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O bolsonarismo não é direita ou extrema direita. É a latrina da velha mídia

Há quem ainda se esforce para enquadrar o bolsonarismo nas categorias tradicionais da política: direita, extrema direita, conservadorismo, populismo. Mas talvez essas definições sejam insuficientes para explicar o fenômeno. O bolsonarismo se tornou algo mais rasteiro: uma espécie de latrina política onde a velha mídia despeja seus ressentimentos, seus preconceitos e suas narrativas quando faltam argumentos para fazer oposição ao governo Lula.

A velha mídia, que durante décadas se apresentou como guardiã da informação, da racionalidade e das instituições, encontrou no bolsonarismo um conveniente parceiro de ocasião. Quando não consegue enfrentar políticas públicas, resultados econômicos ou programas sociais, recorre ao expediente mais fácil: fabricar escândalos, transformar suspeitas em manchetes e ressuscitar personagens que funcionem como cortina de fumaça.

O problema é que essa operação tem um preço. Ao tentar transformar qualquer episódio envolvendo o entorno de Lula em uma crise de Estado, enquanto relativiza ou simplesmente desloca o foco de problemas muito mais graves no campo bolsonarista, parte da imprensa deixa de fazer jornalismo para assumir o papel de militância editorializada.

O bolsonarismo, por sua vez, agradece. Não precisa apresentar projeto de país, explicar suas contradições ou responder pelos próprios fracassos. Basta oferecer à máquina de manchetes algum personagem, alguma acusação sem prova definitiva, algum vídeo fora de contexto ou alguma ilação envolvendo a família de Lula. A velha mídia faz o restante do trabalho.

É uma relação simbiótica: o bolsonarismo fornece o espetáculo; a velha mídia fornece o palco, os holofotes e, muitas vezes, até o roteiro.

E quando a realidade insiste em contrariar a narrativa, entra em cena a velha fórmula: repetir, repetir e repetir. Uma suspeita vira “escândalo”; uma ilação vira “crise”; uma investigação vira “prova” no imaginário do leitor. Enquanto isso, fatos inconvenientes podem desaparecer rapidamente das primeiras páginas.

Por isso, talvez seja mais preciso dizer que o bolsonarismo não é simplesmente direita ou extrema direita. Ele é também o produto de uma engrenagem midiática que, depois de anos alimentando o antipetismo, acabou criando um monstro que agora precisa ser continuamente abastecido para permanecer politicamente relevante.

A ironia é que aqueles que se apresentam como defensores da democracia e da boa informação acabam, muitas vezes, funcionando como encanadores dessa latrina: recolhem o que o bolsonarismo produz, dão uma polida editorial e devolvem ao público como se fosse notícia de alta relevância nacional.

No fim, a questão não é apenas saber onde o bolsonarismo se situa no espectro ideológico. É perguntar quem se beneficia de sua existência permanente como espetáculo político.

E, olhando para o comportamento de determinados veículos, colunistas e comentaristas, a resposta parece cada vez menos misteriosa.


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Política

Salta aos olhos que os bolsonaristas não querem que Vorcaro faça delação

Há algo que salta aos olhos no caso Daniel Vorcaro: quanto mais a possibilidade de uma delação volta ao horizonte, maior parece ser o desconforto no campo bolsonarista. E não é difícil entender por quê.

Vorcaro não é um personagem periférico. O ex-dono do Banco Master aparece no centro de uma investigação que envolve dinheiro, relações políticas e o financiamento de projetos ligados ao universo bolsonarista. As próprias informações divulgadas sobre o caso apontam que o banqueiro voltou a tentar um acordo de colaboração, agora com uma nova equipe de advogados.

O ponto politicamente explosivo é que uma delação não escolhe previamente quem será atingido. Se houver fatos, documentos, mensagens, transferências e outros elementos capazes de corroborá-los, eles podem alcançar diferentes personagens e grupos. É justamente essa possibilidade que transforma Vorcaro em uma espécie de caixa-preta que muita gente parece preferir manter fechada.

