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Flávio Bolsonaro: da fieira de escândalos à disputa pela Presidência sob o manto da impunidade

Com uma fieira de escândalos e crimes acumulados ao longo da trajetória política, Flávio Bolsonaro chegou ao Senado e agora se apresenta como candidato à Presidência da República. É uma das mais impressionantes demonstrações de como a impunidade pode se transformar em método político.

Flávio aprendeu que, no Brasil, basta repetir uma versão até que ela ganhe aparência de verdade — e, sobretudo, basta contar com uma blindagem política e midiática suficientemente resistente para que as contradições não produzam consequências imediatas. O resultado é um candidato que pode desfilar diante das câmeras, acumular declarações desmentidas por fatos e documentos e, ainda assim, seguir falando como se estivesse acima de qualquer cobrança.

As recentes entrevistas e checagens são um retrato desse mecanismo. Veículos de checagem apontaram distorções e contradições em suas declarações sobre o Banco Master, Daniel Vorcaro, o 8 de Janeiro e outros temas. E as investigações envolvendo suas relações com o caso Master e a produção do filme sobre Jair Bolsonaro continuam produzindo novos capítulos.

O mais escandaloso, portanto, não é apenas a quantidade de controvérsias que acompanha sua carreira. É a naturalização delas. Flávio parece ter chegado a um estágio em que a mentira deixou de ser um recurso excepcional da política e passou a funcionar como instrumento permanente de comunicação: diz, nega, distorce, muda a versão e segue adiante.

E há algo ainda mais grave: a candidatura presidencial transforma esse passado em uma espécie de teste para as instituições. Se alguém pode atravessar uma longa sucessão de crimes, investigações, contradições e denúncias e, em vez de prestar contas, simplesmente subir mais um degrau na hierarquia do poder, a mensagem transmitida à sociedade é devastadora.

A questão já não é apenas o que Flávio diz. É por que ele pode dizer qualquer coisa, tantas vezes, sem que a mentira tenha custo político, jurídico ou institucional proporcional à gravidade das acusações que a cercam.

A impunidade, quando se torna rotina, deixa de ser apenas ausência de punição: transforma-se em licença para continuar. E Flávio Bolsonaro parece apostar justamente nisso — na ideia de que, aconteça o que acontecer, haverá sempre uma narrativa pronta, uma tropa política para repeti-la e uma blindagem suficiente para impedir que a realidade alcance o personagem.


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Vídeo: Flávio no epicentro do Banco Master: Lula transforma o escândalo em questão eleitoral

Lula decidiu fazer aquilo que Flávio Bolsonaro provavelmente mais gostaria de evitar, colocar o caso Banco Master no centro da campanha eleitoral e obrigar o candidato do PL a responder por sua relação com Daniel Vorcaro.

Na propaganda eleitoral, a campanha de Lula não tratou o episódio como uma nota de rodapé, muito menos como um assunto superado. Fez o contrário, trouxe o caso para o primeiro plano, recuperou o áudio de Flávio dirigindo-se ao banqueiro e recolocou diante dos eleitores a pergunta que continua sem uma resposta politicamente convincente: afinal, o que aconteceu com o dinheiro que Flávio pediu a Vorcaro?

É uma jogada eleitoral de alto impacto porque atinge justamente o ponto mais vulnerável da candidatura de Flávio, a distância entre o discurso de candidato que promete combater a corrupção e as notícias sobre sua proximidade com personagens e negócios que estão sob investigação.

A campanha de Lula explorou essa contradição sem rodeios. O áudio, as referências ao Banco Master e ao projeto do filme Dark Horse passaram a funcionar como uma espécie de cartão de visitas político de Flávio. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, Flávio teria solicitado R$ 134 milhões a Vorcaro e recebido R$ 61 milhões; o senador afirmou que os recursos estavam relacionados à produção do filme e prometeu prestar contas.

