Os Estados Unidos anunciaram que respeitarão a escolha dos brasileiros nas próximas eleições, desde que o processo seja realizado de forma livre. A declaração, apresentada como uma manifestação de respeito à democracia, deveria ser recebida com uma obviedade: a decisão sobre quem governa o Brasil pertence exclusivamente aos brasileiros.
Não cabe a Washington, nem a qualquer outra potência estrangeira, estabelecer quais candidatos considera aceitáveis, quais governos prefere ou quais resultados eleitorais gostaria de ver nas urnas. Democracia não é um processo tutelado por governos estrangeiros, muito menos uma concessão feita por uma potência que se julga autorizada a dar seu aval às escolhas políticas de outros países.
Por isso, dizer que os EUA “respeitarão” a decisão dos brasileiros soa quase como uma inversão de papéis. Não é Washington que precisa autorizar a democracia brasileira. É Washington que precisa respeitar a soberania do Brasil.
O histórico recente da política internacional recomenda cautela com declarações desse tipo. Quando uma potência estrangeira passa a falar com tanta ênfase sobre eleições de outro país, a pergunta inevitável é: por que essa preocupação específica e neste momento? O respeito à soberania alheia não pode ser seletivo, conveniente ou condicionado ao resultado que interessa aos Estados Unidos.
O Brasil é uma democracia com instituições próprias, eleitorado próprio e regras eleitorais próprias. Quem coloca a mão na urna é o cidadão brasileiro — e não o Departamento de Estado americano, a Casa Branca ou qualquer autoridade estrangeira.
E há uma ironia evidente na frase: os EUA dizem que respeitarão uma escolha que, em uma democracia soberana, não depende da autorização de ninguém para ser respeitada.
Se realmente existe compromisso com a democracia brasileira, a postura mais coerente é simples: não interferir, não pressionar, não escolher favoritos e não tentar transformar a política externa em instrumento de influência sobre o eleitorado brasileiro.
Que os brasileiros sejam livres para escolher. E que os Estados Unidos sejam suficientemente democráticos para entender que a soberania brasileira não precisa de certificado de aprovação de Washington.
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