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Vídeo: Homens praticam tiro contra imagem de Lula em clube de São Paulo

Em um clube de tiro, uma dupla de homens armados pratica contra um alvo com o desenho do rosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre risos, eles dizem “Faz o L” e “esse não vai participar da próxima eleição”. A câmera foca no rosto do boneco de Lula, mostrando furos de bala na parte superior da imagem. “Olha a carinha dele. Só na testa.” A legenda do vídeo é “toma essa picanha”.

Em um clube de tiro, uma dupla de homens armados pratica contra um alvo com o desenho do rosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre risos, eles dizem “Faz o L” e “esse não vai participar da próxima eleição”. A câmera foca no rosto do boneco de Lula, mostrando furos de bala na parte superior da imagem. “Olha a carinha dele. Só na testa.” A legenda do vídeo é “toma essa picanha”.

No vídeo, os homens dizem:
– “Esse não vai participar da próxima eleição.”
– “Faz o L.”
– “Olha a carinha dele. Só na testa.”

Na legenda da publicação, escreveram: “Toma essa picanha”.

O homem que postou o vídeo em seu perfil no WhatsApp foi identificado como Maurício Archangelo, dono de empresas na Zona Leste de São Paulo. Ao ser contatado, ele disse não se lembrar do vídeo. A reportagem explicou que ele estava, naquele momento, no dia 21 de outubro, publicado em seu status. Ele disse que ia ver e desligou. Neste intervalo, o vídeo foi apagado.

Em uma nova ligação, Archangelo disse que não sabia do que se tratava, desligou de novo e bloqueou o contato. A reportagem insistiu com outro número de telefone. Desta vez, Archangelo não respondeu às perguntas e se limitou à perguntar como foi feito o acesso ao seu status do WhatsApp.

No perfil do empresário no Instagram, que é aberto, há outra foto de Archangelo em um clube de tiro. Ele também já postou uma imagem de um bebê de poucos meses com uma arma na parte de trás da fralda.

Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, avalia que a conduta de atirar na foto de um presidente pode ser enquadrada como crime de ameaça, que é prevista como “Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave”.

“Vindo de pessoas que têm acesso a arma de fogo e se tratando de políticos como Lula, que já tiveram a caravana em 2018 atingida por tiros e que na época da tentativa de golpe, em 2023, foi demonstrado que havia um plano para matá-lo também a tiros, isso é algo bastante grave e que deve ter providências sérias das autoridades”, afirma. Para ele, a investigação deve ser não só contra as pessoas que atiraram, mas também sobre o clube de tiro por permitir o uso dessas silhuetas em alvos de tiro”, complementa.

Em 2021, um vereador de Fortaleza foi condenado a pagar indenização por danos morais após atirar numa foto de Lula. No ano seguinte, quando o petista foi eleito para o seu terceiro mandato, o PT denunciou que clubes de tiro estariam usando a imagem do político em alvos e acionou a justiça.

Para o cientista político da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) o episódio da imagem de Lula ser usada como alvo por bolsonaristas é simbólico do processo de normalização da violência deste grupo. “Passa a ser normal tratar adversários como inimigos a quem se deve eliminar”, aponta.

A gravação ocorreu no Clube e Escola de Tiro 556, localizado na zona leste de São Paulo. O proprietário, Vinicius Monteiro Pires Inácio, afirmou estar viajando e desconhecer o episódio. Ele afirmou que os clientes “podem levar o alvo que quiserem”, desde que sejam caricaturas, e não fotos de pessoas reais. Também enfatizou que não incentiva e nem compactua com atos de incitação ao ódio.

Segundo ele, é comum que usuários do clube levem imagens como demônios ou o coringa, mas os funcionários não autorizam o uso de fotos de familiares e pessoas, famosas ou não.

Logo após ser procurado pela Agência Pública, o clube de tiro fez um post no Instagram dizendo que é “expressamente proibida a impressão e utilização de imagens de pessoas reais como alvos em nossas instalações.” O post cita os artigos do Código Civil e do Código Penal que atribuem a conduta como criminosa. A empresa também diz que o descumprimento “poderá resultar em medidas administrativas e, conforme o caso, responsabilização civil e criminal”.

Inácio, que é influenciador ligado a pautas conservadoras conhecido como Magnata, afirma que a empresa exige que os usuários tenham as permissões regulares para utilizar o recinto, porém “não é possível observar o que os clientes fazem o tempo todo”.

Em sua página pessoal, ele postou um vídeo na semana anterior ao primeiro turno mostrando pessoas com camisetas do Bolsonaro atirando, com a legenda “Domingo vai ser assim de novo”. De acordo com o DCM, o clube de tiro fez um evento para exibir a contagem de votos, com cerveja e petiscos.

O proprietário do clube afirma que é de direita, mas não compactua com o episódio. “A minha opinião política e partidária nunca teve sigilo. Tanto que eu perdi uma conta com mais de 800 mil seguidores no Instagram por expor o que eu penso. Mas uma coisa é o Vinícius, pessoa física. Outra coisa é o Magnata, proprietário do clube de tiro 556. Eu não deixo que opiniões políticas interfiram na minha empresa. Todo mundo é bem vindo lá”, disse.

Em 2023, o clube de tiro foi alvo de uma operação policial que apreendeu 38 armas. Segundo o SBT News, o estabelecimento estaria fazendo rifas de armas de fogo com números vendidos a partir de R$ 1 o número, o que é proibido. Também, segundo a reportagem, deixava pessoas sem treinamento usar qualquer tipo de arma.

Segundo a portaria Nº 20.749, de setembro de 2020, “armas e munições, explosivos, fogos de artifício ou de estampido” não poderão ser objeto de operação filantrópica, mediante distribuição de prêmios. A portaria também estabelece que “a distribuição de prêmios mediante sorteio, vale-brinde, concurso ou operação assemelhada realizada por organizações da sociedade civil, com o intuito de arrecadar recursos adicionais destinados à sua manutenção ou custeio, depende de prévia autorização do Ministério da Economia”.

