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Lula dará entrevista ao Flow no mesmo horário do debate da Globo amanhã

O presidente Lula (PT) dará entrevista ao Flow Podcast nesta quinta (1º), no mesmo horário do debate presidencial promovido pela Globo. O petista já comunicou à emissora que não participará do encontro televisivo, enquanto o podcast confirmou sua presença nas redes sociais.

A decisão repete a estratégia adotada na data do debate da Band, quando Lula concedeu uma entrevista exclusiva à Record. A campanha do presidente tem priorizado aparições em formatos nos quais ele responde a perguntas sem a dinâmica de confronto direto do debate.

Aliados de Lula avaliam que os debates podem desgastar sua imagem porque os adversários concentrariam críticas contra o presidente. Na leitura do grupo, o tempo limitado para respostas dificultaria rebater todos os ataques durante o programa.

Com Lula fora do estúdio da Globo, integrantes da campanha esperam que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se torne o principal alvo dos demais participantes e precise responder aos ataques e questionamentos dos concorrentes.

Lula chegou a considerar comparecer ao programa, mas a tendência de ausência ganhou força entre seus aliados nos últimos dias. O grupo defendia que o presidente poderia ficar isolado diante das investidas dos outros candidatos.

O Flow Podcast anunciou nas redes sociais que receberá Lula no horário reservado ao debate da Globo. A entrevista coloca o presidente em uma plataforma digital de grande alcance, fora da programação tradicional da televisão.

A escolha pelo podcast mantém a campanha de Lula em uma linha já usada no confronto marcado pela Band: substituir o debate por uma entrevista exclusiva em outro veículo de comunicação.


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Terrivelmente evangélico, o cristão de Taubaté

André Mendonça gosta de se apresentar como o “terrivelmente evangélico” indicado por Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal. Mas, quando se observa sua atuação pública, a pergunta que permanece é outra: que tipo de cristianismo é esse que parece tão confortável diante dos interesses do poder?

A toga pode ser preta, a linguagem pode ser jurídica e a retórica pode invocar Deus. Mas nenhum verniz religioso substitui o dever fundamental de um ministro do Supremo: agir com independência, imparcialidade e compromisso com a Constituição.

É justamente aí que a figura do “cristão de Taubaté” ganha contornos de ironia. Porque fé verdadeira não deveria funcionar como selo de autenticidade política, muito menos como salvo-conduto para decisões que beneficiem aliados do grupo que colocou o ministro no cargo.

No fim, o que importa não é o discurso religioso de André Mendonça, mas aquilo que ele faz sob a toga. Cristianismo se proclama com palavras; independência judicial se demonstra com decisões.


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Luciano Huck e Vorcaro trocaram mensagens sobre negócios, aviões e articulações na Globo, diz revista

Mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro mostram uma relação próxima entre o banqueiro e o apresentador Luciano Huck, com negócios, encontros, empréstimos de aeronaves e troca de favores. As informações foram divulgadas pela coluna Radar, da revista Veja.

As conversas mostram que os dois mantinham contato desde 2023. Em novembro daquele ano, após um encontro, Huck escreveu: “Bom te encontrar pessoalmente hoje. Nos devemos um papo. Abração”. Vorcaro respondeu: “Fala, amigo. Bom demais te ver”.

A relação também envolveu negócios. Vorcaro, por meio do Will Bank, fechou uma parceria de mídia com o programa “Domingão com Huck”. Em uma das mensagens, o apresentador menciona R$ 83 milhões em mídia para a Globo e R$ 26 milhões em um contrato pessoal.

Huck e Vorcaro também tinham sociedade em um avião Gulfstream G550. Em fevereiro de 2024, o apresentador escreveu ao banqueiro: “Estou buscando um sócio para o G550. Se te interessar, bora falar”. Vorcaro respondeu: “Vamos conversar”.

O apresentador também recorreu a aeronaves de Vorcaro para viagens. Segundo as mensagens, um avião foi utilizado por Huck para chegar a Canoas (RS), durante a tragédia climática de 2024, e outro para uma viagem a Varsóvia, na Polônia, onde entrevistou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

As conversas mostram ainda Huck auxiliando Vorcaro em negociações com a Globo. Em outubro de 2024, após um jantar, o apresentador escreveu: “Valeu pelo jantar e, principalmente, pela conversa e confiança”. Na mesma mensagem, afirmou estar acompanhando as tratativas com a emissora.

A proximidade também era pessoal. Huck convidou Vorcaro para uma pizza em sua casa com o ex-jogador Ronaldo Nazário, o Ronaldo Fenômeno, e escreveu: “Precisamos começar a construir esta candidatura à CBF”.

Em 2025, enquanto o Banco Master enfrentava dificuldades, Huck continuou demonstrando apoio ao banqueiro. “Quero entender como as coisas estão andando e onde está sua cabeça. E, obviamente, se posso ajudar em alguma frente”, escreveu. Em outra conversa, afirmou: “Estou com você em qualquer frente”.

A última mensagem citada pela Veja foi enviada em 17 de novembro de 2025, pouco antes da prisão de Vorcaro. Após a notícia sobre uma suposta venda do Banco Master, Huck escreveu: “Vi a boa notícia da compra do Master agora no JN. Muito bom. Congrats. Você merece sair inteiro desta turbulência toda”.

Vorcaro foi preso naquela noite, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava deixar o país.

Luciano Huck ainda não se manifestou sobre as mensagens.

*ICL


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Ao fim e ao cabo, André Mendonça e Fux sublinham, falou em família miliciana, falou em Flavio Bolsonaro

O post de Antônio Tabet não citava nominalmente Flávio. Ainda assim, ao analisar o pedido apresentado pela campanha do candidato, André Mendonça vinculou a expressão ao núcleo familiar de Flávio e determinou a retirada da publicação. Foi justamente esse ponto que provocou a crítica de Leonardo Sakamoto: ao decidir que a postagem se referia à família Bolsonaro, a própria decisão judicial acabou estabelecendo essa associação.

E então veio Luiz Fux: depois de Flávio Dino restabelecer a publicação em defesa da liberdade de expressão, Fux suspendeu a decisão de Dino e recolocou em vigor a determinação de retirada até que o plenário do STF examine o caso. A medida foi tomada após recurso da própria campanha de Flávio Bolsonaro.

Ou seja: falou-se em “família miliciana”, falou-se no clã Bolsonaro — e o próprio caminho judicial aberto a pedido de Flávio acabou colocando essa expressão no centro da disputa.

A pergunta política, portanto, não é apenas quem escreveu a frase. É por que uma expressão que não nomeava Flávio passou a ser judicialmente interpretada como referência direta à sua família.

No fim, a tentativa de apagar a frase acabou produzindo justamente o debate que se pretendia retirar de circulação.

Com um adendo, a mídia, mergulhada até o pescoço na campanha da família miliciana, mordeu a isca de pimenta Murupi, apoiou uma descarada censura de uma frase humorística com editorial, com tudo. Estadão e O Globo que o digam, para vergonha de um jornalismo sério.

De lambuja, torna o que é oficial em slogan de campanha: falou em família miliciana, falou em Flavio Bolsonaro.


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Kassio Nunes Marques manda apagar comício inteiro de Lula e proíbe painéis de LED em atos petistas

Vai segurar a correnteza com as mãos?

Decisão atende a Flávio Bolsonaro, veta estruturas com efeito de outdoor e trata alerta de Lula sobre eventual “falcatrua” como associação do TSE à fraude

presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, determinou a retirada do YouTube da transmissão completa de um comício do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e proibiu a campanha petista de utilizar em seus atos painéis eletrônicos que, isoladamente ou em conjunto, produzam efeito visual semelhante ao de um outdoor. A liminar também aponta uma terceira irregularidade, relacionada à exibição do nome de Lula sem o do vice, Geraldo Alckmin (PSB).

