Quando a direita não tem projeto, sobra somente o sobrenome Bolsonaro

A direita brasileira chega às eleições de 2026 diante de um problema que vai muito além da disputa entre nomes, falta-lhe um projeto de país capaz de existir sem a sombra de Jair Bolsonaro.

Em vez de apresentar uma visão consistente para o Brasil com respostas para educação, saúde, desigualdade, desenvolvimento, ciência, soberania, segurança e geração de empregos, boa parte de seus candidatos parece ter escolhido um caminho mais fácil: transformar-se em diferentes versões do mesmo produto. Muda a embalagem, mas o conteúdo continua sendo Bolsonaro.

É o que ajuda a explicar o fenômeno “sabor Bolsonaro”: candidatos que tentam parecer mais moderados, mais técnicos ou mais palatáveis ao eleitorado, mas que continuam recorrendo ao mesmo repertório político, às mesmas alianças e, sobretudo, ao mesmo padrinho.

Tarcísio de Freitas talvez seja o exemplo mais eloquente. O governador de São Paulo chegou a ser tratado por setores da direita como uma alternativa capaz de superar o bolsonarismo sem romper com sua base. Mas, na prática, sua trajetória eleitoral mostra o tamanho da dependência. Tarcísio declarou apoio a Flávio Bolsonaro e afirmou que sua lealdade a Jair Bolsonaro era “inegociável”.

Ou seja: quando chega a hora de escolher entre construir uma identidade política própria e preservar o vínculo com o bolsonarismo, a direita frequentemente escolhe o segundo caminho.

E isso diz muito.

Um projeto de país não pode ser reduzido a privatizações, cortes de gastos, discursos sobre segurança ou ataques permanentes ao adversário político. Muito menos pode depender da capacidade de um sobrenome mobilizar ressentimentos, medos e paixões eleitorais.

O mais revelador é que até levantamentos sobre a própria direita apontam a ausência de uma liderança hegemônica e de um projeto único e coeso para 2026.

Enquanto isso, o campo conservador se fragmenta entre Flávio Bolsonaro, Caiado, Zema, Renan Santos e outros nomes, numa disputa que muitas vezes parece menos preocupada em explicar que Brasil pretende construir e mais interessada em descobrir quem será o legítimo herdeiro de Bolsonaro.

Tarcísio, que poderia ter tentado representar uma ruptura, acabou demonstrando justamente o contrário: sua força eleitoral não elimina a dependência do bolsonarismo. E a própria campanha paulista continua sendo atravessada pela nacionalização da disputa e pela associação do governador ao ex-presidente.

É aí que está o problema central da direita brasileira: ela parece ter confundido projeto de poder com projeto de país.

Um projeto de poder precisa apenas vencer a eleição. Um projeto de país precisa dizer o que será feito depois dela.

Precisa explicar como o Brasil crescerá, como reduzirá suas desigualdades, como enfrentará o crime organizado sem transformar segurança pública em espetáculo, como ampliará oportunidades, como fortalecerá sua indústria, como investirá em educação e ciência e qual será seu papel no mundo.

Quando essas respostas não aparecem, sobra o marketing. E, quando falta até o marketing, sobra Bolsonaro.

Por isso, tantos candidatos de direita acabam se transformando em “sabor Bolsonaro”: uns mais moderados, outros mais agressivos; uns com discurso técnico, outros com discurso populista; uns tentando agradar o mercado, outros disputando a militância radical.

Mas, no fundo, todos orbitando o mesmo centro de gravidade.

E talvez essa seja a maior fragilidade da direita para 2026: depois de tantos anos falando em “nova política”, ainda não conseguiu apresentar uma nova ideia de Brasil.

Tarcísio que o diga.


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A direita se assume como sabuja de Trump, corrupta e golpista

A direita brasileira parece ter abandonado de vez qualquer esforço para esconder aquilo que seus próprios atos vêm revelando, uma parcela significativa de seus representantes, sobretudo Flavio Bolsonaro, se comporta como uma espécie de filial política dos interesses de Donald Trump, aceita a ingerência estrangeira como estratégia eleitoral e, ao mesmo tempo, convive com denúncias de corrupção e com setores que jamais fizeram as pazes com a democracia.