*Por Amanda Audi na Agência Pública 


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Flávio Bolsonaro quer adiar devolução de impostos para 70 milhões de brasileiros

Candidato promete suspender por um ano a reforma tributária, que prevê cashback para famílias de baixa renda a partir de 2027

A proposta de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de suspender por um ano a implementação da reforma tributária poderá adiar também a devolução de impostos a até 70 milhões de brasileiros de baixa renda. O benefício, conhecido como cashback, está previsto na legislação aprovada pelo Congresso e começará a considerar o consumo das famílias em janeiro de 2027. A candidatura não esclareceu se pretende manter esse calendário caso consiga interromper a entrada em vigor do novo sistema.

A intenção de suspender a reforma está registrada no próprio site de campanha de Flávio. Em publicação de 22 de agosto, intitulada “Fim da reeleição e suspensão da reforma tributária serão os primeiros atos do senador Flávio Bolsonaro ao ser eleito presidente da República”, a equipe do candidato apresentou a medida como uma de suas prioridades para o início de um eventual governo.

No comunicado, a campanha afirma que “o adiamento por um ano da reforma tributária é o tempo necessário para ampliar o debate mais democrático e favorecer a implementação de reformas econômicas estruturantes”.

O senador também havia defendido a medida publicamente em junho, durante entrevista à Times Brasil/CNBC. “Vamos suspender a entrada em vigor dela por, pelo menos, um ano”, declarou.

O ponto que não aparece nas justificativas da campanha é que a reforma inclui um mecanismo criado especificamente para diminuir os impostos pagos pelas famílias mais pobres. Ao contrário de benefícios que ainda dependem de aprovação legislativa, o cashback já está previsto em lei e possui um calendário de implementação.

O artigo 123 da Lei Complementar 214/2025 estabelece que a devolução da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), tributo federal, será calculada sobre o consumo familiar realizado a partir de janeiro de 2027. Para o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de estados e municípios, a referência começa em janeiro de 2029.

A relação entre os dois calendários é direta. O cashback depende da cobrança dos novos tributos que substituirão impostos atualmente existentes. Se a reforma for suspensa integralmente por um ano, sem uma regra que preserve a devolução, o início do benefício também será postergado.

Isso não significa que a suspensão do cashback já esteja formalizada. Flávio não apresentou uma proposta legislativa detalhando quais dispositivos pretende alterar, e qualquer mudança no calendário dependerá de aprovação do Congresso.

Gás do Povo: Caixa libera vale-recarga hoje (23/2); veja como receber

Devolução inclui impostos sobre gás, energia elétrica e água
O cashback da reforma tributária foi criado para devolver parte dos impostos cobrados sobre produtos e serviços consumidos pelas famílias de menor renda.

Segundo estimativa divulgada pelo Ministério da Fazenda em 2026, o mecanismo poderá alcançar cerca de 70 milhões de brasileiros. Uma apresentação técnica da Receita Federal, baseada em dados do Cadastro Único de maio de 2025, identificou aproximadamente 27,8 milhões de famílias, reunindo 70,4 milhões de pessoas, nas faixas de renda consideradas para o benefício.

A legislação estabelece a devolução de 100% da CBS sobre despesas com gás de cozinha, energia elétrica, água e esgoto, além de percentuais específicos para outras compras e serviços. Também há regras de restituição do IBS, incluindo percentuais diferenciados para despesas essenciais.

Na prática, uma família poderá receber de volta parte dos impostos embutidos em despesas cotidianas. O objetivo é corrigir uma distorção do sistema tributário brasileiro: quem ganha menos costuma comprometer uma parcela proporcionalmente maior da renda com impostos sobre o consumo.

Para ter direito ao benefício, a família deverá estar inscrita no Cadastro Único, possuir renda mensal de até meio salário mínimo por pessoa e cumprir os demais requisitos previstos na legislação.

O cashback não é um novo programa de transferência de renda como o Bolsa Família. Trata-se da devolução de tributos pagos pelos próprios consumidores, conforme critérios estabelecidos em lei.

A Receita Federal já desenvolve os sistemas necessários à implementação do mecanismo. Uma apresentação técnica do órgão informa que uma primeira versão da interface de consulta e cálculo dos valores a devolver havia sido desenvolvida, embora ainda dependesse de ajustes.

conta de luz, energia elétrica

Campanha não esclarece o destino do benefício
A suspensão da reforma tributária também foi defendida pelo coordenador da campanha de Flávio, senador Rogério Marinho (PL-RN).

Em maio, Marinho afirmou que a candidatura estudava apresentar uma proposta de emenda à Constituição para interromper a implementação do novo sistema por um ano. Posteriormente, passou a defender uma revisão da reforma, sem necessariamente paralisar todas as suas etapas.

A diferença entre suspender integralmente a reforma e modificar dispositivos específicos é decisiva para o cashback. No primeiro cenário, a devolução de impostos poderia ser atingida diretamente. No segundo, o benefício poderia ser preservado, desde que fossem mantidas as condições legais e operacionais necessárias ao seu funcionamento.

A campanha também passou a divulgar uma proposta chamada “Vira Pix”, destinada a devolver parte dos gastos dos consumidores. Diferentemente do cashback previsto na reforma tributária, a iniciativa anunciada por Flávio ainda não possui regras detalhadas de funcionamento, financiamento e acesso.

A proposta cria uma situação que exige esclarecimento: enquanto defende suspender a implementação de uma reforma que já prevê a devolução de impostos às famílias mais pobres, o candidato anuncia um mecanismo próprio de restituição de gastos.

*Cleber Lourenço/ICL


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‘Tesouraço’ de Flávio pode acabar com 2,2 mi de empregos e tirar R$ 68,7 bi dos trabalhadores

Estudo do DIEESE indica que plano de cortes de R$ 200 bi pode levar o Brasil à recessão, atingir aposentadorias e benefícios sociais

O plano de cortes de quase R$ 200 bilhões defendido pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pode eliminar 2,2 milhões de postos de trabalho e retirar R$ 68,7 bilhões da renda dos trabalhadores já em 2027, caso seja implementado. É o que aponta um estudo inédito do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), elaborado a pedido das centrais sindicais e divulgado nesta quinta-feira (22).