O problema político é que, enquanto Flávio tenta declarar o assunto encerrado, a campanha adversária insiste em mantê-lo aberto. E eleição é, sobretudo, disputa pela narrativa. Se Lula conseguir fazer o eleitor associar o nome Flávio Bolsonaro às palavras Banco Master, Vorcaro e dinheiro sem explicação, terá criado uma marca eleitoral extremamente difícil de apagar.

Mais do que atacar Flávio, portanto, Lula está tentando transformar o episódio em uma pergunta permanente durante a campanha: por que um candidato à Presidência precisa ser cobrado para explicar sua relação financeira com o dono de um banco envolvido em um dos maiores escândalos do momento?

A ofensiva é ainda mais significativa porque ocorre justamente quando a corrupção voltou a ocupar lugar central na disputa presidencial.

Flávio pode tentar mudar de assunto, atacar Lula ou repetir que o episódio é “página virada”. Mas há um detalhe cruel para sua campanha: quem decide se uma página virou não é o candidato; é o eleitor.

E Lula acaba de colocar essa página bem no meio da propaganda eleitoral.

A mensagem é brutalmente simples: antes de pedir o voto dos brasileiros, Flávio terá de explicar o dinheiro, o banqueiro e a história que envolve os dois.

E quanto mais ele tentar fugir do Banco Master, mais Lula terá oportunidade de perguntar por que ele está fugindo.


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Lula reconstrói o SUS e prepara o Brasil para cuidar de quem envelhece

Há uma diferença essencial entre governar e simplesmente ocupar o Palácio do Planalto: governar é escolher que país se quer construir. E, na saúde pública, a escolha de Lula é inequívoca: reconstruir o SUS, recuperar aquilo que foi desmontado e preparar o Estado brasileiro para enfrentar um dos maiores desafios das próximas décadas — o envelhecimento da população.

Não é uma tarefa pequena. O SUS atravessou anos de subfinanciamento, descontinuidade de políticas públicas, negacionismo e uma concepção de Estado que tratava direitos sociais como despesas incômodas. Durante a pandemia, essa visão produziu consequências dramáticas. Agora, o movimento é inverso: recuperar programas, recompor políticas, ampliar investimentos e devolver ao sistema público sua capacidade de cuidar de milhões de brasileiros.

Mas Lula não está apenas reconstruindo o SUS que encontrou. Está tentando fazê-lo avançar para uma nova etapa.

E a atenção à população idosa é talvez uma das expressões mais importantes dessa mudança.

O Brasil envelhece rapidamente. Ignorar essa transformação demográfica seria uma irresponsabilidade histórica. O país precisa de um sistema de saúde capaz de cuidar não apenas da doença, mas também da autonomia, da prevenção, da qualidade de vida e da dignidade de quem envelhece.


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Ex-repórter da Globo acusa emissora de tentar “derrubar Lula”

Neide Duarte criticou sabatina do presidente no JN e questionou uso de informações vazadas de investigação da PF como elemento para levantar suspeitas

A jornalista Neide Duarte, que trabalhou por décadas na Globo e passou por alguns dos principais telejornais da emissora, criticou publicamente a condução da entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Jornal Nacional.

Em publicação nas redes sociais, Neide afirmou que a emissora estaria novamente empenhada em uma “batalha para derrubar Lula” e questionou o espaço dado durante a sabatina a informações relacionadas a uma investigação da Polícia Federal.

A manifestação foi publicada após a participação de Lula no programa Entrevista com o Candidato, conduzido pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos. O presidente foi entrevistado no contexto da cobertura eleitoral, e parte da conversa abordou suspeitas relacionadas a Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente.

Para Neide, entretanto, a abordagem adotada pelos entrevistadores teria privilegiado elementos ainda não comprovados em detrimento das propostas apresentadas pelo candidato. “A metade da entrevista foi sobre pedaços de frases, fotografias, suspeitas, nenhuma prova”, escreveu a jornalista.