E há um detalhe especialmente incômodo para o bolsonarismo: o caso já produziu informações sobre a relação de Vorcaro com o filme Dark Horse. Mensagens obtidas pela imprensa mostraram sua atuação em decisões relacionadas à divulgação da produção, enquanto o financiamento de R$ 61 milhões passou a ser objeto de investigação.

Por isso, o silêncio sobre Vorcaro é tão eloquente quanto o barulho produzido em torno de outros personagens. Quando uma investigação ameaça atingir adversários, o discurso é de “tolerância zero”, “cadeia para todos” e “ninguém está acima da lei”. Quando a investigação começa a se aproximar do próprio campo político, surgem as explicações, as relativizações, as tentativas de mudar o foco e, sobretudo, a necessidade de desqualificar aquilo que ainda nem foi plenamente revelado.

É a velha lógica da seletividade: a delação é maravilhosa quando pode ser usada contra o inimigo e aterrorizante quando pode iluminar os bastidores dos aliados.

E talvez seja exatamente por isso que a possibilidade de Vorcaro falar incomode tanto. Porque uma colaboração premiada, se aceita e acompanhada de provas, pode transformar aquilo que hoje aparece como suspeita, versão ou disputa política em uma sequência documentada de fatos. E, nesse cenário, ninguém deveria ter o direito de escolher previamente quais nomes podem ou não aparecer.

Se não há nada a temer, por que tanto interesse em que Vorcaro não fale?

A pergunta é simples. E, justamente por ser simples, é difícil de esconder atrás de cortinas de fumaça.


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Política

Quando falta argumento para a direita e velha mídia, sobra Lulinha

Há algo de revelador na ofensiva que setores da direita e da velha mídia vêm fazendo em torno de Lulinha: quando a oposição passa a transformar o filho de Lula no principal instrumento para tentar atingir o presidente, ela também revela a dificuldade de enfrentar o governo Lula no terreno em que uma democracia deveria travar sua disputa — o das propostas, dos resultados, da economia e do projeto de país.

Não se trata de dizer que investigações devem ser ignoradas. Ao contrário: qualquer suspeita deve ser investigada, com transparência, devido processo legal e direito de defesa. O próprio Lula afirmou que, se seu filho tiver cometido algum erro, deverá responder por isso.

O problema começa quando investigação vira munição eleitoral antes mesmo de existir uma conclusão judicial. E, principalmente, quando o nome de um filho é usado como atalho para tentar produzir uma associação automática entre eventuais suspeitas contra ele e a responsabilidade do presidente da República.

A estratégia é tão evidente que já foi registrada pela própria imprensa: o caso Lulinha passou a ocupar espaço central na ofensiva eleitoral da oposição contra Lula.

E aqui está o ponto político mais importante: se a direita acredita que Lula está governando mal, por que não atacar Lula pelo governo?

Onde estão as críticas consistentes sobre emprego, renda, inflação, investimentos, política industrial, saúde, educação, infraestrutura, relações internacionais e os demais temas que afetam diretamente a vida dos brasileiros?

É perfeitamente legítimo fazer oposição. Mais do que legítimo, é necessário. Mas oposição de verdade exige argumentos. Exige comparação. Exige apresentar uma alternativa capaz de convencer o eleitor de que existe um caminho melhor.

Atacar o filho para tentar atingir o pai é outra coisa.

É a velha lógica da política-espetáculo: encontrar um personagem, martelar seu nome diariamente, transformar suspeitas em manchetes e tentar fazer com que a repetição produza, no imaginário popular, uma condenação que a Justiça ainda não produziu.

E há uma ironia adicional.

Enquanto a direita tenta transformar Lulinha em personagem central da eleição, o próprio debate eleitoral mostra que existem temas concretos capazes de atingir diretamente o governo e a oposição — como custo de vida, endividamento, inflação e emprego. A disputa presidencial já incorporou esses assuntos ao confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Portanto, a pergunta incômoda é inevitável: se existe tanta munição contra Lula, por que é preciso mirar em Lulinha?