O problema não é simplesmente admirar ou apoiar um líder estrangeiro. Democracias maduras podem ter afinidades ideológicas e relações diplomáticas estreitas. O escândalo começa quando políticos brasileiros passam a tratar os interesses de uma potência estrangeira como prioridade, mesmo quando isso significa pressionar o próprio país. É a inversão completa do princípio de soberania: em vez de defender o Brasil, defendem Trump.

E a submissão não aparece isoladamente. Ela se soma a um histórico político marcado por ataques às instituições, questionamentos sem provas sobre eleições, ameaças contra o Estado Democrático de Direito e a insistência em transformar derrotas eleitorais em supostas conspirações. Quando a democracia não entrega o resultado desejado, parte dessa direita simplesmente tenta deslegitimá-la.

Ao mesmo tempo, os discursos moralistas sobre combate à corrupção perdem força diante das sucessivas suspeitas envolvendo integrantes, aliados e operadores desse campo político. A velha retórica da “família, Deus e pátria” revela-se cada vez mais conveniente: serve para esconder contradições, relativizar escândalos e transformar investigação em perseguição sempre que o investigado pertence ao grupo.

Há, portanto, uma combinação particularmente perigosa: subserviência externa, tolerância com suspeitas de corrupção e desprezo pelas regras democráticas. Não se trata mais apenas de uma disputa entre esquerda e direita. Trata-se de decidir se a política brasileira continuará submetida aos interesses do eleitor brasileiro ou se parte da direita aceitará transformar o país em instrumento de uma agenda estrangeira.

A democracia não exige unanimidade. Exige soberania, respeito às instituições e responsabilidade pública. Quem aceita pressão estrangeira contra o próprio país, relativiza suspeitas de corrupção e flerta com soluções golpistas não pode depois posar de defensor da pátria.

No fim, a contradição é gritante: aqueles que mais falam em patriotismo são justamente os que, diante de seus interesses políticos, parecem dispostos a colocar o Brasil em segundo plano. E talvez seja essa a revelação mais incômoda: por trás do discurso de patriotismo, há quem esteja disposto a servir a Trump; por trás do discurso anticorrupção, há quem relativize denúncias; e por trás do discurso em defesa da liberdade, há quem não aceite a própria democracia quando ela contraria seus interesses.

Soma-se a isso a volta do negacionismo contra as vacinas que, agora, estimula o aumento exponencial do sarampo, como ocorre no Brasil, sobretudo em São Paulo.

Numa recontagem sobre as vítimas fatais da pandemia de covid, o número revela o assustador resultado de mais de 2 milhões de brasileiros mortos em consequência da doença. Estudo divulgado pela Dra. Margareth Dalcolmo da Fiocruz.


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Kassab desafia Flávio Bolsonaro: Diz que Centrão está com Lula e que Flavio “Vai desabar” quando a campanha começar

A campanha eleitoral ainda nem começou oficialmente, mas Gilberto Kassab já colocou em xeque a viabilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro. Presidente nacional do PSD e candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado, Kassab foi direto ao afirmar que considera “zero” a chance de Flávio vencer a eleição e que o senador está sendo, neste momento, politicamente “preservado” pelos adversários. Para ele, essa proteção vai desaparecer assim que a disputa começar de fato — e o candidato do PL deverá “desabar” nas pesquisas.

A declaração é especialmente significativa porque parte de um dirigente que conhece profundamente a lógica do Centrão: partidos desse campo raramente se movem por fidelidade ideológica; calculam riscos, espaços de poder, tempo de televisão, palanques regionais e, sobretudo, quem demonstra maior possibilidade de vitória. Nesse sentido, a leitura de Kassab é que Flávio Bolsonaro ainda não conseguiu convencer essas forças de que possui musculatura para chegar ao Palácio do Planalto.