A decisão, publicada nesta segunda-feira (28), atende a pedidos de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, e tem como origem o comício realizado pela campanha de Lula em Teresina, no Piauí, em 9 de setembro. A decisão é provisória e ainda será submetida aos demais ministros do TSE.

No caso dos painéis, Nunes não se limitou a considerar irregular a estrutura utilizada naquele evento. A ordem tem efeito sobre os próximos atos da campanha e proíbe o uso de painéis eletrônicos sempre que o conjunto for considerado capaz de produzir impacto visual equivalente ao de um outdoor.

No palco montado em Teresina, havia um grande painel eletrônico ao fundo e outros dois nas laterais. Para Kássio Nunes Marques, as três estruturas, vistas em conjunto, produziram justamente esse efeito e, por isso, violaram a proibição de outdoors na propaganda eleitoral.

O que diz a legislação
A legislação eleitoral não fixa uma metragem única a partir da qual um painel passa automaticamente a ser considerado outdoor. A jurisprudência do próprio TSE leva em consideração o impacto visual produzido pela propaganda e admite que diferentes peças sejam avaliadas conjuntamente.

Isso significa que o simples uso de um painel de LED não é, por si só, proibido. O enquadramento depende das características da estrutura e do efeito visual produzido. A ordem de Nunes, portanto, não veta genericamente a tecnologia, mas impede a campanha de utilizá-la nas situações em que o painel ou a combinação deles reproduza o impacto de um outdoor.

A decisão prevê a possibilidade de multa diária e de outras medidas caso a determinação seja descumprida.

Ministro aponta ausência de Alckmin, mas imagens mostram o vice
Ao analisar os mesmos painéis, Nunes Marques identificou uma segunda irregularidade. Segundo o ministro, em determinados momentos o nome de Lula apareceu sem o de Geraldo Alckmin.

A legislação eleitoral determina que, quando o nome do candidato a presidente é exibido em uma propaganda, o nome do vice também apareça de forma clara e em tamanho correspondente a pelo menos 30% do nome do titular.

Imagens produzidas pela campanha petista mostram, porém, que Alckmin aparece nos painéis em outros momentos do mesmo evento. Isso não afasta necessariamente uma eventual irregularidade nos momentos em que somente o nome de Lula foi exibido, mas mostra que o vice não foi simplesmente excluído da comunicação visual do comício.

Há ainda uma particularidade na própria decisão. Embora Nunes tenha incluído a ausência concomitante do nome de Alckmin entre as irregularidades encontradas, não colocou na parte final da liminar uma determinação específica relacionada a esse ponto.

“Das imagens e vídeo acostados, depreende-se um ataque injustificado à Justiça Eleitoral e duas outras irregularidades na propaganda divulgada durante o evento impugnado, quais sejam, a utilização de engenho com efeito equivalente ao alcançado por outdoor e a ausência do nome do candidato à vice-presidente concomitantemente à aparição do nome do cabeça de chapa”, escreveu.

Lula e aliados destacam educação e desenvolvimento no Piauí

Uma frase leva à retirada do comício inteiro
A medida de maior alcance sobre o conteúdo do evento surgiu de uma declaração de Lula sobre as eleições.

Durante o discurso, o presidente afirmou: “Que não venha, que não venha os americanos querer influir nas nossas eleições, que não venha o Tribunal Eleitoral querer falcatrua, porque a gente sabe o que eles são capazes”.

Nunes Marques interpretou a declaração como uma associação, sem provas, entre o TSE e a possibilidade de fraude. Para o ministro, a manifestação ultrapassou os limites de uma crítica à Justiça Eleitoral.

“A manifestação reveste-se de caráter depreciativo e enganoso, e ao mesmo tempo, incita a população contra a Instituição que é pilar fundamental da República e da democracia brasileira, responsável pela realização de eleições limpas e transparentes em todo o território nacional”, afirmou.

A frase pronunciada por Lula, porém, não afirma que o TSE tenha cometido uma fraude nem que exista uma fraude eleitoral em andamento. O presidente utiliza uma construção prospectiva — “que não venha […] querer falcatrua” — dentro de uma passagem em que também fala de uma eventual interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.

A classificação da declaração como enganosa decorre, assim, da interpretação feita por Nunes Marques sobre o significado da fala, e não de uma afirmação de Lula de que uma fraude eleitoral efetivamente ocorreu.

A consequência imposta pelo ministro também vai além da frase.

Nunes não determinou somente que o trecho fosse retirado. Mandou o Google remover, em até 24 horas, a transmissão completa do comício de Teresina.

Lula, Alckmin e a coligação também ficaram proibidos de republicar o mesmo conteúdo. A determinação alcança ainda cópias ou versões modificadas destinadas a contornar a remoção.

A própria decisão, no entanto, diferencia conteúdos produzidos durante o mesmo evento. Nunes manteve disponíveis três vídeos publicados no Instagram, TikTok e YouTube Shorts porque eles mostram outra passagem do comício, relacionada às mulheres, e não reproduzem a declaração sobre a Justiça Eleitoral.

A distinção evidencia o alcance da ordem aplicada à transmissão principal: embora a passagem considerada irregular seja identificável dentro de um evento mais longo, a liminar determinou a retirada do vídeo completo, e não apenas do trecho questionado.

A decisão ainda será analisada pelo plenário do TSE, que poderá manter, modificar ou revogar as medidas adotadas individualmente por Nunes Marques.

*Cleber Lourenço/ICL


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MP-RJ obtém nova quebra de sigilo de ex de miliciano e ex-assessores de Flávio Bolsonaro

A defesa de Danielle tentou anular a quebra em reclamação ao STF mas o ministro Gilmar Mendes indeferiu o pedido

O Ministério Público do Rio de Janeiro obteve nova quebra de sigilo bancário e fiscal de ex-assessores de Flávio Bolsonaro em um processo de improbidade administrativa oferecido em 2023 na 2ª Vara da Fazenda Pública. Entre os ex-funcionários que tiveram a quebra de sigilo deferida está Daniele Nóbrega, ex-mulher do miliciano Adriano da Nóbrega. Ela foi funcionária do gabinete do senador e candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entre 2008 e 2018. A defesa de Danielle tentou anular a quebra em reclamação ao Supremo Tribunal Federal, mas o ministro Gilmar Mendes, relator do caso, indeferiu o pedido.

A coluna apurou que, além de Danielle Nóbrega, os assessores que estão com sigilo quebrado são: Fabrício Queiroz, Marcia Aguiar, Nathalia Queiroz, Evelyn Queiroz, Luiza Souza, Wellington Sérvulo e Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano da Nóbrega. O período da quebra está restrito ao período em que cada um deles foi assessor de Flávio entre 2008 e 2018. O MP também pediu a quebra de sigilo de Flávio, no entanto, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro negou. O jornal Folha de S. Paulo informou em março sobre a negativa. Todos os assessores agora são réus por improbidade administrativa.

O caso é consequência das apurações sobre a entrega ilegal de parte dos salários de funcionários de Flávio iniciou no MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) em julho de 2018. No entanto, em 2019, após o STF enviar o caso para a primeira instância, a apuração criminal seguiu no Gaecc (Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção), agora extinto. Já a investigação cível foi para a 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa da Cidadania da Capital. Em 2021, o MP pediu nova quebra de sigilo para produção antecipada de prova, mas não obteve decisão favorável. A promotoria decidiu então oferecer uma ação de improbidade administrativa contra os assessores de Flávio e, neste processo, foi deferida a quebra de alguns assessores que trabalharam para Flávio na Alerj.