Talvez porque, no campo das ideias, a artilharia esteja mais fraca do que parece.

A velha mídia pode produzir manchetes. A oposição pode produzir discursos. As redes podem produzir viralizações. Mas nada disso substitui uma proposta política consistente.

No fim das contas, atacar Lulinha para tentar derrubar Lula pode dizer menos sobre Lulinha do que sobre seus atacantes.

Quando a oposição abandona o debate sobre o governo e transforma a família do adversário em alvo principal, ela não está demonstrando força. Está confessando que tem dificuldade para vencer Lula na bola — e precisa tentar ganhar no grito, na associação e na repetição.


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Política

Quando a régua da mídia muda conforme o sobrenome

Há uma pergunta incômoda que a imprensa brasileira deveria responder: por que o rigor jornalístico que hoje é aplicado a Lulinha, muitas vezes a partir de ilações, suspeitas e associações sem comprovação, não foi usado com a mesma intensidade quando parentes de Fernando Henrique Cardoso ocupavam posições relevantes no Estado ou orbitavam negócios estratégicos?

O caso de FHC não é uma invenção recente. Durante seu governo, a própria imprensa registrou a contratação de sua filha Luciana Cardoso como assessora do Palácio do Planalto. Em 1995, uma decisão judicial suspendeu a nomeação, apontando possível violação ao princípio constitucional da moralidade e questionando a prática de nepotismo.

Também havia o genro, David Zylbersztajn, casado com Beatriz Cardoso. Antes mesmo de FHC assumir a Presidência, Zylbersztajn ocupava a Secretaria de Energia de São Paulo e depois, no governo tucano, tornou-se diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo. A própria imprensa da época registrava o parentesco e sua atuação na área energética.

E é justamente aí que a memória seletiva da mídia merece ser questionada.

Porque estamos falando de um período em que o governo FHC promoveu uma profunda transformação do papel do Estado, com privatizações, abertura a grupos estrangeiros e mudanças estruturais no setor energético. A Petrobras esteve no centro desse projeto. Em 2000, a estatal chegou a anunciar a mudança de sua marca para Petrobrax, iniciativa atribuída à gestão de Henri Philippe Reichstul. A mudança havia recebido aval de FHC, segundo relatos da época, mas foi abandonada depois da enorme reação pública. O episódio custou R$ 700 mil à Petrobras.

O ponto político não é afirmar, sem provas, que determinado parente tenha cometido crime. O ponto é outro: se parentes do presidente estavam envolvidos em posições estratégicas do Estado, isso deveria provocar o mesmo escrutínio jornalístico que hoje se pretende impor a qualquer atividade empresarial de um filho de presidente.

E há uma diferença fundamental entre investigar e condenar por manchete.

Se existem documentos, contratos, relações empresariais ou indícios concretos envolvendo Lulinha, que sejam investigados. Mas jornalismo não pode funcionar à base de “vamos insinuar primeiro e procurar a prova depois”. Tampouco pode transformar parentesco em prova de crime quando o personagem é adversário e, simultaneamente, tratar como mera coincidência quando o sobrenome pertence ao campo político tradicionalmente protegido por determinados veículos.

A questão, portanto, não é pedir tratamento privilegiado para Lulinha. É exigir isonomia.

Se a família de um presidente é assunto de interesse público quando Lula está no poder, também era quando FHC estava no Planalto. Se o filho de Lula pode ser transformado diariamente em personagem central de suspeitas ainda sem comprovação, por que os parentes de FHC não receberam o mesmo tratamento editorial quando estavam próximos de setores estratégicos do governo?