Mais do que uma simples provocação eleitoral, a fala revela um problema central da candidatura bolsonarista: o sobrenome Bolsonaro pode garantir uma base fiel, mas não necessariamente é suficiente para ampliar a votação para além dela. A campanha oficial, que começa neste domingo (16), tende a colocar Flávio sob um escrutínio muito maior, transformando seu histórico político, seus aliados e suas propostas em alvos permanentes dos adversários.

Kassab também fez uma afirmação politicamente explosiva: segundo ele, embora partidos do Centrão tenham adotado formalmente uma posição de neutralidade, na prática o grupo está com Lula. União Brasil, PP e Republicanos, por exemplo, não fecharam uma aliança nacional com Flávio e mantêm espaço para movimentos pragmáticos nos estados. Essa ausência de apoio formal pode representar um problema considerável para uma candidatura que precisa de palanques regionais, estrutura partidária e tempo de propaganda para alcançar eleitores fora de seu núcleo mais fiel.

Há, portanto, uma contradição importante no discurso bolsonarista: enquanto Flávio tenta se apresentar como o candidato capaz de unir a direita e derrotar o PT, uma parcela relevante das forças políticas que poderiam sustentar essa candidatura prefere manter distância. No mundo real da política, isso significa que o entusiasmo das redes sociais não necessariamente se converte em alianças, votos e estruturas eleitorais.

As pesquisas ajudam a explicar por que o cenário ainda está longe de estar decidido. A Quaest divulgada nesta sexta-feira mostra Lula com 38% e Flávio com 31% no primeiro turno. Num eventual segundo turno entre os dois, Lula aparece com 43% e Flávio com 40%, em empate técnico dentro da margem de erro. Ao mesmo tempo, a rejeição a Flávio chega a 54%, enquanto a de Lula está em 52%.

Ou seja: Kassab pode estar fazendo uma aposta eleitoral, e não anunciando um resultado antecipado. Dizer que Flávio “vai desabar” é uma previsão política, não um fato consumado. Mas o alerta tem peso porque toca justamente no ponto mais vulnerável da candidatura: sua capacidade de crescer para além do eleitorado bolsonarista tradicional.

E é aí que o início da campanha pode mudar o jogo. Com a propaganda eleitoral, os debates, os ataques dos adversários e a exposição ampliada dos candidatos, a imagem cuidadosamente construída durante a pré-campanha será submetida ao teste das urnas. Se Flávio não conseguir transformar a força do bolsonarismo em uma candidatura capaz de atrair eleitores independentes e setores do centro, a previsão de Kassab poderá ganhar contornos mais concretos.

No fundo, a declaração do presidente do PSD revela uma disputa que vai muito além de Lula contra Flávio. É também uma batalha pelo Centrão e pelo eleitor que rejeita tanto o petismo quanto o bolsonarismo. Kassab e Caiado tentam ocupar justamente esse espaço. E, ao afirmar que Flávio está sendo “preservado” e que irá “desabar” quando for efetivamente confrontado, Kassab não apenas critica o adversário: ele tenta convencer o eleitorado de que a candidatura de Flávio é mais frágil do que aparenta.


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Lula, o FMI, a economia e as tragédias econômicas da direita

A direita pariu Bolsonaro e o bolsonarismo. Esse mérito ninguém pode negar.

Comecemos pelo começo. Quando a catátrofe do golpe de 1964 se abateu sobre o Brasil, a ditadura organizadora, que recebeu de Jango, de esquerda, um país com uma dívida externa de R$ 3 bilhões, foi nas mãos dos militares à estratosfera, com o impagável endividamente, aomente ao FMI, mais de R$ 100 bilhões, junto, uma hiperinflação nunca vista na história e, entregaram o país aos civis, 21 anos depois, com a economia absolutamente colapsada.

O Brasil estava rigorosamente falido, sem condição de sair da completa estagnação e sem qualquer nota dos ditadores sobre o caos econômico que produziram no país.

Somando os 21 anos dos militares rigorosamente de extema direita que, mais tarde, pariu Bolsonaro e seus filhos pilantras, o Brasil teve 5 anos de José Sarney que correspondeu úbica e exclusivamente a um mesmo dilema, o de governar a partir da régua do FMI, assim como foi Fernando Collor e Itamar Franco, todos herdeiros da hiperinflação cavada pelos militares e com um aparato informativo com todas as loas para os gênios da economia que pioraram, e muito, a vida nacional, com planos econômicos mirabolantes, sequestro da poupança dos brasileiros eprovatizações de todas as estatais para onde o n ariz apontava.