A crítica se concentrou especialmente no uso de informações provenientes de uma investigação policial. Neide questionou se trechos de informações atribuídas à Polícia Federal poderiam ser tratados como evidências definitivas e ironizou a classificação da abordagem como “jornalismo investigativo”.

A jornalista também levantou questionamentos sobre a própria atuação das autoridades envolvidas na apuração. “Todos os policiais da Polícia Federal são incorruptíveis???? Vocês garantem???”, escreveu.

A manifestação não apresenta, contudo, evidências de que a Globo tenha adotado deliberadamente uma estratégia institucional para prejudicar Lula. A afirmação de que existiria um “plano” aparece como interpretação e acusação feita pela própria jornalista a partir da forma como ela avaliou a entrevista.

Neide questiona espaço dado às suspeitas sobre Lulinha
Um dos principais pontos levantados por Neide Duarte foi a investigação envolvendo Fábio Luís. Segundo ela, a quebra de sigilo bancário determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, não teria encontrado elementos que comprovassem as suspeitas levantadas contra o filho do presidente.

“O Mendonça quebrou o sigilo bancário do Fabio Luis em janeiro e não encontrou NADA. Mas vocês continuam nessa batalha para derrubar Lula. Descaradamente agora”, afirmou.

A jornalista também criticou a repercussão posterior da entrevista nos canais de notícias da Globo. Segundo Neide, a programação teria dedicado tempo excessivo justamente aos trechos relacionados às suspeitas, enquanto as respostas de Lula sobre questões de governo teriam recebido menos atenção.

“Tudo o que Lula tentou dizer sobre Brasil, educação, economia, segurança, parece que a maior emissora de TV do país não deu nenhuma importância”, escreveu.

Para ela, a cobertura teria deixado em segundo plano as propostas apresentadas pelo presidente e candidato à reeleição.

A questão ganha peso no caso de Lula pela trajetória da relação entre o presidente e a Globo. Ao longo de diferentes períodos eleitorais, a cobertura da emissora já foi objeto de críticas tanto de setores da esquerda quanto de outros grupos políticos.

A crítica recupera uma discussão histórica sobre o papel da imprensa brasileira em períodos eleitorais: até que ponto a cobertura jornalística deve concentrar-se na investigação de denúncias e suspeitas envolvendo candidatos, e em que momento essa abordagem pode acabar determinando a própria agenda eleitoral?

Em sua manifestação, Neide encerrou a crítica relacionando a atuação da imprensa ao risco de uma nova ascensão da extrema direita no país. “Se este país cair outra vez nas mãos da extrema direita estúpida, inimiga da educação, da cultura, dos projetos sociais, nós, brasileiros, saberemos identificar os responsáveis por isso”, escreveu.

A crítica ganha repercussão adicional pela trajetória profissional de sua autora. Neide Duarte entrou na Globo em 1980 e permaneceu na emissora até 1996. Ao longo desse período, trabalhou em programas como Jornal Nacional, Globo Rural, Bom Dia Brasil, Jornal Hoje e SPTV, além de atuar como repórter especial do Globo Repórter e do Fantástico. Ela também passou pelo SBT e pela TV Cultura antes de retornar à Globo em 2005. Permaneceu na emissora até 2022.

*GGN


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Flávio Bolsonaro no JN: uma seleção de mentiras em horário nobre

Flávio Bolsonaro entrou no Jornal Nacional não para enfrentar os fatos, mas para tentar substituí-los por uma narrativa cuidadosamente construída para consumo eleitoral. O resultado foi uma verdadeira seleção de mentiras, distorções, omissões e versões convenientemente adaptadas à sua campanha.