Caso criminal

Na denúncia criminal apresentada em 2020, o MP apontou, com base às investigações e aos dados financeiros cedidos à época pelos bancos, que Fabrício Queiroz exercia o papel de operador financeiro do esquema de rachadinha entre abril de 2007 e dezembro de 2018, “arrecadando e intermediando as remesas de recursos ilícitos desviados pelos assessores”.

De acordo com a denúncia do MP-RJ, o desvio envolvendo a esposa de Fabrício Queiroz somou o montante de mais de R$ 1,1 milhão entre abril de 2007 e dezembro de 2017 –período em que ela esteve nomeada no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Ainda de acordo com a investigação, Marcia não recebeu nenhuma ligação telefônica em um raio de 750 metros da então sede da Alerj, onde deveria trabalhar. Para os promotores, esse é um indício de que ela não frequentava o gabinete de Flávio e, portanto, nunca trabalhou de fato.

Um levantamento feito pela reportagem mostra que 11 assessores do gabinete de Flávio Bolsonaro eram amigos, vizinhos ou parentes de Queiroz. O PM recebeu “centenas de transferências bancárias e depósitos em espécie em datas próximas aos pagamentos das remunerações da Assembleia Legislativa”, segundo a denúncia do MP. No total, essas transações chegaram a mais de R$ 2 milhões.

Queiroz também transferia parte do dinheiro obtido com o desvio dos salários de assessores “ao patrimônio familiar do denunciado Flávio Nantes Bolsonaro”.

*Juliana Dal Piva, Igor Mello e Cléber Lourenço/ICL


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Segredos de Flávio: mulheres, negócios, um Rolex de R$ 300 mil e lobby com Kassio

Um período crucial da carreira de Flávio Bolsonaro foi acompanhado de perto – e registrado – por um amigo que desfrutou da confiança dele, mas que há três anos decidiu emparedá-lo ao cobrar um “acerto de contas”. Do arsenal usado nas ameaças, contidas de maneira inexplicada meses depois, há uma série de elementos comprometedores para o presidenciável do PL que o PlatôBR revela nesta reportagem, como orgias bancadas com dinheiro de origem suspeita, mimos de luxo recebidos de parceiros lobistas e até uma operação para levar interesses de um “cliente” a Kassio Nunes Marques, ministro do STF

O senador Flávio Bolsonaro, herdeiro principal do espólio eleitoral do pai, é daqueles políticos que têm um trabalho danado para administrar segredos do passado. No caso do presidenciável do PL nas eleições deste ano, uma parte significativa desses segredos vem do período em que Jair Bolsonaro esteve no Palácio do Planalto. A depender do assunto a ser destravado em Brasília, o senador era a pessoa certa a ser procurada na então primeira-família. Em razão disso, ele manteve relações estreitas com gente de todo tipo interessada em solucionar problemas onde quer que a influência de quem estava no poder àquela altura pudesse alcançar: em ministérios, na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) ou mesmo nos tribunais.

A condição de resolvedor-geral da República colocou o filho 01 de Bolsonaro em uma delicada posição, especialmente agora, como candidato à Presidência. Pontas soltas desse passado recente se transformam, por óbvio, em armas potentes ou em objeto de chantagem na forma de dossiês ou, simplesmente, de conversas interessadas de pé de ouvido. Em suma, o presidenciável Flávio é refém das histórias que o senador Flávio, então filho do presidente, protagonizou nos bastidores do governo quando ainda nem imaginava que poderia ter a chance de sentar-se, também, na cadeira presidencial.

Algumas dessas histórias, ainda não contadas e que o PlatôBR revela com exclusividade nesta reportagem, são desdobramentos da complicada sociedade que Flávio Bolsonaro teve em uma loja de chocolates que funcionou num shopping da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A franquia da Kopenhagen, como se sabe, tornou-se peça-chave nas investigações das célebres rachadinhas, parte de um passado ainda mais distante da história do senador, quando ele era deputado estadual no Rio. Após promotores fluminenses esquadrinharem o negócio, como parte de estrutura destinada a lavar o dinheiro que era descontado do salário mensal dos funcionários do gabinete, a loja foi fechada. Restou, porém, uma relação mal resolvida entre Flávio Bolsonaro e Alexandre Ferreira Dias Santini, um amigo do peito que o agora presidenciável alçou, quando ainda era deputado no Rio, à condição de sócio na Bolsotini Chocolates e Café Ltda, razão social da chocolateria.

Há pouco mais de três anos, sentindo-se abandonado, o ex-sócio rompeu com Flávio Bolsonaro e deflagrou uma cruzada para não ficar de mãos abanando. Queria dinheiro. E, pelo caminho, foi deixando muitos segredos que dividiu com Flávio enquanto a amizade e a sociedade na loja de chocolates estiveram de pé. Uma parte da guerra já é conhecida. Outra, porém, está sendo contada agora, pela primeira vez. Das mensagens de texto, áudios, documentos e fotos que Santini guardou – e que entregou a algumas figuras-chave em Brasília no período em que estava em litígio com o antigo amigo – pululam histórias comprometedoras para o candidato do PL ao Planalto, como orgias com garotas de programa bancadas com dinheiro de origem duvidosa, uma curiosa confissão de Flávio de que errou com a família ao participar desses convescotes, mimos de valores vultosos custeados por parceiros que faziam lobby junto ao governo do pai e, ainda, um xeque-mate envolvendo o gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do STF, que fez Flávio finalmente se render às ameaças do ex-sócio.

As histórias a seguir, que mostram por dentro a intensa pressão a que o agora candidato ao Planalto esteve submetido em razão de seus segredos, são ilustrativas do jogo de chantagens que ronda os poderosos quando eles têm algo a esconder.

Crise em casa
A amizade entre Flávio e Alexandre Santini ia bem até a campanha eleitoral de 2022, quando Jair Bolsonaro tentou, sem sucesso, ser reeleito presidente. O rompimento se deu por dinheiro. O antigo amigo alegava que o senador lhe devia. A guerra, então, se instalou. O ápice foi, digamos, inusitado. Santini procurou a mulher de Flávio, a dentista Fernanda Bolsonaro, para contar detalhes do que o amigo fazia quando estava longe da família. Contar, na verdade, é força de expressão. Além dos relatos, ele mostrou a Fernanda provas de que Flávio tinha o hábito de participar de festinhas privês com garotas de programa. Era o próprio Santini quem organizava vários desses convescotes, inclusive à custa do dinheiro que circulava com certa facilidade entre eles desde os tempos da sociedade na loja de chocolates – um dinheiro que, como mostraram as investigações do Ministério Público do Rio, depois arquivadas por decisão do Poder Judiciário, vinha das rachadinhas e de outras transações nebulosas.

O ex-sócio guardou imagens de momentos íntimos que dividiu com Flávio e com garotas de programa que costumava contratar

Por um longo período, Santini havia sido uma espécie de administrador do caixa paralelo de Flávio. Nesse papel, não apenas cuidava de despesas que o filho 01 de Bolsonaro não podia assumir diretamente como, na condição de amigo-irmão, se encarregava de tarefas pouco ortodoxas nas quais não era conveniente que um político conhecido aparecesse, como a própria organização das festinhas privês. Pois foi graças às tarefas sensíveis que executava que o ex-sócio colecionou as imagens e mensagens que, no auge da crise, levou ao conhecimento de Fernanda Bolsonaro. Eram fotos de mulheres, prints combinando encontros secretos e outras tantas evidências. O impacto foi imediato. E brutal. A iniciativa de Santini provocou um terremoto, àquela altura, no casamento de Flávio. A confusão foi tão grande que assustou a cúpula da campanha de Jair Bolsonaro à reeleição. A turma do deixa-disso entrou em campo para segurar o ex-sócio, mas só conseguiu êxito por um período. Santini voltaria à carga logo depois, e por uma via curiosa: a própria Fernanda Bolsonaro. Ele seguia próximo à mulher de Flávio. Era paciente do consultório odontológico dela, em um centro clínico do Plano Piloto de Brasília, e nas sessões periódicas de manutenção do aparelho dentário, aproveitava para enviar recados a Flávio Bolsonaro cobrando o “acerto de contas”.