E há uma ironia histórica impossível de ignorar: enquanto hoje determinados setores da imprensa fazem enorme esforço para transformar qualquer menção a Lulinha em escândalo político, o episódio da Petrobrax ficou para a história como símbolo de uma época em que até o nome da Petrobras foi colocado em discussão sob o argumento de facilitar sua internacionalização. A proposta foi apresentada como estratégia de expansão internacional; críticos, por sua vez, viram nela mais um sinal do projeto de desnacionalização da companhia.

É justamente essa comparação que incomoda.

Não se trata de defender Lulinha. Trata-se de defender uma regra única. Filho de presidente não pode ser tratado como culpado por associação, assim como genro, filha ou qualquer outro parente de presidente não deve ser blindado pelo silêncio, pela suavização das manchetes ou pela transformação de fatos politicamente desconfortáveis em notas de rodapé.

A imprensa tem todo o direito — e o dever — de investigar os filhos dos poderosos. Mas precisa investigar todos os poderosos.

Caso contrário, deixa de ser jornalismo fiscalizador e passa a funcionar como uma espécie de tribunal de exceção editorial: severíssimo com uns, compreensivo com outros.

E essa talvez seja a pergunta mais importante de todas: o problema da mídia é realmente o parentesco com o poder ou apenas o parentesco com o poder de quem ela não gosta?

E Lulinha sequer é candidato a cargo eletivo ou tem emprego no governo do seu pai.


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Brasil Economia

Desemprego cai a 5,3% e atinge menor taxa para julho desde 2012, diz IBGE

O desemprego no Brasil ficou em 5,3% no trimestre móvel encerrado em julho, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quinta-feira (27). O resultado é o menor para os trimestres terminados em julho desde o início da série histórica, em 2012.

O indicador integra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), que acompanha o mercado de trabalho no país. A taxa manteve o desemprego nas mínimas históricas.

No trimestre móvel anterior, encerrado em abril, a taxa havia sido de 5,8%. A leitura de julho representa uma queda de 0,5 ponto percentual nessa comparação.

Em igual período de 2025, o desemprego estava em 5,6%. Portanto, o índice de 5,3% também ficou abaixo do registrado um ano antes.

Mercado de trabalho opera perto das mínimas históricas
Durante o primeiro semestre, as taxas de desemprego ficaram abaixo das observadas na primeira metade de 2025. As variações mensais, porém, foram pequenas, indicando estabilidade do indicador em patamar baixo.

Especialistas veem essa estabilidade como resultado das melhoras sucessivas do mercado de trabalho desde a retomada econômica posterior à pandemia de Covid-19. Com o desemprego em mínimas históricas, o cenário ainda aponta aquecimento nas contratações.

A expectativa para o segundo semestre, contudo, é de que essa estabilidade dê lugar a uma piora gradual. A desaceleração da atividade econômica é um dos fatores considerados nessa projeção. DCM.

Depois de a economia brasileira crescer 2,3% em 2025, analistas consultados pelo Banco Central projetam expansão de 1,9% neste ano, conforme a edição mais recente do Boletim Focus.


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Economia Mundo

BRICS Pay e desdolarização: o avanço de uma nova arquitetura financeira

O que está em discussão no BRICS vai muito além de criar uma ferramenta para facilitar pagamentos entre países. O bloco começa a construir, passo a passo, uma infraestrutura financeira capaz de reduzir a dependência do dólar e, sobretudo, diminuir a vulnerabilidade dos países do Sul Global diante de sistemas financeiros controlados pelas potências ocidentais.

O BRICS Pay aparece nesse movimento como uma espécie de ponte digital entre os sistemas de pagamentos instantâneos dos países-membros. A ideia é permitir liquidações diretamente em moedas nacionais, reduzindo a necessidade de passar pelo dólar e por intermediários associados à infraestrutura tradicional de pagamentos internacionais. O tema avançou a ponto de o presidente do Banco Central da Índia, Sanjay Malhotra, confirmar que a integração dos sistemas de pagamentos rápidos e das moedas digitais de bancos centrais está em discussão dentro do bloco.