Segundo o levantamento, o “tesouraço” também provocaria um impacto negativo de R$ 203,1 bilhões sobre o Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a uma redução de 1,55% em relação ao cenário sem os cortes. Dependendo do desempenho da economia, o Brasil poderia entrar em recessão no primeiro ano de um eventual governo Flávio Bolsonaro.

A simulação considera um ajuste de R$ 194 bilhões em 18 meses, sendo R$ 116,9 bilhões em cortes no primeiro ano. O DIEESE alerta que a medida atingiria diretamente o consumo das famílias, a geração de empregos e a capacidade de financiamento dos serviços públicos.

Desemprego pode atingir 7,4 milhões de brasileiros
As projeções indicam que, mesmo no cenário mais favorável, a economia brasileira cresceria apenas 0,91% em 2027, abaixo dos 2,46% previstos no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) antes dos efeitos do ajuste.

No cenário pessimista, que considera uma projeção inicial de crescimento de 1,4%, o país registraria retração de 0,15% do PIB. Nesse caso, o número de desempregados poderia passar de 5,8 milhões para 7,4 milhões de pessoas, com a taxa de desocupação chegando a até 7%.

O estudo calcula que o Brasil precisaria gerar aproximadamente 1,33 milhão de empregos por ano apenas para acompanhar o crescimento da população economicamente ativa. Com os cortes, nem mesmo o cenário otimista seria suficiente para atingir esse patamar.

Aposentadorias e benefícios sociais podem ser atingidos
O levantamento também aponta que o peso do ajuste recairia principalmente sobre despesas destinadas à população de menor renda.

Na simulação feita pelo DIEESE, 51% dos cortes atingiriam transferências de renda, incluindo aposentadorias, pensões, Benefício de Prestação Continuada (BPC), seguro-desemprego e abono salarial. Outros 17% afetariam despesas com servidores públicos, enquanto 32% recairiam sobre as demais despesas federais.

Embora Flávio Bolsonaro tenha afirmado que pretende preservar benefícios sociais, o instituto avalia que seria difícil alcançar uma economia dessa magnitude sem alterar garantias constitucionais relacionadas à Previdência, à saúde e à educação.

O estudo também aponta que o congelamento dos gastos em termos reais poderia impedir aumentos acima da inflação nos benefícios, restringir novas contratações no serviço público e comprometer investimentos em políticas sociais.

Cortes não seriam suficientes para controlar dívida pública
Além das consequências sociais, o DIEESE questiona a eficácia econômica da proposta. Segundo os cálculos, a desaceleração provocada pelo ajuste reduziria a arrecadação de impostos em R$ 46,8 bilhões, anulando aproximadamente 40% da economia bruta prevista para o primeiro ano.

Com isso, o superávit primário estimado ficaria próximo de R$ 89 bilhões, equivalente a 0,7% do PIB, valor considerado insuficiente para estabilizar a relação entre a dívida pública e o tamanho da economia.

O instituto argumenta que o crescimento do endividamento brasileiro está fortemente associado ao pagamento de juros, enquanto o plano de Flávio concentraria os cortes em despesas sociais e serviços públicos. Para o DIEESE, o resultado poderia ser uma combinação de crescimento econômico reduzido, desemprego elevado e aprofundamento das desigualdades, sem alcançar o equilíbrio fiscal prometido.

*Gabriel Gomes/ICL


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Os PMs que não foram julgados por matar inocentes graças a Flávio Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, integrou a defesa de quatro policiais militares acusados de matar quatro homens na favela do Vidigal, na Zona Sul do Rio, em 2020. A atuação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) ajudou os agentes a evitar, inicialmente, o julgamento pelo júri popular, embora o recurso do Ministério Público ainda aguarde análise na Corte.

Flávio passou a compor a equipe dos réus quando o caso chegou ao STJ. Por unanimidade, a 5ª Turma acolheu o pedido defensivo e afastou a decisão que enviava os PMs ao Tribunal do Júri. Os quatro policiais respondem ao processo em liberdade.

A Polícia Civil do Rio concluiu que os tiros partiram de uma emboscada montada pelos agentes dentro de um apartamento. A investigação apontou que os PMs atiraram de cima para baixo contra os homens, em uma ação conhecida no jargão policial como “troia”, referência a agentes escondidos para surpreender alvos.

Entre os mortos estavam o porteiro Cláudio Henrique Nascimento de Oliveira, de 24 anos, e o entregador de supermercado Marcos Guimarães da Silva, de 51. Familiares de Ivanildo Moura de Souza, de 22 anos, e Douglas Rafael Barros Assunção, de 18, admitiram o envolvimento dos dois com o tráfico.

Perícia contradisse relato apresentado pelos policiais
Os cabos Pedro Jeremias Lemos Pinheiro, Victor Barcelleiro Batista e Rafael Nascimento Rosa, além do sargento Ricardo de Moraes Mattos, disseram que trocaram tiros com criminosos em um beco e depois encontraram quatro homens baleados. As vítimas chegaram mortas ao Hospital Municipal Miguel Couto, segundo o DCM.

O laudo cadavérico, porém, indicou que todos sofreram disparos de fuzil de cima para baixo, contrariando a versão de confronto. Uma moradora relatou que os agentes invadiram pela manhã um imóvel situado acima do local das mortes e “esperaram uma moradora sair de casa e ficaram abrigados até a hora dos disparos”.

A perícia identificou o ponto de onde os tiros saíram. “Os agentes efetuaram os disparos a partir do vão no segundo pavimento da fachada do prédio”, registrou o perito. Após a apuração, a Delegacia de Homicídios pediu o afastamento dos quatro PMs das ruas, e o Ministério Público do Rio apresentou denúncia.

Em maio de 2022, o juiz Gustavo Gomes Kalil determinou que os policiais fossem julgados pelo júri popular e escreveu que a tese de legítima defesa precisava ser decidida pelo Tribunal Popular. A defesa reverteu essa decisão no Tribunal de Justiça do Rio, em janeiro de 2023, e depois obteve no STJ a despronúncia dos réus. O ministro Reynaldo Soares da Fonseca afirmou que não seria possível manter a ação penal “unicamente, em elementos de informação produzidos na fase policial, e em testemunhos indiretos”.