Garotas no Hyatt
No arsenal de Alexandre Santini havia elementos contundentes. Como mensagens que ele enviara para uma agenciadora de garotas de programa no Rio de Janeiro combinando encontros com a presença Flávio, a quem se referia sempre como “meu filho”. Os convescotes eram, por assim dizer, coletivos, com a participação do próprio ex-sócio e, por vezes, de outros amigos da dupla que eram convidados. Junto com as mensagens de texto, havia fotos – várias delas, por sinal, impublicáveis. Santini dizia que a preferida de Flávio, ou “a namoradinha”, nas palavras dele, era a própria agenciadora.

“Fala bb, tudo bem? Eu estava viajando de férias e voltei hj. Vamos marcar outra festinha igual a do grand hyatt. Com os mesmos amigos meus… meu filho + João Pedro. Vc arruma as meninas?”, escreveu Santini à agenciadora em uma das oportunidades, por WhatsApp. “Oie. Td bem? São 3 meninas então? Quando?”, respondeu a mulher. Santini forneceu os detalhes: “Vc e mais 3 meninas. Só preciso confirmar a data e horário com os amigos. Precisa ser tudo sigiloso. Pois nessa época de eleição tá Fodaaaa”. “Quer que perfil?”, a mulher quis saber. Ele, mais do que depressa, tirou a dúvida, em uma mensagem que deixa evidente que aquele tipo de encontro era algo rotineiro: “Tipo gostosa! Vc conhece o q a gente gosta. Me manda as fotos. Tem q ser novidade. Até amanhã te ligo confirmando o local e data certa. Obrigado bb”.

O Grand Hyatt, hotel cinco estrelas situado entre o mar e a Lagoa de Marapendi, na Barra da Tijuca, era um dos locais escolhidos para os encontros do grupo. Algumas das fotos mostradas pelo ex-sócio à mulher de Flávio foram tiradas lá, em um dos apartamentos mais exclusivos oferecidos aos hóspedes, com diária de R$ 3 mil, ampla varanda e vista panorâmica da região. Não era o único local que costumava ser usado nas farras, porém. Havia outros, inclusive em Brasília. A crise na família perdurou por um período considerável, de semanas. Tempos depois, Fernanda Bolsonaro aceitou as desculpas de Flávio. Mas a confusão não terminou.

A varanda do Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, em foto tirada por Santini no dia de um dos encontros privês, no começo de 2022

A certa altura da briga que o ex-sócio travava com Flávio Bolsonaro, insistindo para que houvesse o “acerto de contas”, coube à própria Fernanda, a mulher do senador, fazer o meio de campo. Flávio, naquele momento, até topava conversar. Mas era Santini que não queria. Após Fernanda tentar marcar uma conversa, ele responde: “Como falou ao telefone, que o Flávio quer falar comigo, então solicito que ele ou o advogado dele entre em contato com meu advogado”, respondeu por mensagem. Fernanda liga. Insiste. Pede para Santini passar na casa do casal. “Infelizmente não consigo. Não tenho nada para falar com o Flávio, e se ele quiser tratar algo comigo, pede para ele falar com meu advogado”, reitera o ex-sócio.

Fernanda Bolsonaro, assim como Flávio, sabia do potencial explosivo do que Santini tinha em mãos. E queria uma solução amigável. As tentativas de negociar um acordo naquele momento, porém, não prosperaram. “Que pena! Conversei muito com ele. Achava válido que vocês tivessem uma conversa”, lamentou a dentista.

Flávio com Fernanda Bolsonaro em evento da campanha presidencial: depois do terremoto causado pelo ex-sócio, a reconciliação

Santini ensaiava contar o que sabia sobre Flávio Bolsonaro aos órgãos de investigação e levar a cobrança à Justiça, sob a alegação de que havia pendências financeiras a serem sanadas desde o encerramento da sociedade na loja de chocolates. A ameaça estava posta – e, ao menos uma parte dela, exposta publicamente. Santini chegou a postar nas redes sociais uma mensagem que, para Flávio e seu círculo mais íntimo, não carecia de mais explicações: “Não adianta tentar escapar, tudo é questão de tempo, pois provas não faltam para seus inúmeros ‘crimes na política’ que vão te levar para a PRISÃO”, publicou em um post, sem mencionar o nome do senador. Enquanto escalava a pressão, Santini abriu outra frente. Em 28 de setembro de 2023, enviou ao gabinete de Flávio uma notificação extrajudicial cobrando R$ 1,4 milhão. A alegação de que ficou no prejuízo após o fechamento da chocolateria na qual os dois eram sócios foi colocada no papel, em uma peça que cutucava Flávio: ao detalhar os investimentos iniciais de cada um no negócio, ele fez questão de dizer que o filho 01 de Jair Bolsonaro aportou R$ 200 mil em dinheiro vivo. Flávio não respondeu a notificação.

“Erros que eu cometi”
Desde o rompimento entre os antigos sócios, a novela foi ganhando contornos dramáticos. Após Santini contar a Fernanda Bolsonaro as histórias das orgias, e quando já estava amainando a crise familiar que a atitude havia gerado, Flávio Bolsonaro escreveu ao ex-sócio e ex-amigo para pedir que ele se afastasse “imediatamente” de sua mulher. Ironicamente, a mensagem traz uma espécie de confissão. Flávio admite que fez “muitas escolhas erradas” e diz que não iria “errar nunca mais” com a própria família. O primogênito de Jair Bolsonaro, cujo contato na agenda de Santini estava salvo como “FB01”, afirma ainda que não esperava que logo o ex-sócio lhe desse um “tiro nas costas”. Em tom majestático, ele ordena: “Vá embora de Brasília”. Eis o texto, exatamente como foi escrito por Flávio para Alexandre Santini, por WhatsApp:

“Não sei o que vc está ganhando querendo destruir meu casamento e minha família, mas saiba que Deus te usou pra me fazer um pai, um marido e uma pessoa melhor. Me arrependi, de verdade, de muitas escolhas erradas que fiz na vida e não vou errar nunca mais com a minha família. Peço que se afaste definitivamente da Fernanda, não ligue mais, não procure mais, arrume outra dentista. Seu contato com ela agora só está fazendo mal a ela. Nunca imaginei que logo vc seria a pessoa a me dar tiro nas costas desse jeito. Vá embora de Brasília, vai viver sua vida, vá ser feliz longe da gente. Espero que um dia vc encontre uma esposa tão maravilhosa pra vc quanto a Fernanda é pra mim, que te de uma família tão maravilhosa quanto a minha e com essa pessoa vc não cometa os mesmos erros que eu cometi. Que vc ame essa pessoa como eu amo a Fernanda! Precisei passar pelo que estou passando pra dar o real valor a coisa mais importante da minha vida: a minha família! Vc não vai conseguir destruir algo que foi Deus que criou, desista. Vou orar pedindo a Deus que vc encontre um rumo na sua vida, pra que vc seja feliz! Abs!”

Alexandre Santini responde com poucas palavras: “Flávio, você tem noção do que você escreveu, e para quem escreveu? Acredito que tenha mandado para a pessoa errada. Abraço”.

O ex-sócio não foi embora de Brasília logo após receber a mensagem nem a crise com Flávio Bolsonaro terminou ali.

