores políticos aos mesmos padrões de escrutínio.
A questão central, portanto, não é se Globo, Veja e Estadão têm o direito de defender suas posições editoriais. Têm. A questão é se o poder econômico e comunicacional que acumulam está sendo empregado para esclarecer o eleitor ou para favorecer uma candidatura por meio de uma cobertura seletiva.
Quando a velha mídia escolhe quais escândalos merecem manchete e quais contradições podem ser empurradas para debaixo do tapete, o eleitor tem todo o direito de desconfiar, comparar fontes e exigir explicações.
A democracia não pode ficar refém de meia dúzia de grupos de comunicação, assim como não pode depender da versão conveniente de nenhum candidato. O voto pertence ao povo, não aos donos dos jornais, das revistas e das emissoras de televisão.
E, se esses grandes veículos pretendem participar do debate político por meio de suas linhas editoriais, que o façam às claras, com argumentos, fatos verificáveis e responsabilidade. O que não podem exigir é que a sociedade confunda influência com autoridade moral, concentração de audiência com monopólio da verdade e repetição de uma narrativa com prova de que ela corresponde à realidade.
No fim das contas, a pergunta é simples: a velha mídia está cobrindo a eleição ou tentando interferir nela? A resposta exige examinar suas manchetes, suas omissões, seus critérios e o tratamento que dispensa a cada candidatura.
É justamente essa comparação que os leitores, telespectadores e cidadãos precisam fazer, sem aceitar passivamente que os interesses dos grandes grupos de comunicação sejam apresentados como se fossem os interesses do Brasil.
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