Flávio Bolsonaro também atuou no STJ pela defesa do cabo Bruno Dias Delaroli, acusado pelo disparo de fuzil que matou Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, na porta de casa, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, em fevereiro de 2021. Nesse caso, a Corte negou o recurso assinado pelo senador, e o policial irá a júri popular.


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Coordenador econômico de Flávio defendeu reduzir crédito público que financia o Minha Casa, Minha Vida

O economista Adolfo Sachsida, integrante da coordenação econômica da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), defendeu a redução do crédito oferecido pelos bancos públicos, responsáveis por financiar programas como o Minha Casa, Minha Vida. A posição está registrada em um livro escrito com o ex-ministro Paulo Guedes e publicado em 2024. A proposta ganha relevância porque a Caixa Econômica Federal, principal operadora do programa habitacional, responde por mais de 99% de seus financiamentos.

No livro A política econômica brasileira no período 2019–2022: Consolidação fiscal e reformas pró-mercado para aumento da produtividade, Sachsida e Guedes apresentam como uma das diretrizes econômicas do governo Jair Bolsonaro “a redução do crédito via instituições públicas (e aumento do crédito via instituições privadas)”.

Os autores também defendem a diminuição do crédito direcionado, modalidade de financiamento que segue regras específicas e é utilizada em políticas públicas como habitação popular, agricultura familiar e desenvolvimento econômico. Outra medida apresentada na obra é a desalavancagem dos bancos públicos, que envolve a redução de sua exposição financeira.

Na prática, a orientação defendida pelos economistas busca diminuir a participação do Estado na oferta de empréstimos e ampliar o espaço das instituições privadas. Essa mudança pode ter consequências especialmente importantes em áreas nas quais os bancos públicos oferecem financiamentos com condições diferenciadas para famílias e pequenos produtores.

Minha Casa, Minha Vida depende da Caixa
A Caixa desempenha um papel central no financiamento da casa própria no Brasil. Segundo dados divulgados pela instituição, o banco respondeu por mais de 99% dos financiamentos do Minha Casa, Minha Vida em 2025 e concentra aproximadamente 68% do mercado de crédito imobiliário.

O programa utiliza recursos como os do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para oferecer empréstimos com juros inferiores aos normalmente encontrados no mercado. Dependendo da renda familiar e da região, as taxas nominais podem começar em 4% ao ano, além da possibilidade de subsídios que reduzem o valor pago pelo imóvel.

Essas condições são fundamentais para famílias que não conseguem contratar um financiamento imobiliário convencional. Os recursos públicos e as regras especiais de crédito permitem ampliar o acesso à casa própria, especialmente entre trabalhadores de menor renda.

Uma redução da participação da Caixa na concessão desses empréstimos, sem a substituição por financiamentos equivalentes, poderia dificultar o acesso à moradia. Isso porque a disponibilidade de recursos, os prazos de pagamento e as condições oferecidas pelas instituições financeiras influenciam diretamente a capacidade das famílias de assumir as prestações.

O impacto dependeria de quais linhas de crédito fossem atingidas. Bancos privados também podem operar financiamentos habitacionais com recursos do FGTS, mas a concentração das operações na Caixa demonstra o peso da instituição pública na execução do programa.

Bolsonaro cortou 98% de verba destinada à habitação popular
O Minha Casa, Minha Vida já sofreu cortes expressivos durante o governo Jair Bolsonaro, quando foi rebatizado de Casa Verde e Amarela.

Em abril de 2021, Bolsonaro vetou R$ 1,51 bilhão do orçamento destinado ao Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), responsável por financiar a construção de moradias para famílias de baixa renda. O valor disponível caiu de R$ 1,54 bilhão para apenas R$ 27 milhões, uma redução de 98,2%.

O corte atingiu justamente a modalidade voltada à população mais pobre. Na época, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) alertou para o risco de paralisação de obras de aproximadamente 250 mil unidades habitacionais.

A situação voltou a se repetir na proposta de Orçamento de 2023, enviada pelo governo Bolsonaro ao Congresso. O documento reservou apenas R$ 34,2 milhões ao FAR, valor 95,3% inferior à previsão inicial para 2022. Na ocasião, a insuficiência de recursos ameaçou congelar obras de 140 mil moradias populares.

Os cortes atingiram recursos orçamentários destinados à construção subsidiada de habitações, uma modalidade diferente dos financiamentos bancários discutidos no livro de Sachsida e Guedes.

Agricultura familiar e pequenos negócios também dependem do crédito público
A discussão vai além do financiamento habitacional. O crédito direcionado também desempenha um papel importante no apoio à produção de alimentos e aos pequenos empreendedores.

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), por exemplo, oferece empréstimos com condições especiais para agricultores financiarem o plantio, a compra de equipamentos e melhorias nas propriedades.

No Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027, foram anunciados R$ 85,2 bilhões em operações do Pronaf, incluindo linhas com juros de 2% ao ano para determinadas atividades de produção de alimentos.

O Banco do Brasil e outras instituições financeiras participam da concessão desses recursos. Uma redução do crédito direcionado poderia restringir o financiamento rural caso atingisse as fontes de recursos e os mecanismos que permitem oferecer juros diferenciados.

Outro exemplo é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que financia investimentos em infraestrutura, inovação, indústria e empresas de diferentes portes.

Em 2025, o banco desembolsou aproximadamente R$ 170 bilhões e aprovou R$ 96 bilhões em financiamentos destinados a micro, pequenas e médias empresas.

A atuação dessas instituições é particularmente relevante em setores nos quais o financiamento privado pode ser mais caro, exigir garantias maiores ou oferecer prazos menos favoráveis.

Governo Bolsonaro já reduziu financiamento do BNDES pelo Tesouro
A orientação econômica apresentada no livro também encontra antecedentes na administração de Jair Bolsonaro.

Durante a gestão de Paulo Guedes, o BNDES realizou devoluções antecipadas de recursos ao Tesouro Nacional, como parte da estratégia de diminuir sua dependência de empréstimos concedidos pelo governo federal.

Em 2019, foram devolvidos antecipadamente R$ 100 bilhões. Em 2021, o valor chegou a R$ 63 bilhões, seguido de outros R$ 72,31 bilhões em 2022.