Um Rolex para Flávio
Os registros comprometedores para Flávio Bolsonaro guardados por Santini – e mantidos até hoje por pessoas que acompanharam de perto a confusão entre os dois, inclusive com gravações nas quais o ex-sócio revela segredos do senador – vão além das farras íntimas bancadas com dinheiro de origem suspeita e de suas repercussões na vida familiar do agora candidato à Presidência da República. No pacote há, também, elementos que, se conhecidos à época, poderiam reforçar sensivelmente as provas coletadas pelo Ministério Público do Rio nas investigações das rachadinhas. São inúmeros comprovantes de pagamento, planilhas e outros documentos copiados pelo ex-sócio com evidências de que os recursos de origem duvidosa que giravam em torno da chocolateria serviam, também, para pagar despesas pessoais e para bancar os investimentos em apartamentos e salas comerciais que Flávio fazia.

Mas essa parte, sobre a qual os promotores fluminenses já haviam se debruçado, soa antiga e até um pouco ultrapassada perto dos registros de Santini relacionados à atuação de Flávio, já senador da República, durante o período em que o pai foi presidente. Em torno dele, àquela altura, giravam figuras com interesses diversos, incluindo lobistas e advogados, que passaram a usar a relação de proximidade para operar interesses no governo. Uma dessas frentes tinha um endereço que ficou conhecido ainda àquela época: uma casa alugada no Lago Sul de Brasília onde dois amigos de Flávio do Rio de Janeiro montaram um bunker frequentado por interessados em resolver pendências na máquina federal. O próprio Flávio visitava o endereço com certa regularidade. Um dos amigos dele que davam expediente por lá chegou a ser preso em 2020 sob a suspeita de integrar o que ficou conhecido como “QG da Propina” na gestão de Marcelo Crivella na prefeitura do Rio. O outro era o advogado Alan Belaciano, que também tivera problemas com a polícia pouco antes – foi detido por se apresentar como juiz, coisa que não era.

O advogado Alan Belaciano, em 2021, na casa do lobby montada no Lago Sul de Brasília: contatos e soluções no governo

Especializado em causas trabalhistas e esportivas (hoje ele ajuda o clube Vasco da Gama em sua saga para resolver os graves problemas financeiros que atravessa), Belaciano não tinha quase nenhuma experiência em Brasília, mas a relação que mantinha à época com Flávio o colocou em posição privilegiada na capital. Era um grupo restrito de amigos que, com Jair Bolsonaro no governo, enxergou oportunidades. As amizades eram de épocas distintas, mas os “parceiros” de Flávio, com acesso facilitado a figuras de relevo do governo de Jair Bolsonaro, conviviam, participavam dos mesmos encontros, se ajudavam. Na pandemia de Covid-19, eles estreitaram contato, por exemplo, com os empresários que conseguiram fechar com o Ministério da Saúde um contrato bilionário, mais tarde cancelado por causa das evidências de irregularidades, para a compra da vacina indiana Covaxin.

Ainda que houvesse alguma dose de ciúme aqui e acolá, os “amigos do Flávio” sabiam dos movimentos uns dos outros e até compartilhavam tarefas, muitas delas com o objetivo de resolver problemas comezinhos para o filho do presidente. Era tudo junto e misturado. O dinheiro angariado nos negócios que surgiam se cruzava entre os diferentes personagens: além de proporcionar luxos e outras alegrias para os amigos, servia também para custear despesas do próprio Flávio. Foi na condição de integrante do seleto grupo de “parceiros” que Alexandre Santini guardou, por exemplo, comprovantes de que Belaciano pagou, como já revelado anteriormente, os equipamentos de academia para a casa que Flávio havia acabado de comprar em uma das áreas mais exclusivas e caras de Brasília, pelo valor declarado de R$ 5,9 milhões. As notas fiscais emitidas no ato da compra mostram que, só ali, a conta passou de R$ 90 mil.

Quando as primeiras notas fiscais vieram a público, Flávio chegou a admitir que “um amigo de longa data” havia comprado os equipamentos a título de “empréstimo pessoal”, pelo qual estava pagando. Sobre as ameaças de Santini, o senador afirmou: “Ele tem mandado uns recados esquisitos para mim. Já me pediu dinheiro e eu não dei. Não quero dar linha para maluco. É um ex-sócio e ex-amigo”. Depois, voltou a dizer que as acusações eram “infundadas”. A despeito das negativas peremptórias do senador, o arsenal de Santini continuou a assombrá-lo – inclusive com outros segredos mantidos pelo ex-sócio que só agora se tornam conhecidos.

O caixa informal estava sempre disponível, e Flávio podia contar com ele nos momentos de necessidade. Para despesas grandes e pequenas. Se havia reparos a fazer na casa recém-comprada, eram os funcionários do bunker de Balaciano que iam lá resolver, e os próprios amigos pagavam, como demonstra outro lote de mensagens ao qual tivemos acesso ao longo da apuração desta reportagem. O próprio Santini ficou responsável por comprar o aparelho de televisão de 75 polegadas que Flávio queria. Até mensalidades da academia de luxo que o senador e sua mulher frequentavam em Brasília chegaram a ser pagas pelo ex-sócio quando a amizade ainda estava intacta.

Não era só isso. Das contas dos “amigos do Flávio” saía dinheiro para custear agrados mais luxuosos para o senador que hoje é candidato a presidente. É o caso de um relógio Rolex em ouro branco, da linha Submariner Date, que Alan Belaciano comprou para Flávio em uma loja de Brasília. A aquisição foi feita em 10 de fevereiro de 2022. A nota fiscal, emitida em nome do advogado, mostra que não era um mimo qualquer: o relógio custou R$ 305 mil. Registros guardados por Alexandre Santini, incluindo mensagens de texto, não deixam dúvidas: Balaciano pagou, mas o Rolex era para Flávio Bolsonaro.

Um playboy em Brasília
Flávio e Santini se conheceram no começo dos anos 2000, no Rio, por intermédio de amigos em comum. Paulista, filho de um ex-funcionário da Odebrecht, ele tinha uma empresa de importação e exportação em parceria com Carlos Alberto Parreira, ex-técnico da Seleção. Não demorou muito para que a relação com Flávio virasse uma amizade estreita que parecia vir da infância. Expansivo, Santini foi se aproximando também dos demais integrantes do clã, incluindo o próprio Jair Bolsonaro. De tão próximo, costumava ser convidado até para encontros familiares mais restritos.

O governo Bolsonaro beirava a metade quando o ex-sócio de Flávio se mudou do Rio para Brasília. Àquela altura, estava escaldado pelas investigações do escândalo das rachadinhas, durante as quais os promotores chegaram a apontá-lo como um “laranja de luxo”. Queria proteção, e a vida perto dos amigos poderosos poderia ser mais fácil. Embora fosse um dos protagonistas da trama das rachadinhas, na capital federal ele passou um longo período incógnito. Laranja, que nada. Sua fama era outra: a de bon vivant e namorador. Pouco após chegar à cidade, ele abriu uma empresa de tecnologia com a qual esperava faturar alto. Não deu certo. Logo foi aconselhado a fechar a firma, sob pena de ressuscitar os velhos fantasmas que rondavam Flávio.

O ex-sócio era da cozinha de Flávio e, no período em que foram amigos, se aproximou de outros integrantes do clã Bolsonaro

Com o passar dos anos, a relação que era de confiança extrema se transformou em ódio. No auge da briga, entre as muitas conversas gravadas nas quais abriu o verbo contra o antigo amigo, Santini dizia textualmente que seus segredos, se contados por completo, poderiam implodir a carreira de Flávio Bolsonaro. “Se eu quiser, eu ponho o Flávio na cadeia. Com o que tenho na mão, ele vai preso. Sei tudo da vida dele”, afirmou em uma das oportunidades.