E aqui está o ponto verdadeiramente estratégico: não se trata de substituir o dólar da noite para o dia, mas de retirar dele o monopólio da intermediação financeira internacional.

Essa diferença é fundamental.

Durante décadas, a hegemonia monetária dos Estados Unidos esteve associada não apenas ao tamanho da economia americana, mas também ao controle de uma gigantesca infraestrutura financeira internacional. O dólar funciona como moeda de reserva, unidade de referência e instrumento central de liquidação. O sistema SWIFT, embora não seja propriedade do governo americano, tornou-se parte importante dessa arquitetura financeira global.


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André Mendonça fez discurso de juiz terrivelmente pobre e até a mídia amiga não perdoou

O discurso de um juiz terrivelmente pobre — e a conta milionária paga pelo contribuinte

André Mendonça conseguiu produzir uma daquelas cenas que dispensam qualquer comentário de adversário político: fez um discurso de juiz “terrivelmente pobre” e acabou recebendo críticas até de setores da mídia que, em outras circunstâncias, costumam lhe oferecer tratamento bastante mais generoso.

A contradição é difícil de ignorar. O discurso pode até tentar vender a imagem de um Judiciário austero, sacrificado e incompreendido, mas ela esbarra numa realidade muito mais prosaica: magistrados no Brasil estão entre os servidores mais bem remunerados do país, e a remuneração pode ser turbinada por uma impressionante coleção de benefícios e penduricalhos.

É justamente aí que a retórica perde força. Falar em dificuldades e sacrifícios quando se está sentado sobre uma estrutura de privilégios remuneratórios soa, no mínimo, desconectado da vida de milhões de brasileiros que precisam sobreviver com salários infinitamente menores, sem auxílio, verba indenizatória, gratificações especiais ou qualquer mecanismo capaz de transformar uma remuneração já elevada em algo ainda mais distante da realidade nacional.

E o mais curioso foi a reação da própria mídia amiga. Quando até aqueles que normalmente fazem contorcionismo para proteger determinadas figuras do Judiciário resolvem “sentar o bambu”, é sinal de que o discurso ultrapassou uma fronteira particularmente sensível. A imagem de austeridade simplesmente não combinou com a realidade de quem recebe remuneração e vantagens que, para a esmagadora maioria da população, pertencem ao universo dos reis e rainhas.

Não se trata de defender que juiz receba pouco. Magistrados exercem uma função de enorme responsabilidade e precisam ser adequadamente remunerados. A questão é outra: qual é o limite entre remuneração compatível com a função e um sistema de privilégios que parece existir em uma dimensão paralela à do país real?

Enquanto isso, o trabalhador comum enfrenta inflação, aluguel, impostos, jornadas exaustivas e, para milhões, a escala 6×1. Não existe “penduricalho” para compensar o custo de vida. Não há verba especial para pagar supermercado, combustível ou escola dos filhos. Muito menos uma estrutura capaz de transformar um salário em uma pequena fortuna.

Por isso, o problema do discurso de Mendonça não está apenas no que ele disse, mas na distância entre a narrativa e a realidade. Pobreza, no Brasil, definitivamente não é um conceito que possa ser utilizado com a mesma liberdade por quem recebe remuneração de elite.

No fim, talvez a melhor síntese tenha vindo justamente da reação que o discurso provocou: quando até a mídia que costuma ser complacente resolveu puxar o freio, ficou evidente que havia alguma coisa profundamente fora do lugar.

E não era o salário do trabalhador.


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Negociador: Lula fecha acordo com Motta e Alcolumbre e destrava fim da 6×1, ‘taxa das blusinhas’ e terras raras

Lula retoma a iniciativa e fecha pacto no Congresso para destravar 6×1, blusinhas e terras raras

O almoço de Lula com Hugo Motta e Davi Alcolumbre, nesta quarta-feira, produziu algo politicamente relevante: um acordo para tirar da gaveta uma série de pautas que estavam emperradas no Congresso e colocá-las no centro do esforço concentrado da próxima semana. Entre elas estão o fim da escala 6×1, a derrubada da chamada “taxa das blusinhas” e o marco legal dos minerais críticos e terras raras.