As operações fizeram parte de uma mudança no modelo de financiamento do banco. Embora não tenham representado uma redução equivalente dos empréstimos concedidos a empresas e famílias, diminuíram os recursos que a instituição mantinha provenientes de financiamentos do Tesouro.

No livro, Sachsida e Guedes apresentam a redução da participação dos bancos públicos e do crédito direcionado como parte da estratégia econômica adotada naquele período.

Sachsida ocupou o cargo de secretário de Política Econômica do Ministério da Economia e posteriormente comandou o Ministério de Minas e Energia durante o governo Bolsonaro.

Agora, participa da formulação econômica da candidatura de Flávio Bolsonaro. Sachsida coordena reuniões de técnicos ligados à antiga equipe de Paulo Guedes. Ele é o nome preferido de ex-presidente e criminosos condenado Jair Bolsonaro para comandar o Ministério da Fazenda em um eventual governo do filho.

*Cleber Lourenço/ICL


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Flávio ganhou Rolex de empresário após orgia com prostitutas em plena pandemia

Um churrasco na lancha com Flávio Bolsonaro, lobistas e garotas de programa durante a pandemia

Às 20h30 da noite de 16 de julho de 2020, o consórcio montado por veículos de imprensa para contabilizar as vítimas da Covid registrava um marco trágico: 1.299 mortos apenas naquele dia. No total, 76.822 brasileiros já tinham morrido em decorrência do vírus, e os números não paravam de crescer. Poucos minutos depois desse registro público, mais precisamente às 20h49, o jatinho de prefixo PR-SAD decolou do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com destino a Brasília.

O jato executivo Embraer Phenom 300, que pertencia à empresa Prime You e já teve Daniel Vorcaro como um de seus usuários, havia sido destacado para transportar dois empresários: Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, diretor institucional e dono da Precisa Medicamentos, respectivamente. Os dois diziam representar o laboratório indiano Bharat Biotech, responsável pelo desenvolvimento da vacina Covaxin, e queriam fechar um acordo com o governo de Jair Bolsonaro para produzir vacinas para o Brasil.

Embora, àquela altura, as vacinas ainda não fossem uma realidade palpável no mundo, havia uma corrida para sua pesquisa, produção e comercialização. Contratos começavam a ser firmados. Como o Brasil tinha um presidente negacionista, o país estava fora do páreo. Tanto a americana Pfizer quanto a chinesa Sinovac tentavam negociar com o Ministério da Saúde, mas nada avançava. A Precisa Medicamentos já era uma grande fornecedora do governo, a quem vendia de testes rápidos de Covid a preservativos femininos. Mas a empresa via a oportunidade de aumentar seus laços com a gestão de Jair Bolsonaro.

Para azeitar a perspectiva de bons negócios, Danilo Trento e Francisco Maximiano decidiram promover um passeio cujo objetivo era agradar ao primogênito do então presidente, o senador Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência da República pelo PL. A dupla recorreu então a um procedimento de praxe: procurou seu agente de viagens, Raphael Barão, dono da Barão Turismo, e o encarregou de organizar um churrasco a bordo de uma lancha, no Lago Paranoá, em Brasília. O principal atrativo do passeio, porém, não seria a picanha, mas três garotas de programa trazidas de São Paulo.

Havia seis pessoas a bordo naquele voo na noite de 16 de julho de 2020. Eram elas: os empresários Danilo Trento e Francisco Maximiano, o agente de viagens Raphael Barão e três garotas, duas loiras e uma morena. A aeronave aterrissou no aeroporto de Brasília às 22h12. De lá, todos os seis se dirigiram ao hotel Meliá Brasil 21, localizado no setor hoteleiro Sul da capital federal. O evento na lancha só ocorreria no dia seguinte.

Os jornais amanheceram em 17 de julho como de costume: tomados por notícias sobre mortos, infectados e desvios de recursos que deveriam ser usados para tratar os doentes. Por volta das 10h30 da manhã, um carro estacionou em um dos decks com acesso ao Lago Paranoá. O automóvel estava carregado com bebidas, como vodca, gim e cerveja, além de petiscos, destinados a abastecer a lancha de uma cabina, com cerca de 20 metros de comprimento, que estava atracada à beira do lago.

Entraram na embarcação Danilo Trento, as três garotas e o condutor da lancha. Logo em seguida, chegou o convidado principal da festa: Flávio Bolsonaro, que veio acompanhado de seu amigo, Alexandre Santini. Àquela época, Santini era sócio de Flávio Bolsonaro na operação da franquia da célebre loja da Kopenhagen, no Rio de Janeiro. (De acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro, a loja foi usada para lavar dinheiro oriundo da prática de rachadinha operacionalizada por Fabricio Queiroz, ex-PM e operador da família. O MP estima que 1,6 milhão de reais em espécie, devolvidos por assessores da Alerj, foram lavados por meio da loja de chocolates. O caso foi arquivado depois que o STF anulou as provas, em 2021).

Quando a lancha zarpou, pararam no Alô Grau, um restaurante flutuante no lago, onde compraram mais comida e bebida. A conta, paga por Barão, ficou em 1.949 reais. O barco então circulou pelo Lago Paranoá. O Sol era inclemente e os tripulantes temiam que algum drone do entorno os registrasse em seu veraneio pandêmico. Santini e Flávio Bolsonaro ficaram sem camisa. Santini exagerou na bebida. À certa altura, Flávio desceu à cabina com uma das garotas. Ela não foi a única a fazer esse caminho acompanhada do senador naquela tarde. Santini e Trento não desceram. Passaram a maior parte do tempo na proa da embarcação.

O passeio de barco se encerrou por volta de 15 horas. Mas havia ainda uma surpresa. Com o barco já atracado no deck, Danilo Trento, o interessado em vender vacina para o governo, quis presentear Flávio Bolsonaro com um mimo. Ele tirou de seu pulso um relógio Rolex, com pulseira em tom prateado, e colocou no pulso do senador. Flávio Bolsonaro foi embora usando o novo presente.

Terminado o passeio, era hora de partir. Amigo e sócio de Flávio Bolsonaro, Santini pediu carona para voar de Brasília para São Paulo no mesmo jatinho em que estavam os dois empresários, o agente de turismo e as garotas. Ele então foi até o hotel onde estava hospedado, o Royal Tulip Brasília Alvorada, localizado próximo ao Palácio da Alvorada, para pegar as suas coisas.