Depois dessa tragédia, vem Fernando Herique Cardoso, que acabou enfiando um lambçao dentro do outro, desde os  ilitares até Itamar, ainda se endividou mais com o FMI, já que nenhum dos seus antecessores pagou lhufas a um fundo que mandava e desmandava no Brasil, porque, segunto todos acredityavam, a dívida com o FMI era impagável.

Então, vem Lula, aquele que a direita sempre chamou de analfabeto e gastador, e coloca ordem na cqasa, liquida a dívida do Brasil com o FMI, além de emprestar R$ 15 bilhões paa o Fundo e, pela primeira vez, acumulou reservas internacionais no valor de R$ 350 bilhõesw.

Depois veio Dilma, ampliou o empréatimo do Brasil para o FMI e aumentou as reservas in ternacionais para R$ 374 bilhões.

Soma-se a isso, o fim da miséria e o Brasil fora do mapa da fome, depois de Lula e Dilma tirarem dessa condição humana degradante 36 milhões de brasileiros, zerando a mortalidade infantil que custava mais de 300 vidas de crianças diariamente em decorrência da fome.

Por isso foi bom Lula, em entrevista no Inteligência Ltda:


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Brasil reage ao tarifaço dos EUA e inicia processo de reciprocidade

O Brasil deu um passo concreto para responder ao tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump. Nesta quinta-feira (13), o governo federal iniciou formalmente o processo previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao país adotar contramedidas diante de barreiras comerciais consideradas injustificadas. O Itamaraty também notificou os Estados Unidos e solicitou consultas diplomáticas.

A iniciativa não significa que o Brasil vá impor imediatamente novas tarifas aos produtos americanos. É, antes, o início de uma análise que deverá ouvir os setores atingidos e avaliar quais medidas seriam proporcionais aos prejuízos provocados pelas decisões de Washington. Entre as possibilidades estão restrições a importações e outras contramedidas comerciais previstas pela legislação.

A reação brasileira ocorre diante de tarifas americanas que podem chegar a 37,5% sobre determinados produtos. O impacto já começa a aparecer no comércio bilateral: entre janeiro e julho de 2026, as exportações brasileiras para os EUA recuaram 12,2%, segundo levantamento da Amcham Brasil. Nos produtos submetidos às sobretaxas mais elevadas, a queda chegou a 31,5%.

O governo Lula, porém, procura evitar uma escalada irresponsável. A estratégia combina pressão diplomática, defesa do comércio multilateral e preparação de uma resposta caso os Estados Unidos mantenham as tarifas. A mensagem é clara: o Brasil não pretende aceitar unilateralmente uma política comercial que prejudique sua economia, seus empregos e suas empresas.

A Lei da Reciprocidade funciona, nesse cenário, como instrumento de soberania econômica. O Brasil sinaliza que está disposto a negociar, mas também demonstra que negociação não significa submissão. Se Washington escolhe impor barreiras de forma unilateral, Brasília passa a ter mecanismos legais para responder.

Mais do que uma disputa tarifária, está em jogo o princípio de que relações entre países soberanos não podem ser conduzidas pela lógica do ultimato. O Brasil abre a porta para o diálogo, mas deixa claro que também está preparado para defender seus interesses.

E essa talvez seja a principal mensagem do movimento: o Brasil prefere a negociação, mas não aceitará que a negociação seja confundida com rendição.


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Perseguição a Haddad exige investigação, não respostas apressadas

O pedido do ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Mauro Caseri, para que seja aprofundada a investigação sobre os policiais militares envolvidos no episódio relatado por Fernando Haddad é um sinal de que o caso está longe de poder ser encerrado com uma explicação preliminar. Mais do que isso: a sugestão de quebra do sigilo telefônico dos agentes mostra que ainda existem perguntas fundamentais sem resposta.