Canal com Queiroz
A proximidade com o então clã presidencial fez Alexandre Santini ficar muito perto de figuras que viraram emblemas da passagem dos Bolsonaro pelo topo do poder, como os notórios Fabrício Queiroz, ex-faz-tudo de Flávio e peça-chave das rachadinhas, e Frederick Wassef, hoje sumido, mas personagem onipresente ao longo dos quatro anos do governo passado. O laço era tão estreito que, quando o então candidato Jair Bolsonaro foi esfaqueado em 2018 durante uma atividade de campanha em Juiz de Fora (MG), Santini foi quem acompanhou Flávio até a cidade mineira, em uma viagem de carro, às pressas. Queiroz acompanhou os dois.

Quando o próprio Santini, Queiroz e Wassef passaram a se sentir escanteados pelos Bolsonaro, o WhatsApp do ex-sócio virou um muro de lamentações, como mostram outras mensagens às quais o PlatôBR teve acesso. “Eu sou o cara que mais se fodeu desde o dia 1. Só por fogo amigo e traição. Tudo o que eu avisei um milhão de vezes que iria acontecer está acontecendo. Não errei uma. Mas ao invez (sic) de me ouvirem, só ouviam os traidores, inimigos, e os incompetentes. Estou sofrendo e muito triste com tudo isto”, escreveu Frederick Wassef a Santini tempos depois de o inquérito das rachadinhas, no qual ele havia atuado em favor de Flávio, ser anulado. “Somos 2”, solidarizou-se Santini, de pronto. “O poder seduziu e surtou o FB”, emendou.

Wassef lembrou que foi por causa de seu trabalho que as investigações das rachadinhas foram aniquiladas – o que, para ele, deveria ser motivo para os Bolsonaro serem gratos. “Graças ao HC de minha exclusiva autoria no STF, de número 201965, que anulou todos os rifs e atos do COAF, matando e esvaziando todo o processo e investigação. O julgamento e vitória foi em 1 de Dezembro de 2021 e apos o resultado dei entrevista coletiva a TV com Flavio ao meu lado”, digitou o advogado, tropeçando no teclado, nas vírgulas e nos acentos (a mensagem, assim como as demais desta reportagem, está reproduzida exatamente na forma como foi digitada). RIFs, no caso, são os relatórios de inteligência financeira do Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que monitora transações suspeitas e as comunica aos órgãos de investigação. HC, por óbvio, é habeas corpus.

Antes, quando tudo ainda ia bem na relação de Alexandre Santini com Flávio Bolsonaro, as conversas dele com Fabrício Queiroz tinham outro teor. O ex-sócio era a ponte para o operador das rachadinhas pedir dinheiro a Flávio, como mostrou uma reportagem publicada por este repórter em novembro de 2023. Sem meias palavras, reclamando que estava apertado financeiramente, Queiroz costumava pedir a Santini que lhe desse dinheiro – ou, como aconteceu ao menos uma vez, que lhe fizesse um “empréstimo” para Flávio acertar depois. Em um dos áudios, ele deixou evidente que, a partir da eclosão do escândalo, passou a receber ajuda financeira dos Bolsonaro. “Tô passando uma dificuldade muito grande, e eu tô precisando de um dinheiro, tá? Natal chegando aqui… Tô com problema financeiro mesmo, irmão. (…) Não é com migalhas que me dão aí de vez em quando que resolve a minha vida, não, cara”, queixa-se.

Mesmo após o rompimento de Santini com Flávio, ainda sem saber que a relação havia se esfacelado, Queiroz seguiu procurando o ex-sócio do senador para enviar recados e pedidos. Em uma das situações, Santini estava bloqueado por Flávio no WhatsApp, mas encaminhou por um intermediário os áudios que recebera de Queiroz. O 01 era o destinatário. “Já que o Flávio me bloqueou sem motivos no WhatsApp. Segue o áudio que o Fabrício Queiroz enviou para que eu enviasse ao Flávio”, escreveu. “Essa PICA é do Flávio, e ele deveria resolver. O Flávio precisa aprender a não abandonar quem sempre esteve ao lado dele, uma hora isso vai trazer problemas a ele”, acrescentou o ex-sócio ao encaminhar os áudios com as cobranças de Queiroz.

O vendedor de chocolates
Enquanto a loja de chocolates funcionou, Alexandre Santini era quem cuidava de praticamente tudo – incluindo outras frentes que rodavam em paralelo, como a imobiliária –, mas sempre contando com as orientações e com a, digamos, capacidade de Flávio de fazer o negócio andar. Desse período, os arquivos reunidos pelo ex-sócio revelam algumas situações inusitadas. É o caso de uma troca de e-mails em que o hoje presidenciável, à época deputado estadual, assume a frente de uma negociação para vender chocolates para a associação de funcionários do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro. A entidade, àquela altura, pretendia comprar uma grande quantidade de bombons ou ovos de Páscoa para dar de presente aos associados.

No papel de vendedor de chocolates, Flávio prometeu dar o mesmo desconto oferecido pela loja online da Kopenhagen. E, claro, aproveitou a oportunidade para fazer propaganda do produto. “A caixa de bombons São Paulo realmente não é apenas chocolate, é sim um presente elegante, muito bonito e bem gostoso! rs”, escreveu o hoje candidato do PL ao Planalto à representante da associação que tratava da compra. “Consigo o desconto de 7,5% e também te dou as sacolas de presente.” Ele registrou que tudo ficaria por R$ 50 mil redondos, e que o pagamento poderia ser por “transferência bancária, cartão, cheque ou cash”.

O segredo do STF
Com altos e baixos, ora por meio de Fernanda Bolsonaro, ora por meio de advogados, as tentativas de acordo entre Alexandre Santini e Flávio Bolsonaro fracassaram múltiplas vezes. Vez ou outra, com a ajuda desses intermediários, o canal de comunicação entre os dois era restabelecido, mas a raiva que ficara do rompimento era maior. No final de 2023, quando já não estava mais bloqueado pelo senador, Santini escreveu a Flávio fazendo mais um apelo, sempre com o cuidado de registrar que as cobranças diziam respeito à loja: “Mais uma vez te procuro para resolvermos de forma amigável as pendências financeiras da loja em que fomos sócios. Gostaria de marcar uma reunião com você, se possível até o final deste ano de 2023, para solucionarmos de maneira amigável e sem maiores exposições desnecessárias. Aguardo seu retorno e obrigado”. A resposta de Flávio foi ríspida. “Estou viajando. Curioso pra saber o que te devo. Depois de tudo que vc me fez de mau (sic)”, digitou o senador. “Vamos marca a reunião qdo?”, devolveu Santini. O clima seguia pesado.

Já no final do ano, bem perto do Natal, o ex-sócio lançou uma cartada que, finalmente, deu certo. Mandou uma nova mensagem a Flávio lembrando de mais um segredo compartilhado entre os dois – este, bastante sensível por envolver o gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal. Kassio, como se sabe, foi indicado para a corte por Jair Bolsonaro. Até por isso, Flávio mantém com ele uma relação de bastante proximidade.

Sem disfarçar a ameaça, Santini diz na mensagem enviada a Flávio ter a informação de que ele havia tratado diretamente com Kassio sobre interesses de um cliente que tinha um processo no gabinete do ministro. O caso seria tocado por Alan Belaciano – aquele amigo de Flávio que havia montado o bunker no Lago Sul, o mesmo que comprou o Rolex. A “intermediação” de Flávio teria dado tão certo que até um jantar chegou a ser marcado depois, na casa, para alinhavar tudo. Inclusive com a participação do chefe de gabinete do ministro. “Vou te passar apenas uma única informação que considero importante para vc. Vc falou diretamente com o Kassio Nunes e intermediou um cliente em um processo para tratarem disso. Vc é maluco ou inconsequente! Brasília não tem muros e seu amiguinho está sendo observado…”, escreveu Santini.