A aeronave decolou de Brasília às 17h55 e aterrissou em São Paulo às 19h13. Pouco tempo depois, às 20h30, o consórcio de imprensa divulgaria os dados de óbitos por Covid naquele dia: 1.110 pessoas.

inda que aprimorada, ramificada e institucionalizada por Daniel Vorcaro, que contava com uma equipe de três promoters para oferecer serviços sexuais a autoridades, de políticos a ministro do Supremo Tribunal Federal, a prostituição como engrenagem de lobby e corrupção não foi inventada pelo dono do Banco Master. Em Brasília, a moeda extrapola reais e dólares e contempla também encontros privativos e discretos em lanchas e hotéis. “Esses eventos acontecem em dias de semana, que são menos concorridos. Em geral, os barcos ficam parados ao final da barragem, quando não há outros barcos nem sequer fiscalização”, diz um ex-assessor parlamentar que frequentou algumas festas em lanchas com prostitutas, duas delas na presença do próprio Flávio Bolsonaro (“uma antes e outra durante a pandemia”).

A regra tácita em todas as festas desse tipo, em que circulam políticos, juízes, desembargadores e outros poderosos em atividades subterrâneas, é que as garotas de programa passem por uma revista. O uso de celular é vetado e, para não haver risco de vazamentos, as bolsas das profissionais são confiscadas. Em geral, nesses encontros, há mais mulheres que homens. “Uma média de duas a três mulheres por convidado”, diz uma participante que pede para não ter seu nome divulgado por temer por sua segurança. “As lanchas têm dois andares, com uma ou duas cabines.”

Em setembro deste ano, o jornalista Rodrigo Rangel publicou uma reportagem no site PlatôBR mostrando como Alexandre Santini, que estava no passeio de lancha no Paranoá, promoveu encontros de Flávio Bolsonaro com garotas de programa. Em uma outra coincidência, a reportagem de Rangel também noticia que o senador recebeu o mesmo mimo: um relógio Rolex. De acordo com o material do PlatôBR, tratava-se de um relógio modelo Submariner Date, avaliado em 305 mil reais. Foi comprado pelo advogado Alan Belaciano, que representava interesses privados junto a autoridades de Brasília.

Para reconstituir o passeio de lancha do dia 17 de julho de 2020, a piauí conversou com uma pessoa que estava na embarcação sob a condição de não revelar sua identidade, cruzou quebras de sigilo de Barão, Maximiano e Trento enviados às CPIs da Pandemia, do INSS e do Crime Organizado, ouviu dois pilotos, um ex-deputado, três assessores parlamentares e uma garota de programa que não participou daquele evento, mas já esteve em outros similares. A reportagem ainda confrontou os dados aéreos obtidos na apuração com os de uma plataforma de rastreamento de voos em tempo real.

phael Barão funcionava como uma espécie de concierge das viagens de Trento e Maximiano. Além de organizar a logística, também viajava junto. Apenas em 2020, ano em que aconteceu o passeio de lancha no Paranoá, a Barão Turismo recebeu cerca de 4 milhões de reais das empresas que integravam o grupo econômico da Precisa Medicamentos. Quando a turma da Precisa viajou à Índia para negociar com a Bharat Biotech, Barão também organizou a viagem e dela participou. Como o grupo em torno da Precisa tornou-se alvo da CPI da Pandemia e a prestação de serviços de turismo não foi devidamente comprovada no período por Barão, as autoridades acabaram quebrando seu sigilo e o de sua agência, assim como os de Maximiano e Trento, altamente envolvidos nas suspeitas de irregularidades na compra da vacina.

Nas sessões da CPI realizadas em agosto e setembro de 2021, um ano depois do passeio de lancha, o senador Randolfe Rodrigues afirmou que Barão mantinha uma empresa nos Estados Unidos usada para lavar dinheiro de Trento. O empresário negou. O senador Renan Calheiros quis saber de Maximiano se Flávio Bolsonaro havia intermediado o acesso da Precisa ao alto escalão do Ministério da Saúde. Maximiano negou. Calheiros perguntou, então, se fora Flávio quem aproximara a empresa do presidente Jair Bolsonaro, para que ele telefonasse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e referendasse o negócio com a Bharat Biotech. Maximiano não respondeu, invocando o direito ao silêncio. Randolfe Rodrigues então perguntou a Trento se ele conhecia alguém da família Bolsonaro. Houve, enfim, uma resposta afirmativa. “Já estive em eventos institucionais com o senador Flávio”, disse Trento, antes de se corrigir: “Eventos públicos, não institucionais, desculpa.”

Flávio Bolsonaro, por sua vez, saiu publicamente em defesa da Precisa Medicamentos durante a CPI. Na oitiva de Emanuela Medrades, diretora da empresa, chegou a congratulá-la: “Cabe aqui um parabéns também público, pelo fato de a senhora, ao representar o laboratório indiano, ter batalhado para que fosse economizado dinheiro público”, afirmou. O elogio destoava dos valores negociados: o contrato da Covaxin previa o pagamento de 80 reais por dose, enquanto a Pfizer oferecia sua vacina por cerca de 56,30 reais e a AstraZeneca, por 18 reais.

As negociações haviam despertado suspeitas no servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, irmão do então deputado Luis Miranda, que denunciou publicamente as irregularidades. O contrato acabou sem que o primeiro pagamento fosse realizado. Flávio, porém, ironizava o escândalo. “É a primeira vez que eu vejo, na minha vida, um desvio de dinheiro público em que não tem um real que foi pago. Que dinheiro público? Então, eu fico satisfeito e até concordo com a oposição quando eles dizem que esse é o maior escândalo de corrupção do governo Bolsonaro, porque, no maior escândalo de governo, de corrupção, segundo eles, não houve corrupção.”

O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 78 pessoas, entre elas Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano.

Em 20 de outubro de 2020, três meses depois do passeio de lancha, a proximidade com Flávio já havia rendido à dupla Trento e Maximiano uma demonstração concreta de prestígio. O senador abriu caminho para que Maximiano e outro executivo de sua empresa fossem recebidos pelo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano. A reunião, realizada virtualmente em razão da pandemia, tinha como objetivo discutir linhas de financiamento para uma nova empresa de Maximiano no setor de telecomunicações. Para deixar claro que endossava a empreitada, Flávio participou da ligação.