Haddad relatou que, depois de deixá-lo em casa, seu motorista teria sido acompanhado de maneira ostensiva por uma viatura da PM durante cerca de 40 minutos. O episódio teria incluído aproximação excessiva da viatura e uma tentativa do motorista de obter explicações dos policiais. A campanha do candidato levou o caso à Procuradoria Regional Eleitoral, diante da possibilidade de que a ação tivesse relação com o contexto político-eleitoral.

A Secretaria da Segurança Pública afirma que analisou imagens de aproximadamente 40 câmeras e dados de geolocalização das viaturas e, até o momento, não encontrou indícios de irregularidade. A investigação, porém, continua aberta e pode avançar caso surjam novos elementos.

É justamente aí que está o ponto central. Uma investigação não pode começar pela conclusão. Se há uma denúncia envolvendo agentes públicos armados, um candidato ao governo do Estado e um episódio ocorrido em plena disputa eleitoral, o caminho correto é esclarecer cada detalhe, ouvir todas as testemunhas, confrontar versões, analisar as câmeras corporais e verificar os contatos telefônicos dos policiais, caso isso seja juridicamente autorizado.

O próprio ouvidor questiona por que uma viatura teria continuado acompanhando o veículo depois que Haddad desembarcou e considera insuficiente simplesmente ouvir os policiais para concluir que não houve abuso. Segundo Caseri, também é necessário esclarecer se as câmeras corporais foram acionadas conforme os protocolos.

E há uma questão política que não pode ser ignorada: Haddad é candidato ao governo paulista e enfrenta justamente o grupo político que administra a estrutura de segurança pública do Estado. Isso não prova qualquer motivação política na ação policial — mas torna ainda mais indispensável uma investigação independente, rigorosa e transparente.

Se foi apenas uma coincidência ou uma diligência policial legítima, a apuração séria servirá para demonstrá-lo. Se houve abuso, intimidação ou qualquer desvio de finalidade, é igualmente necessário que os responsáveis sejam identificados e responsabilizados.

O que não pode acontecer é uma denúncia dessa gravidade ser tratada como um episódio banal e encerrada às pressas. Quando policiais são acusados de perseguir ou intimidar um candidato, a democracia exige mais investigação, não menos. E, neste caso, quanto mais completa e transparente for a apuração, melhor para todos — inclusive para a própria Polícia Militar.


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EUA militarizam América Latina e iniciam implantação de ‘Doutrina Donroe’

Um ano e meio depois de assumir o governo norte-americano e colocar a América Latina como uma de suas prioridades de sua atuação internacional, a presidência de Donald Trump inicia uma ofensiva para militarizar a região e implementar o controle sobre o Hemisfério, tese conhecida em Washington como Doutrina Donroe.

Nesta semana, no Panamá, o governo norte-americano enviou parte de sua cúpula militar para reuniões com os 18 países que fazem parte do Escudo das Américas, iniciativa criada no começo do ano para estabelecer uma aliança na região, supostamente no combate ao “terrorismo, narcotráfico e cartéis”.

Pete Hegseth, secretário de Guerra, anunciou que os EUA iniciariam ataques por terras contra cartéis na América Latina. No Equador, as operações já são uma realidade e, agora, a Colômbia autorizou o mesmo padrão de ação.

Mas com a presença de forças e ministros da Argentina, El Salvador, Paraguai e outros aliados, o encontro serviu ainda para desenhar a construção de uma nova realidade regional, sem a presença do Brasil.

Foi longe dos holofotes que a operação, de fato, ganhou contornos que passou a preocupar diplomatas brasileiros e estrangeiros. Um dos elementos centrais da estratégia é a criação de uma central de inteligência que, sob o comando dos EUA, poderia atuar em toda a região.

Condor 2.0?
Os países ainda seriam submetidos a entregar inteligência de pessoas e organizações, numa espécie de ofensiva regional contra qualquer ator que possa ser considerado como uma “ameaça” aos interesses dos EUA.

Hoje, o discurso é de que a ameaça vem dos cartéis. Mas há quem tema que a estrutura montada permitirá que os EUA se dêem todos os meios para frear qualquer tipo de ator que possa representar algum desafio para seus interesses.