Não é pouca coisa. É justamente no Congresso que muitas das propostas de maior impacto social e econômico acabam paralisadas por disputas partidárias, interesses corporativos e cálculos eleitorais. Ao reunir os presidentes das duas Casas e arrancar deles um compromisso de tramitação, Lula demonstra que ainda dispõe de capacidade de articulação política — e que, quando Executivo e Legislativo decidem colocar determinadas matérias na pauta, a engrenagem anda.

O fim da escala 6×1 é o ponto de maior impacto social. A proposta reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, preservando os salários e ampliando o descanso dos trabalhadores. A PEC já avançou na Câmara e chegou à CCJ do Senado, onde o senador Omar Aziz foi escolhido relator. A previsão é que o relatório seja apresentado no início de setembro.

É exatamente aí que aparece o contraste político com a oposição. Enquanto Lula transforma a redução da jornada e o direito a mais tempo de descanso em uma bandeira concreta, setores ligados ao bolsonarismo tentam sustentar alternativas que preservam maior flexibilidade para patrões e empregados. A disputa, portanto, não é apenas regimental: é uma disputa sobre que projeto de país será apresentado ao trabalhador brasileiro.

A “taxa das blusinhas” também tem enorme potencial de repercussão popular. O acordo prevê acelerar a votação da MP que suspende a cobrança federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. A medida precisa avançar rapidamente para não perder validade.

Já a discussão sobre minerais críticos e terras raras coloca o debate em outro patamar: soberania econômica. O governo quer estabelecer regras para proteger riquezas estratégicas brasileiras diante da crescente disputa internacional por esses recursos. Lula foi direto ao defender que riquezas existentes no território nacional não sejam simplesmente exploradas por interesses estrangeiros sem uma legislação capaz de garantir benefícios ao Brasil.

E há ainda a PEC da Segurança Pública e o projeto Redata, voltado à atração de investimentos em data centers. Ou seja, o acordo não se limita a uma única bandeira eleitoral: envolve trabalho, consumo, soberania mineral, segurança e desenvolvimento tecnológico.

Politicamente, a fotografia de Lula, Motta e Alcolumbre juntos também fala alto. Depois de períodos de tensão e travamentos, o presidente conseguiu sentar à mesa com os comandantes da Câmara e do Senado e estabelecer uma agenda comum. O resultado é uma demonstração de que a política institucional pode funcionar quando há negociação e disposição para construir maioria.

Há que se reconhecer a dimensão eleitoral do movimento não diminui a importância das medidas. Se uma proposta é boa para o trabalhador, reduz uma cobrança que pesa no bolso ou protege riquezas estratégicas do país, sua aprovação continua sendo positiva independentemente da data em que ocorrer.

O que o acordo revela, sobretudo, é uma mudança de cenário: Lula saiu da posição de quem apenas cobra o Congresso e passou a comandar uma articulação capaz de colocar suas principais pautas na fila de votação.

E isso explica por que o movimento incomoda tanto a oposição. Se o Congresso efetivamente aprovar o fim da 6×1, avançar sobre a “taxa das blusinhas” e estabelecer regras para proteger minerais críticos e terras raras, Lula poderá chegar à campanha apresentando não apenas promessas, mas resultados concretos.

No fundo, é essa a batalha que começa a se desenhar: de um lado, quem quer transformar direitos, renda, tempo livre e soberania nacional em políticas públicas; de outro, quem terá de explicar ao eleitor por que determinadas pautas populares deveriam continuar esperando.

O almoço no Alvorada pode ter sido servido à mesa, mas o prato principal é político: Lula conseguiu colocar novamente o Congresso para votar aquilo que interessa diretamente à vida dos brasileiros.


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