O mais impressionante é que ele sequer parece ter se dado ao trabalho de construir aquelas tradicionais “meias verdades”, nas quais se mistura um pedaço de fato com uma boa dose de manipulação. Não. Em vários momentos, Flávio simplesmente afirmou coisas que colidem frontalmente com os registros disponíveis. As checagens publicadas depois da entrevista identificaram uma sequência de declarações falsas ou enganosas.

No caso do filme Dark Horse, por exemplo, Flávio afirmou que as informações relevantes já eram públicas, quando não havia prestação de contas pública que comprovasse o destino dos recursos. Também tentou transformar em uma banalidade a relação financeira envolvendo Daniel Vorcaro, embora a própria documentação conhecida e as reportagens sobre o caso apontem para uma história muito mais complexa.

E não parou aí. Vieram as versões sobre Adriano da Nóbrega, o negacionismo climático, as urnas eletrônicas, o Pix, o 8 de Janeiro e a atuação do próprio Flávio em questões relacionadas ao Banco Master. Em diferentes pontos, a realidade documentada simplesmente não cabia na narrativa que ele pretendia vender ao telespectador.

É justamente aí que está o problema. Uma entrevista presidencial deveria ser um confronto entre propostas, fatos e responsabilidades. Não pode se transformar em um palco no qual o candidato lança uma afirmação atrás da outra e deixa para o público a tarefa de descobrir, depois, onde termina o discurso político e começa a falsificação da realidade.

E basta uma busca simples para desmontar boa parte desse turbilhão de versões. É só colocar no Google cada uma das frases ditas por Flávio no JN e confrontá-las com documentos, registros públicos e checagens jornalísticas. A narrativa começa a desmoronar em questão de minutos.

O problema, portanto, não é apenas Flávio Bolsonaro ter mentido. É a estratégia política por trás da mentira: falar com tanta segurança que o espectador possa confundir convicção com verdade. Repetir uma versão até que ela pareça um fato. Apresentar a própria narrativa como se fosse a realidade e apostar que ninguém terá tempo ou disposição para conferir.

Mas tem um detalhe inconveniente para essa estratégia: os fatos continuam existindo.

E os fatos não precisam de performance, gestual ou discurso ensaiado. Basta confrontá-los com aquilo que Flávio disse no JN.

Quando isso é feito, sobra muito pouco da entrevista além de uma sucessão de versões convenientes, omissões e afirmações que não resistem ao primeiro contato com a realidade.


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Flávio Bolsonaro, o candidato Sambarilove

Gerson Camarotti talvez tenha encontrado a melhor definição para a participação de Flávio Bolsonaro na sabatina do Jornal Nacional: o candidato assumiu integralmente o figurino e o gestual do Sambarilove da Escolinha do Professor Raimundo.

Foi um espetáculo à parte. Pergunta de um lado, floreio do outro. O entrevistador apertava, Flávio escorregava. Perguntava-se sobre um assunto, vinha uma pirueta verbal; insistia-se na questão, surgia uma cambalhota retórica. Quando a resposta ameaçava aparecer, lá vinha o velho e conhecido sambarilove: muita movimentação, muito gesto, muita convicção cenográfica e nenhuma substância.

Flávio parecia ter ido ao Jornal Nacional não para responder perguntas, mas para dançar em torno delas, imitando perfeitamente o personagem Armando Volta.

Era como se tivesse levado para a bancada uma cartilha intitulada: “Como falar durante vários minutos sem necessariamente chegar ao ponto”. O problema é que televisão não é salão de baile e entrevista não é concurso de coreografia. Em algum momento, o candidato precisa responder.

E aí apareceu o grande talento do sambarilove político: transformar pergunta incômoda em fumaça, questão objetiva em discurso e cobrança em vitimismo.

Quando surgiam temas espinhosos, especialmente aqueles que exigiam explicações mais concretas, o figurino ficava ainda mais completo. Braços para cá, cabeça para lá, sobrancelha para cima, indignação para todo lado — e a resposta, essa criatura misteriosa, continuava desaparecida.