O acesso aos recursos naturais, por exemplo, seria um desses cenários futuros, principalmente com a concorrência da China.

Não por acaso, membros de forças de oposição em países latino-americanos que optaram por entrar no projeto falam da repetição da lógica do Plano Condor, criado nos anos 70 para coordenar ações contra atores subversivos na região. A diferença é que, naquele momento, a operação era sigilosa.

Plano começa a ser implementado
Nesta semana, o general do Corpo de Fuzileiros Navais Francis L. Donovan, comandante do Comando Sul dos EUA, afirmou que os membros da coalizão definiram os próximos passos da iniciativa, incluindo o “aprimoramento dos planos de campanha prioritários contra as redes criminosas, a designação de funções e nações líderes, o estabelecimento de grupos de trabalho com objetivos e marcos específicos e o início das avaliações da campanha da coalizão”.

“Entre agora e novembro, vamos elaborar um plano de campanha”, disse ele. “Vamos analisá-lo com nossos colegas e membros aqui presentes e aprová-lo até novembro”, explicou.

O general também afirmou que os governos da coalizão se apresentaram como candidatos para liderar as operações em diferentes setores. “Ontem, ao final da nossa sessão, saímos e fizemos um levantamento inicial… quem quer liderar em diferentes regiões? Quem quer liderar, para… combater essas redes?”, disse Donovan. “Tivemos voluntários imediatamente, nações que queriam se apresentar e assumir a liderança em sub-regiões e combater certas ameaças”, disse.

A referência à suposta liderança de outros países, porém, não passa de uma manobra para vender a ideia à opinião pública dos países envolvidos de que eles seriam supostamente “parceiros”.

A realidade é que, dias antes do anúncio da construção concreta da aliança, o Comando Sul dos EUA ativou a Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (JTF-WHEM). A estrutura, segundo nota do Pentágono, foi “criada especificamente para sincronizar as operações militares dos EUA com aliados e parceiros, a fim de combater ameaças, fortalecer a segurança regional e responder rapidamente a crises em todo o Hemisfério Ocidental”.

“O Comandante do SOUTHCOM, General Francis L. Donovan, ordenou a ativação da JTF-WHEM, que fornece comando e controle unificados nos níveis tático e operacional, integrando capacidades militares com as 18 nações parceiras da Coalizão Anticartel das Américas (A3C) para aumentar a eficácia operacional contra ameaças que prejudicam a segurança regional e impactam os Estados Unidos e as nações parceiras”, explicou.

De acordo com a nota, o órgão também fortalece a capacidade do SOUTHCOM de responder rapidamente a “contingências e crises humanitárias em toda a região”.

“A JTF-WHEM fortalece nossa capacidade de trabalhar ao lado de aliados e parceiros confiáveis, sincronizar capacidades militares e aplicar pressão sustentada contra as redes que ameaçam nossa segurança coletiva”, disse Donovan. “Juntos, estamos aumentando a segurança em todo o hemisfério e protegendo nossa pátria.”

Donovan selecionou o major-general do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Kevin Jarrard, para comandar a nova força-tarefa. Jarrard foi quem liderou recentemente o apoio militar dos EUA às operações de socorro após os terremotos de junho de 2026 na Venezuela.

Troca de inteligência
O que chamou a atenção de diplomatas estrangeiros e brasileiros é que a nova força-tarefa afirma que integra inteligência, vigilância e reconhecimento, planejamento operacional e coordenação multinacional para “aumentar a pressão sobre organizações nefastas que operam em todo o Hemisfério Ocidental”.

Um dos pontos centrais é o o fato de que “força-tarefa fortalecerá o compartilhamento de informações, expandirá o treinamento combinado, aprimorará a interoperabilidade, apoiará os esforços de interdição marítima, desenvolverá a capacidade dos parceiros e permanecerá preparada para fornecer assistência humanitária e resposta a desastres quando solicitada”.

