A campanha eleitoral ainda nem começou oficialmente, mas Gilberto Kassab já colocou em xeque a viabilidade da candidatura de Flávio Bolsonaro. Presidente nacional do PSD e candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado, Kassab foi direto ao afirmar que considera “zero” a chance de Flávio vencer a eleição e que o senador está sendo, neste momento, politicamente “preservado” pelos adversários. Para ele, essa proteção vai desaparecer assim que a disputa começar de fato — e o candidato do PL deverá “desabar” nas pesquisas.
A declaração é especialmente significativa porque parte de um dirigente que conhece profundamente a lógica do Centrão: partidos desse campo raramente se movem por fidelidade ideológica; calculam riscos, espaços de poder, tempo de televisão, palanques regionais e, sobretudo, quem demonstra maior possibilidade de vitória. Nesse sentido, a leitura de Kassab é que Flávio Bolsonaro ainda não conseguiu convencer essas forças de que possui musculatura para chegar ao Palácio do Planalto.
Mais do que uma simples provocação eleitoral, a fala revela um problema central da candidatura bolsonarista: o sobrenome Bolsonaro pode garantir uma base fiel, mas não necessariamente é suficiente para ampliar a votação para além dela. A campanha oficial, que começa neste domingo (16), tende a colocar Flávio sob um escrutínio muito maior, transformando seu histórico político, seus aliados e suas propostas em alvos permanentes dos adversários.
Kassab também fez uma afirmação politicamente explosiva: segundo ele, embora partidos do Centrão tenham adotado formalmente uma posição de neutralidade, na prática o grupo está com Lula. União Brasil, PP e Republicanos, por exemplo, não fecharam uma aliança nacional com Flávio e mantêm espaço para movimentos pragmáticos nos estados. Essa ausência de apoio formal pode representar um problema considerável para uma candidatura que precisa de palanques regionais, estrutura partidária e tempo de propaganda para alcançar eleitores fora de seu núcleo mais fiel.
Há, portanto, uma contradição importante no discurso bolsonarista: enquanto Flávio tenta se apresentar como o candidato capaz de unir a direita e derrotar o PT, uma parcela relevante das forças políticas que poderiam sustentar essa candidatura prefere manter distância. No mundo real da política, isso significa que o entusiasmo das redes sociais não necessariamente se converte em alianças, votos e estruturas eleitorais.
As pesquisas ajudam a explicar por que o cenário ainda está longe de estar decidido. A Quaest divulgada nesta sexta-feira mostra Lula com 38% e Flávio com 31% no primeiro turno. Num eventual segundo turno entre os dois, Lula aparece com 43% e Flávio com 40%, em empate técnico dentro da margem de erro. Ao mesmo tempo, a rejeição a Flávio chega a 54%, enquanto a de Lula está em 52%.
Ou seja: Kassab pode estar fazendo uma aposta eleitoral, e não anunciando um resultado antecipado. Dizer que Flávio “vai desabar” é uma previsão política, não um fato consumado. Mas o alerta tem peso porque toca justamente no ponto mais vulnerável da candidatura: sua capacidade de crescer para além do eleitorado bolsonarista tradicional.
E é aí que o início da campanha pode mudar o jogo. Com a propaganda eleitoral, os debates, os ataques dos adversários e a exposição ampliada dos candidatos, a imagem cuidadosamente construída durante a pré-campanha será submetida ao teste das urnas. Se Flávio não conseguir transformar a força do bolsonarismo em uma candidatura capaz de atrair eleitores independentes e setores do centro, a previsão de Kassab poderá ganhar contornos mais concretos.
No fundo, a declaração do presidente do PSD revela uma disputa que vai muito além de Lula contra Flávio. É também uma batalha pelo Centrão e pelo eleitor que rejeita tanto o petismo quanto o bolsonarismo. Kassab e Caiado tentam ocupar justamente esse espaço. E, ao afirmar que Flávio está sendo “preservado” e que irá “desabar” quando for efetivamente confrontado, Kassab não apenas critica o adversário: ele tenta convencer o eleitorado de que a candidatura de Flávio é mais frágil do que aparenta.
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