O curioso é que o Sambarilove original fazia aquilo para arrancar risadas. Flávio, ao que tudo indica, tenta fazer o mesmo movimento para conquistar votos.

Só esqueceram de avisá-lo de uma diferença fundamental: na Escolinha do Professor Raimundo, o sambarilove era personagem. Na política, o eleitor espera encontrar um candidato.

Flávio Bolsonaro conseguiu, portanto, uma proeza rara: transformar uma sabatina presidencial em um número de variedades. Saiu de lá deixando a impressão de que, quando a realidade aperta, o melhor recurso disponível é mesmo tirar o sapato, ajeitar o chapéu imaginário e mandar ver no sambarilove.

Só faltou a musiquinha de entrada.

E talvez o mais revelador seja justamente isso: quanto mais se esperava uma resposta, mais aparecia o personagem. Quanto mais se cobrava conteúdo, mais vinha o gestual. Quanto mais a pergunta exigia precisão, mais o candidato parecia ensaiar uma coreografia.

No fim, Flávio não precisava de marqueteiro. Precisava era de um palco, uma orquestra e, quem sabe, do velho bordão:

“Sambarilove, sambarilove… e resposta que é bom, nada!”


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A serpente fascista colocou dois ovos no STF

A serpente fascista não desapareceu. Ela apenas aprendeu a trocar de pele, a falar em nome das instituições e a se apresentar com a aparência respeitável de quem pretende defender a democracia enquanto trabalha, por dentro, para corroê-la.

E agora, na leitura política que se pode fazer do momento, essa serpente conseguiu colocar dois ovos dentro do STF. O perigo não está apenas no que esses ovos representam hoje, mas no que podem produzir amanhã. Porque ovos de serpente não nascem para ornamentar o ninho: nascem para perpetuar o veneno.

A extrema direita brasileira descobriu que não precisa necessariamente ocupar todos os espaços pelo voto. Pode tentar disputar instituições, influenciar decisões, pressionar ministros, fabricar crises e transformar o debate jurídico em extensão da guerra política. É uma estratégia conhecida: quando não consegue conquistar democraticamente o poder, tenta capturar os mecanismos capazes de condicioná-lo.

Por isso, é preciso olhar para esses dois ovos com muito mais atenção do que a complacência institucional costuma permitir. Não se trata de demonizar pessoas ou antecipar decisões, mas de reconhecer que determinadas escolhas para a mais alta Corte do país carregam consequências que ultrapassam biografias individuais.

O STF não é um clube político, tampouco uma trincheira partidária. É uma das últimas barreiras institucionais contra a ruptura democrática. Quando forças que flertaram abertamente com autoritarismo conseguem plantar representantes no coração dessa estrutura, o problema deixa de ser meramente partidário: passa a ser uma questão de defesa da própria democracia.

A serpente sabe esperar. Ela não precisa dar o bote imediatamente. Basta permanecer enrolada, silenciosa, aguardando a hora conveniente para atacar.

É justamente por isso que os dois ovos precisam ser observados com lupa. Porque democracia não morre apenas com tanques nas ruas. Às vezes, ela começa a apodrecer quando o autoritarismo aprende a vestir terno, falar baixo, citar a Constituição e ocupar, por dentro, os espaços criados para protegê-la.

E quem acha que a serpente fascista está domesticada talvez descubra tarde demais que serpente não perde o veneno porque mudou de pele.


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A mídia nativa de alta potência já escolheu seu candidato há muito tempo

Sem ilusões. Os papas da mídia nativa de alta potência, com a Globo à frente, não precisam declarar apoio explícito a Flávio Bolsonaro para trabalhar politicamente pela sua candidatura. É justamente aí que mora o perigo. O método é mais sofisticado — e muito mais eficiente: uma crítica milimetricamente controlada, capaz de preservar a aparência de independência enquanto poupa o candidato dos golpes que realmente poderiam desmontar sua candidatura.