As ameaças tinham acabado de mudar de patamar. E, desta vez, Flávio prontamente topou conversar. Na mesma tarde, ele respondeu: “Terça às 15:00 no meu gabinete ok”. O que os dois acertaram não se sabe, mas logo depois Alexandre Santini escreveu aos contatos com os quais havia compartilhado seu arsenal dizendo que a guerra com Flávio Bolsonaro estava resolvida. “Assunto está encerrado”, anunciou. O ódio parece ter mesmo ficado para trás. Hoje, o ex-sócio faz campanha para Flávio como se nada tivesse acontecido. “Sou e sempre serei FLAVIO BOLSONARO”, diz a bio de seu perfil, assim mesmo, com o nome do candidato do PL ao Planalto em letras garrafais. Em Brasília, ameaças funcionam. Mas os segredos nem sempre ficam guardados eternamente.

*Reportagem exclusiva de Rodrigo Rangel publicada no PlatôBR


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Cada novo envolvido com Vorcaro que aparece não pode servir para apagar Flavio Bolsonaro do caso

A cada nova revelação sobre as relações de Daniel Vorcaro com figuras do poder, surge um risco evidente no debate público: transformar a multiplicação dos personagens em uma cortina de fumaça que deixe em segundo plano os crimes que envolvem Flavio Bolsonaro.

As mensagens reveladas pela Polícia Federal mostram relações de proximidade de Vorcaro com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e com o presidente da Câmara, Hugo Motta. No caso de Motta, as reportagens mencionam inclusive um empréstimo de pelo menos R$ 22 milhões do Banco Master para uma empresa ligada à sua cunhada. Ambos negam irregularidades.

Mas uma coisa não elimina a outra.

O surgimento de novos nomes na investigação não apaga o Dark Horse. Ao contrário: torna ainda mais necessário que todas as relações financeiras e políticas sejam esclarecidas, inclusive aquelas envolvendo Flávio Bolsonaro.

Documentos tornados públicos pelo STF mostram que existe investigação sobre o envolvimento até o pescoço de Flavio Bolsonaro com o banqueiro criminoso. Mensagens divulgadas anteriormente registram pressão de Flávio para Vorcaro liberar R$ 134 milhões. Quem não sabe disso?

É justamente aí que a cobertura jornalística precisa manter o foco. Cada revelação deve ser investigada pelo que ela efetivamente demonstra, sem permitir que um escândalo seja usado para obscurecer outro.

Se há relações entre Vorcaro e diferentes caciques políticos, todas precisam ser escrutinadas. Se há indícios envolvendo Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, esses fatos também precisam permanecer no centro da apuração. Uma revelação não deve funcionar como álibi para outra.

O caso Master não pode virar uma disputa de manchetes em que cada novo nome sirva para deslocar a atenção do anterior. O que está em jogo é justamente o esclarecimento integral da rede de relações e negócios promíscuos de Vorcaro com Flavio Bolsonaro.

Nem Alcolumbre, nem Motta, nem Flávio Bolsonaro podem ser transformados em cortina de fumaça uns para os outros. Todos os fatos precisam ser investigados, documentados e explicados.


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De clã a clã

Aqui não se está falando de dois grupos laterais, mas de dois clãs políticos que se unem pela direita contra qualquer político progressista, contra Lula então!

Não há escultor possível que crie uma imagem dos Marinho como grupo democrático que, agora, junta-se à apoteose bolsonarista não como uma alegoria, mas como filhos e herdeiros da ditadura.

Enquanto o país luta por uma representação progressista, os dois clãs representantes da escravidão não cabem sequer em fantasias interpretativas. Por isso não há parênteses quando se fala do clã Marinho ou do clã Bolsonaro.

Pior é ver a reconstrução de alianças na hora em que a bola rola e, no centro do campo, um cavalo, um pangaré ou um potrinho miliciano. É dessa lógica na busca pela vitória do que é mais reacionário no Brasil, que as asneiras, ditas pelo bolsonarismo, ganham a ajuda estratégica das asneiras básicas do colunismo do Globo e, de gorjeta, da própria TV aberta dos Marinho.

Ou seja, tudo é comentado de acordo com as unhas da onça, na base da cavação para tentar destruir a imagem do oponente e, junto, destruir a vida de milhões de brasileiros das camadas mais pobres da população.

Isso nos cobre de vergonha, justamente porque o Jornal Nacional, durante ao menos uma década, vem mostrando uma fieira de crimes do clã Bolsoaro, seja com Jair, Flavio, Carluxo ou Eduardo que, de alguma forma, meteram as mãos nos bolsos dos brasileiros.

Contudo, os Marinho se esqueceram disso transcendendo a lógica da lógica e amontoa uma série de princípios antijornalísticos para defender o que eles próprios relataram sobre as ações criminosas dos Bolsonaro.

Isso é um monumento de falsidade jornalística para consagrar os próprios crimes que denunciaram. É uma esquizifrenia? Sim, totalmente nonsense vista por uma olhar minimamente decente sobre civilização.

Entre a barbárie e a democracia, os Marinho não falham, sempre optam pela barbárie. Não é de agora, mas desde o golpe de 1964 que Bolsonaro tanto exalta.

Por isso mesmo a afinidade entre os clãs naquilo que lhes é mais caro.

Mas essa faixa elástica também chega a outros jornalções, como o Estadão, Folha e revistonas, como a Veja, por exemplo.

Então, quanto mais próximo da eleição, mais fraternos se tornam os clãs entre si, sem qualquer pudor ou máscara, é osso no osso, pois, para os Marinho, contra Lula,  vale tudo; para os Bolsonaro, idem.

Até mesmo no ataque à N. Sra. Aparecida e na defesa das bets, lembrando também que os dois clãs apoiam vivamente o genocídio de crianças e mulheres, assim como a população civil como um todo em Gaza pelo exército terrorista de Israel.


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Gilmar Mendes: Em 24h, STF encontra dados do Master sobre ministros após meses com Mendonça

O ministro Gilmar Mendes afirmou que integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) encontraram, em menos de 24 horas de acesso aos dados brutos do celular de Daniel Vorcaro, elementos envolvendo outros ministros que, segundo ele, haviam “passado despercebidos” durante os meses em que o acervo do caso Master permaneceu sob a guarda de André Mendonça. No voto divulgado nesta segunda-feira (28), Gilmar relata que o material só foi compartilhado após sucessivos pedidos e aponta informações relacionadas a Kassio Nunes Marques e a seu filho, o advogado Kevin Marques.

A revelação consta do voto apresentado por Gilmar na questão de ordem da Petição 16.662, julgamento em que o Plenário do STF discute quem deve conduzir essa frente do caso Master, como ela deve tramitar e quais ministros podem participar de sua análise. A controvérsia surgiu depois que o presidente da Corte, Edson Fachin, assumiu o procedimento e o levou ao colegiado. Gilmar defende que essa petição seja reunida à Pet 16.704 e, depois, redistribuída pelas regras regimentais do Supremo.

Segundo o voto, os demais integrantes do colegiado só receberam acesso aos dados brutos na tarde de 14 de setembro, véspera do julgamento da questão de ordem sobre a condução das apurações. Gilmar afirma que o material estava havia “muitos meses” com Mendonça e que foram necessários “sucessivos ofícios” diante do que classificou como uma resistência inicial do relator em disponibilizar a íntegra do acervo.

Foi nesse intervalo que, segundo Gilmar, apareceram informações que não haviam recebido a mesma atenção.