“A Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental é o braço de ação do SOUTHCOM para enfrentar ameaças em todo o hemisfério”, disse Donovan. “Construído especificamente para esse fim e organizado para tarefas específicas, este quartel-general reúne capacidades militares personalizadas e parcerias de confiança para aumentar a fricção sistêmica total, o ritmo operacional, impor pressão sustentada sobre organizações criminosas e fortalecer a segurança dos Estados Unidos e de nossos parceiros. Juntamente com as 18 nações, estamos mudando a forma como enfrentamos essas ameaças”, completou.

“Fazemos coisas ruins com pessoas ruins”
Coube ao secretário da Guerra dos EUA, Pete Hegseth, dar o tom polêmico e político da operação. Segundo ele, o governo Trump iniciará imediatamente a tomar “medidas concretas” para lutar supostamente contra os cartéis da região.

“Quando dizemos que vamos desmantelar os cartéis, estamos falando sério, e sei que as nações desta coalizão sentem exatamente o mesmo… e tomarão medidas concretas — às vezes arriscadas, corajosas — em parceria.”

“Acreditamos que não há tempo a perder e não há momento melhor do que agora”, disse ele.

“O novo lema da Coalizão é: ‘Fazemos coisas ruins com pessoas ruins’”, disse ele. “Essa é a mentalidade que quero ver nesta sala. Estamos lidando com pessoas ruins que fizeram muitas coisas ruins com muitas pessoas boas, por muito tempo. E elas estão prestes a conhecer um novo xerife na cidade, e não estamos brincando. Narcoterroristas., traficantes de drogas, estejam avisados”, completou.

*Jamil Chade/ICL


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Quanto mais André Mendonça se cala sobre Flávio Bolsonaro, mais seu silêncio fala por ele

Há momentos em que o silêncio deixa de ser ausência de manifestação e passa a ser uma mensagem política. No caso do ministro André Mendonça, a demora em se posicionar sobre questões que envolvem Flávio Bolsonaro e sua campanha presidencial alimenta justamente essa percepção: quanto mais o ministro se cala, mais seu silêncio passa a ser interpretado como uma escolha.

O momento é especialmente delicado. Mendonça é relator, no Supremo Tribunal Federal, de processos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, enquanto a campanha de Flávio Bolsonaro é acusada pelo PT de ter tido acesso a áudios que estariam sob sigilo judicial. O partido pediu ao STF que investigue o suposto vazamento, e Mendonça está diretamente envolvido na análise de parte desses processos.

A questão, portanto, não é exigir que um ministro condene ou absolva alguém por pressão política. É exigir transparência, coerência e igualdade de tratamento. Quando há acusações graves envolvendo um candidato à Presidência, o silêncio prolongado de uma autoridade judicial pode produzir uma impressão extremamente perigosa: a de que existem situações que merecem respostas imediatas e outras que podem esperar.

E essa impressão se torna ainda mais incômoda diante de outras decisões recentes do ministro no ambiente eleitoral. Mendonça e Kassio Nunes Marques sinalizaram entendimento favorável a uma possível flexibilização das regras sobre deepfakes, tema que envolve diretamente a campanha de Flávio Bolsonaro. O TSE, porém, atualmente possui regras que vedam o uso de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas.

Não se trata de afirmar, sem provas, que André Mendonça esteja favorecendo Flávio Bolsonaro. Trata-se de algo mais simples e mais sério: a Justiça precisa parecer tão imparcial quanto deve ser.

Em uma eleição marcada por desinformação, inteligência artificial, vazamentos de informações e disputas judiciais, ministros dos tribunais superiores não podem permitir que suas omissões sejam transformadas em combustível para suspeitas. A autoridade de um magistrado não se sustenta apenas nas decisões que assina, mas também na confiança pública que consegue preservar.

E confiança pública não combina com dois pesos e duas medidas.

Se há uma acusação contra Flávio Bolsonaro, que seja investigada. Se não há fundamento, que isso seja esclarecido. Se há ilegalidade, que sejam tomadas as providências cabíveis. O que não pode prevalecer é um silêncio que se prolonga justamente quando as dúvidas aumentam.

Porque, na política e na Justiça, o silêncio também comunica.