Quando a agenda veio a público, numa reportagem da Veja, o BNDES explicou que haviam ocorrido duas reuniões, uma delas com a presença de Montezano, e que nenhum financiamento fora contratado. Flávio, por sua vez, publicou um vídeo em que admitia ter “amigos em comum” com Maximiano em Brasília, mas negava manter com ele qualquer “relação comercial ou financeira”. “O que eu fiz sim foi pedir ao presidente do BNDES que ouvisse uma boa ideia que foi trazida pelo senhor Maximiano, para que o BNDES pudesse entender e, quem sabe, dar algum suporte para levar internet para o Norte e Nordeste”, justificou.

A reunião com Maximiano foi o único encontro oficial de Flávio com o BNDES, na condição de autoridade e sem outros parlamentares, desde o início da gestão de Montezano, em julho de 2019, até aquele momento. Para o presidente do banco, tampouco se tratava de uma agenda corriqueira. Montezano recebia com frequência deputados e senadores, individualmente ou em grupo. O incomum era que chegassem acompanhados de um empresário amigo, interessado em financiamento público.

Àquela altura, Flávio Bolsonaro já demonstrava interesse pelo mercado de telecomunicações. Frequentava viagens promovidas pelo senador Ciro Nogueira e pelo então ministro das Comunicações, Fábio Faria, para eventos internacionais do setor. Os parlamentares que integravam o grupo de trabalho responsável por acompanhar o leilão do 5G no Brasil, porém, não eram convidados para essas viagens.

Uma das viagens internacionais de Flávio como senador, a Las Vegas, em janeiro de 2020, coincidiu com a de Danilo Trento. Foi antes da pandemia e do passeio de lancha. A viagem custou 12,5 mil reais aos cofres do Senado apenas em diárias. Na programação, Flávio visitou o ateliê de Romero Britto, almoçou com executivos de uma empresa de navios turísticos e hotéis-cassinos e fez “visitas técnicas” acompanhado do então presidente da Embratur, Gilson Machado Neto, o sanfoneiro. Encontrou-se até com Sheldon Adelson, magnata dos cassinos que morreria no ano seguinte. No pedido de autorização da viagem ao Senado, Flávio declarara que seu objetivo era “promover o turismo brasileiro no mercado internacional”, atrair cruzeiros e estimular o “investimento e instalação de novos resorts”.

Como Trento também estivera em Las Vegas exatamente naquele período, a CPI da Pandemia interessou-se em saber se ele havia viajado na companhia de algum senador. “Sr. Senador, com todo o respeito e baseado no meu habeas corpus, eu irei permanecer em silêncio”, respondeu. Diante da recusa de Trento em esclarecer o episódio, Flávio apressou-se em divulgar uma nota: “O senador nunca se reuniu com o Sr. Danilo Berndt Trento em Las Vegas, nem possui vínculo de qualquer espécie com o mesmo.”

Las Vegas não seria a última ocasião em que Flávio Bolsonaro apareceria associado ao universo dos cassinos. Em janeiro de 2025, segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, o senador passou o fim de semana anterior à posse de Donald Trump em Miami, no Hard Rock Hotel & Casino. Estava acompanhado do amigo Willer Tomaz, com quem é suspeito de manter uma sociedade oculta numa bet, conforme revelou a piauí. Segundo Jardim, a dupla passou a madrugada numa sala de jogos reservada. Flávio acompanhou Tomaz até o caixa do cassino ao fim da noitada, às 6h30. Lá, o amigo sacou 236 mil dólares em dinheiro vivo.

Na noite da última terça-feira, 20 de outubro, O Globo revelou que Tomaz havia pago a um site para desativar links com informações que o desagradavam. Um deles remetia a uma notícia cujo título, à luz dessas viagens, ganhava especial interesse: “Flávio Bolsonaro é contra PL dos Jogos, mas frequenta cassinos e se reúne com operadoras em Las Vegas.”

Até o fechamento desta reportagem, Flavio Bolsonaro não se manifestou. Também procurado, Danilo Trento não atendeu às ligações da piauí e, por mensagem, pediu para antecipar o assunto por estar em uma “call”. Uma vez informado sobre os detalhes da pauta – os voos, a confraternização na lancha e o Rolex –, interrompeu a comunicação. A reportagem também procurou os advogados de Francisco Maximiliano, por mensagem de WhatsApp e por e-mail, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

*João Batista Jr., de São Paulo, Ana Clara Costa, do Rio de Janeiro, e Breno Pires, de Brasília/Revista piauí


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Flávio Bolsonaro tomou um mata-piolho de Lula e ficou de calça arriada diante do Brasil

Flávio Bolsonaro passou a semana inteira prometendo esfregar na cara de Lula sua suposta corrupção. Falastrão, cheio de bravatas e pose de valentão, entrou no debate achando que encurralaria o presidente. Mas bastou Lula virar o jogo e propor um desafio direto — que ambos abrissem os sigilos telefônico e bancário — para o candidato bolsonarista sentir o chão desaparecer sob seus pés.

Lula aceitou o próprio desafio e abriu seus sigilos. Flávio, por sua vez, recuou, alegando motivos que, de tão convenientes, só aumentaram a desconfiança. O sujeito que prometia escancarar a vida alheia mostrou-se incapaz de sustentar o mesmo escrutínio sobre a própria vida.

Foi um mata-piolho político, daqueles que deixam o valentão de calças arriadas diante de milhões de espectadores. O contra-ataque de Lula desmontou a encenação, expôs o desconforto de Flávio e transformou sua bravata em constrangimento público.

Se Flávio queria dar um truco, Lula respondeu com um royal flush: uma jogada devastadora que deixou o adversário sem saber como blefar. Seus trejeitos, a hesitação e o evidente desconforto diante do desafio falaram mais alto do que qualquer discurso ensaiado.

A máscara do valentão começou a cair. Quem passa a semana prometendo revelar a corrupção dos outros e, na hora de enfrentar o mesmo teste, procura uma saída de emergência perde a autoridade para posar de paladino da moralidade.