“Em menos de vinte e quatro horas de acesso direto a esse acervo, já foi possível identificar elementos que reclamam atenção desta Corte e que passaram despercebidos ao escrutínio atento do eminente Relator”, escreveu.

Gilmar sustenta que a análise integral do material mostrou relações de Vorcaro com diferentes autoridades e parentes de autoridades. Ele contrapõe esses dados aos relatórios produzidos por determinação de Mendonça sobre informações envolvendo Alexandre de Moraes e afirma que elementos que apontavam para outras direções não receberam “igual escrutínio”.

Entre eles estão mensagens que, na avaliação de Gilmar, exigem esclarecimentos sobre Nunes Marques antes que o STF prossiga com os julgamentos relacionados ao Master. O ministro ressalva que o material não permite concluir pela existência de irregularidade ou impedimento de Nunes, mas considera que há dúvidas que precisam ser examinadas.

Gilmar pede levantamento de magistrados citados no caso Master
A partir desse quadro, Gilmar incorporou ao voto uma proposta apresentada inicialmente por Flávio Dino: identificar magistrados de todos os tribunais brasileiros mencionados nas investigações do Master e, entre eles, aqueles sobre os quais existam indícios sólidos de recebimento indevido de valores.

O levantamento alcançaria STF, Superior Tribunal de Justiça (STJ), Tribunal Superior do Trabalho (TST) e os demais tribunais do país. O critério inclui valores provenientes do Master, de empresas ligadas ao banco, de seus sócios ou administradores, recebidos diretamente pelo magistrado ou por intermédio de parentes próximos. Para essa finalidade, Gilmar considera indevido o recebimento sem causa jurídica “lícita e demonstrável”.

A medida também serviria para definir quem pode participar dos julgamentos. Gilmar afirma que, enquanto não forem conhecidos os ministros mencionados no acervo e as circunstâncias dessas referências, o Supremo não terá como saber se algum deles está impedido de votar.

“Enquanto não se souber quais integrantes desta Corte foram mencionados e em que condição, não se saberá quem pode votar e quem se acha impedido nos feitos correlatos”, escreveu.

Depois do levantamento, a proposta prevê manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e dos próprios magistrados citados. Gilmar também defende reunir as duas frentes do caso Master que tramitam no Supremo — as Pets 16.662 e 16.704 — e redistribuí-las pelas regras regimentais da Corte.

Para o ministro, submeter informações sobre alguns magistrados a uma apuração aprofundada e não fazer o mesmo com elementos relacionados a outros comprometeria o processo.

“Apuração parcial é apuração viciada”, afirmou.

Mensagens citam julgamento e filho de Nunes Marques
Um dos episódios destacados por Gilmar ocorreu em 1º de outubro de 2024. Naquele dia, Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, escreveu a Vorcaro: “Ganhamos alcidia”. Em seguida, registrou o resultado de uma votação: “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André) desprovido o recurso da União”.

Poucos minutos depois, Rennó encaminhou a Vorcaro o contato de Kevin Marques, filho de Nunes Marques, acompanhado da mensagem: “Dominado aqui”.

Gilmar ressalva que conversas entre terceiros não permitem concluir que seu conteúdo seja verdadeiro. O que chamou a atenção do ministro foi a correspondência entre a mensagem e um julgamento efetivamente realizado pelo STF naquele dia.

Tratava-se de um recurso envolvendo a Destilaria Alcídia. O placar foi exatamente o descrito na conversa: Edson Fachin, Dias Toffoli e Nunes Marques formaram a maioria; Gilmar e Mendonça ficaram vencidos.

O voto também registra que Nunes havia aparecido como impedido no processo em fevereiro de 2024. No mês seguinte, retirou o impedimento e se declarou habilitado a votar. Em setembro, pediu vista e, em 1º de outubro, apresentou o voto que desfez o empate e formou a maioria.

Nunes Marques afirmou que o impedimento havia sido registrado porque ele atuara no caso quando era vice-presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Depois, concluiu que não estava tecnicamente impedido por se tratar de uma tese jurídica ampla e pediu a correção.

O ministro também declarou nunca ter votado em favor de Vorcaro ou do Master, nunca ter trocado mensagens com o banqueiro e jamais ter autorizado alguém a falar em seu nome.

Outras mensagens mencionam Consult e Kevin Marques
O voto reproduz ainda outras conversas entre Rennó e Vorcaro nas quais aparece o contato de Kevin.

Em agosto de 2025, Rennó escreveu que, entre os “pagamentos essenciais”, estava faltando “a consult”. Em seguida, encaminhou o contato de Kevin e escreveu “Único ‘meu’ que faltou”. Mais tarde, informou: “Foi pago”.

Em julho, o mesmo contato havia sido enviado acompanhado da pergunta: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”.

O material não permite afirmar que Kevin recebia R$ 500 mil mensais, nem estabelece que o valor mencionado tivesse como destinatário o filho de Nunes. O próprio Gilmar adverte: “são conversas, e conversas não são condenações”.

O voto também menciona reportagens baseadas em dados do Coaf segundo as quais Kevin recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária em 11 transferências. A empresa teria recebido R$ 18 milhões entre agosto de 2024 e julho de 2025, sendo R$ 6,63 milhões do Master e R$ 11,38 milhões da JBS.

Kevin afirmou que os pagamentos remuneraram trabalho na área tributária e negou que suas empresas tenham mantido negócios com o Master ou a JBS. A Consult declarou que os valores pagos ao advogado correspondiam a serviços técnicos e jurídicos. Nunes Marques afirmou nunca ter prestado serviços ou consultoria à empresa.

Contrato poderia render R$ 427 milhões
Outro conjunto de informações citado por Gilmar envolve um contrato de honorários que poderia alcançar R$ 427 milhões e que, segundo reportagem mencionada no voto, já integrava o material enviado pela Polícia Federal ao gabinete de Mendonça.

O acordo com o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos previa honorários de 5% sobre valores que o Master recebesse em 12 processos ligados ao setor sucroalcooleiro. Uma das integrantes do escritório é Camilla Ramos, mulher do desembargador federal Newton Ramos, do TRF-1.

Essas ações discutiam indenizações relacionadas ao controle de preços do açúcar e do álcool, a mesma controvérsia jurídica do processo da Destilaria Alcídia.

Nunes Marques sustentou que o Master não era parte naquele processo. Gilmar reconhece esse fato, mas afirma que a tese jurídica definida pelo STF poderia produzir efeitos sobre outras ações nas quais o banco tinha interesse econômico.

Gilmar volta a advertir que os elementos não permitem antecipar uma conclusão contra Nunes. “Conversas de terceiros não são condenações, e reportagens não são provas”, escreveu. Para ele, as informações precisam ser esclarecidas antes de o Supremo continuar a julgar os processos relacionados ao Master.

Gilmar acusa Mendonça de viés político-eleitoral
Na parte mais dura do voto, Gilmar acusa Mendonça de imprimir “inequívoco viés político-eleitoral” à condução do caso.

Segundo ele, informações envolvendo Alexandre de Moraes já haviam vazado em março de 2026 e apareciam em relatório da Polícia Federal no mês seguinte, mas Mendonça só determinou novas providências durante o período eleitoral. Gilmar também critica o levantamento do sigilo antes de o Plenário analisar a controvérsia.

As afirmações são acusações feitas por Gilmar no voto e não conclusões já estabelecidas pelo STF.

Ao defender que o mesmo critério seja aplicado a todos os nomes que aparecem no acervo, Gilmar resume a posição em uma frase: “Os fatos serão apurados — todos eles e de todos.”

Pela proposta, o STF deverá reunir e redistribuir os procedimentos, identificar os magistrados associados a indícios sólidos de pagamentos indevidos e ouvir a PGR e os próprios citados antes de retomar o julgamento.

*Cleber Lourenço/ICL


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