E quanto mais tempo André Mendonça permanecer calado sobre Flávio Bolsonaro, mais espaço haverá para que a sociedade faça a pergunta inevitável: o que exatamente esse silêncio está dizendo?


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O mesmo Tarcísio de Freitas, que é formado em engenharia pelo IME, como governador, diz que diploma não vale nada

O diploma vale menos — menos para quem?

Há algo de profundamente contraditório na fala do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, ao afirmar que “o diploma cada vez tem menos relevância”. A declaração foi feita em novembro de 2025, durante um evento sobre a expansão do ensino médio técnico, quando ele defendeu a ideia de que o mercado estaria mais interessado nas habilidades do trabalhador do que no lugar onde ele se formou.

O problema é que o autor dessa tese não chegou ao cargo que ocupa ignorando a importância da formação acadêmica. Muito pelo contrário.

Tarcísio é formado em Engenharia pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), uma das instituições de ensino de engenharia mais tradicionais e rigorosas do país. O próprio Ministério dos Transportes já registrou a importância que ele atribuía à formação recebida no IME, descrevendo-a como uma verdadeira “caixa de ferramentas” para enfrentar problemas profissionais.

E aqui está a contradição que merece ser exposta: se o diploma vale tão pouco, por que a formação de Tarcísio no IME é apresentada como credencial para demonstrar sua capacidade técnica?

Ninguém está dizendo que um diploma, sozinho, transforma alguém em um profissional competente. Evidentemente, experiência, capacidade de comunicação, criatividade e conhecimento prático também são fundamentais. O problema começa quando essa constatação é transformada em argumento para diminuir a importância da universidade e da educação formal.

Porque os dados não sustentam a ideia de que estudar perdeu relevância. Segundo dados da OCDE citados à época da declaração, brasileiros de 25 a 64 anos com ensino superior ganham, em média, 148% mais do que aqueles que têm apenas o ensino médio. Além disso, a própria OCDE aponta que a formação superior aumenta as chances de emprego e de melhores salários.

Portanto, dizer a um jovem que o diploma “vale cada vez menos” pode ser uma mensagem especialmente perigosa em um país onde a educação ainda é uma das principais portas de ascensão social.

E existe uma ironia adicional: Tarcísio não é um exemplo de alguém que chegou onde chegou apesar da formação acadêmica. Sua trajetória é, justamente, um exemplo de como uma formação altamente qualificada pode abrir portas.

O IME não é um detalhe biográfico. É parte importante da construção da imagem de Tarcísio como gestor técnico. O próprio instituto define sua missão como a formação superior em Engenharia e a produção de conhecimento científico e tecnológico.

Por isso, a pergunta que fica é simples: o diploma perdeu valor ou é conveniente dizer que ele perdeu valor quando se fala com os filhos dos outros?

Para quem teve acesso a uma formação de excelência, o diploma pode ser apresentado como consequência de esforço, competência e preparo. Para quem ainda luta para chegar à universidade, porém, a mensagem parece ser outra: não precisa estudar tanto, não precisa chegar ao ensino superior, basta desenvolver algumas “habilidades” e deixar que o mercado resolva.

Não deveria ser assim.

O papel de um governante deveria ser ampliar oportunidades, fortalecer a escola pública, democratizar o acesso às universidades e garantir que jovens pobres também possam conquistar os mesmos diplomas que ajudaram a construir as carreiras das elites brasileiras.

Desvalorizar o diploma não democratiza o conhecimento. Democratizar o conhecimento é garantir que todos possam conquistá-lo.

Tarcísio tem todo o direito de defender o ensino técnico. O que não faz sentido é transformar a valorização do ensino técnico em uma espécie de contraponto à universidade — muito menos sugerir que a formação superior esteja se tornando irrelevante justamente em um país que ainda possui uma parcela relativamente pequena de adultos com diploma universitário.

No fim, a frase do governador pode ser resumida em uma pergunta incômoda: se o diploma não vale tanto, por que justamente o diploma do IME continua sendo tão importante para contar a história de Tarcísio de Freitas?

A resposta talvez seja mais reveladora do que a própria declaração.


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