O roteiro é conhecido. Em vez de blindagem escancarada, oferece-se ao público uma espécie de oposição cenográfica: uma pergunta mais dura aqui, uma cobrança ali, uma observação crítica acolá. Depois, encerra-se a conta. O candidato sai dizendo que foi “pressionado”, a emissora pode proclamar que fez jornalismo rigoroso e, ao mesmo tempo, aquilo que realmente poderia produzir dano político fica convenientemente fora do centro do palco.

É preciso observar o que acontece quando a entrevista chega aos pontos realmente explosivos. Flávio foi questionado sobre Banco Master, Daniel Vorcaro, os R$ 61 milhões relacionados ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, a tentativa de golpe e suas declarações sobre as urnas. Ainda assim, análises posteriores apontaram que ele conseguiu escapar de respostas objetivas em temas decisivos e que a condução permitiu que dominasse boa parte da narrativa.

É exatamente nesse espaço entre parecer crítico e ser efetivamente contundente que a mídia pode desempenhar um papel político decisivo.

O que está em jogo não é simplesmente favorecer Flávio com elogios. É algo mais sofisticado: normalizá-lo. Transformar um candidato cercado por controvérsias em um presidenciável “como qualquer outro”; deslocar os assuntos potencialmente devastadores para o rodapé; suavizar contradições; oferecer-lhe tempo para reorganizar a narrativa; e, sobretudo, impedir que a eleição seja travada em torno das questões que mais incomodam sua candidatura.

Foi assim que o bolsonarismo aprendeu a sobreviver politicamente: convertendo crises em espetáculo, acusações em vitimização e perguntas incômodas em combustível para sua própria mobilização.

Flávio, aliás, reproduz até gestos do repertório eleitoral do pai. Na entrevista ao Jornal Nacional, apareceu com palavras anotadas na mão — “Mudança”, “Futuro” e “7/set” — repetindo uma estratégia já utilizada por Jair Bolsonaro em 2018 e 2022.

Portanto, não se deve esperar necessariamente que a grande mídia coloque Flávio no colo. Basta que não o coloque contra a parede.

A diferença é enorme.

Um candidato pode ser criticado durante quarenta minutos e, ainda assim, sair politicamente beneficiado se as perguntas mais importantes forem formuladas de maneira suficientemente branda, se as respostas evasivas forem aceitas sem insistência e se os temas mais perigosos forem rapidamente substituídos por outros.

É a crítica controlada: aquela que preserva a reputação de independência do veículo sem necessariamente ameaçar o projeto político do candidato.

E há uma razão para levar essa possibilidade a sério. A eleição de 2026 não é uma disputa qualquer. Flávio tenta ocupar o espaço político deixado pelo pai e, ao mesmo tempo, apresentar uma versão eleitoralmente mais palatável do bolsonarismo. A própria imprensa já registra a tensão entre o setor mais radical do movimento e a tentativa de construir uma candidatura mais moderada e profissionalizada.

Nesse cenário, a mídia tem uma escolha: investigar o candidato até as últimas consequências ou ajudá-lo a se tornar palatável ao eleitorado.

E é por isso que não basta prestar atenção ao que os grandes veículos dizem sobre Flávio. É preciso observar também o que deixam de perguntar, o que deixam de aprofundar e aquilo que retiram rapidamente do centro do debate.

Porque, numa eleição presidencial, a blindagem mais eficiente não é o silêncio.

É uma crítica cuidadosamente dosada — suficiente para parecer jornalismo independente, mas insuficiente para colocar o candidato em verdadeiro perigo político.

Se essa for a estratégia, a sociedade precisa reconhecê-la antes que seja tarde. Afinal, não se trata apenas de quem fala mais alto na televisão. Trata-se de quem consegue definir quais perguntas a sociedade fará ao candidato — e quais perguntas jamais chegarão ao horário nobre.


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