Flávio queria colocar Lula contra a parede. Acabou encurralado pelo próprio desafio. E, depois desse episódio, sua pose de justiceiro anticorrupção ficou insustentável.


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Política

Movimento Rap Contra a Direita (RCD) convoca artistas e fãs a mobilizar eleitores nas redes sociais por Lula

Idealizado por Kauan Sabino, o movimento busca mobilizar artistas e público, enquanto rappers de diferentes gerações expressam suas posições políticas

Desde o início da corrida eleitoral para a Presidência da República em 2026, muitos artistas têm sido cobrados nas redes sociais a se posicionar politicamente. Nesse cenário, trabalhos artísticos historicamente associados a ideias progressistas e à defesa de pautas sociais ganham destaque no debate público.

Lançado no Instagram em 6 de outubro, o movimento Rap Contra a Direita (RCD) reúne fãs, criadores de conteúdo e MCs com o objetivo de ampliar o debate político no universo do hip hop e incentivar a participação dos jovens nas eleições. Idealizada por Kauan Sabino, 22 anos, a iniciativa surgiu após o primeiro turno, uma maneira para transformar a insatisfação com o resultado em mobilização coletiva.

Kauan é estudante de Jornalismo, rapper desde os 14 anos e morador de Cabo Frio, no Rio de Janeiro

Kauan é estudante de Jornalismo, rapper desde os 14 anos e morador de Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Ele que já está inserido há anos no cenário do rap, também é um dos responsáveis pela gravadora GhettoWlrd, criada ao lado do rapper ogLeleco para fortalecer artistas independentes. A rede de contatos construída ao longo do tempo foi fundamental para tirar o RCD do papel.

“Nasceu após um triste sentimento com o primeiro turno das eleições e com a vontade de unir o que mais amo no momento mais importante, pelo objetivo maior. Queria uma mobilização coletiva e contundente. Não podia ficar parado, precisava agir. Falei com a Gabrielly Stoeck, ela super apoiou a ideia”, conta Kauan sobre a criação do movimento.

O contato com o rap começou por meio da família: “Cresci ouvindo todo tipo de música, mas me recordo de diversas vezes em que meu tio colocava Racionais no carro, então, esse é um dos primeiros contatos de que tenho recordação”, relembra.

A articulação do Rap Contra a Direita também se beneficiou das conexões de Kauan com artistas e agentes do cenário musical: “Assim que criei o perfil, acionei alguns contatos que tinha, pois estou inserido no cenário do rap há anos e colecionei diversas amizades. Fui acionando alguns artistas, como o Gelatto Neves, e, a partir dele, fomos chegando a outros e outros. A Nanda Tsunami está na nossa equipe desde o primeiro dia e também deu uma força gigante, e muitos vieram à minha DM, e outros se posicionaram por conta de seus fã-clubes”, relata.

A iniciativa busca estimular a união entre artistas para se posicionarem em um momento decisivo para o país: “Tenho percebido que o rap ainda pode ser totalmente unido. Tenho conversado diariamente com todos os artistas sobre a necessidade de encerrar brigas e de todos criarmos algo ainda maior. Somente juntos podemos mudar nosso futuro!”, defende Kauan.

Encontro Histórico
Desde que ganhou força no Brasil, nos anos 1980, o rap se afirmou como uma importante expressão cultural das periferias. Com letras que denunciam desigualdades, racismo, violência policial e a ausência de direitos básicos, o gênero construiu uma trajetória marcada pela crítica social e pela valorização das experiências da população negra e periférica.

Essa origem ajuda a compreender a razão em que parte dos artistas e integrantes da cena considera importante o posicionamento político do hip hop, já que, questões como o acesso à educação, à cultura e aos serviços públicos estão diretamente relacionadas às realidades retratadas nas músicas.

Um episódio emblemático dessa aproximação entre o hip hop e o poder público ocorreu em 2004, quando rappers como KL Jay, Edi Rock, Rappin’ Hood e MV Bill se reuniram com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o então ministro da Cultura, Gilberto Gil, para discutir políticas públicas voltadas ao movimento.

O encontro representou um momento significativo de reconhecimento do hip hop como uma expressão cultural capaz de contribuir para o debate público e dar visibilidade às demandas de diferentes gerações.

Para Kauan, o rap não pode se distanciar desse papel histórico, sobretudo diante da disputa política atual: “É fundamental que o rap, gênero musical responsável por denunciar injustiças sociais, levantar debates urgentes e dar voz a realidades historicamente silenciadas, esteja na linha de frente da luta por um bem maior no nosso país. Nós nunca fecharíamos com os ideais da direita nem com os do bolsonarismo. É preciso botar a cara agora e agir, sem medo!”, afirma.

As novas roupagens do rap
A popularização do rap ampliou seu alcance para além das periferias, trazendo novos públicos, incluindo jovens das classes média e alta. Ao mesmo tempo, a expansão da indústria cultural e a ascensão de novos artistas contribuíram para diversificar as temáticas e as sonoridades do gênero.

Com o crescimento do trap, um subgênero do rap e do hip-hop, outros assuntos também foram surgindo. E, diferentemente das reivindicações por direitos, nascem as letras que demonstram a vontade de consumo, e temas como dinheiro e carros de luxo aparecem com frequência nas composições. Essa transformação alimenta, até hoje, debates sobre as novas ideias e os rumos do gênero musical, além do quanto a relação com as questões sociais que tanto marcaram suas origens.

As pautas progressistas hoje são bem mais fortes entre as artistas mulheres da cena do rap. Elas conquistaram espaço no mainstream do rap, e temas como liberdade sexual, autonomia feminina e enfrentamento às desigualdades de gênero seguem integrando o repertório de artistas que ampliam a representatividade dentro da cena.

O Rap Contra a Direita nasce em momento eleitoral para reforçar e estimular o debate sobre os projetos em disputa nas eleições de 2026, se preocupando em mostrar o que isso pode custar para a cultura, principalmente para gêneros musicais que ainda são marginalizados socialmente dentro da indústria quando o assunto é patrocínio e visibilidade. Para Kauan, a neutralidade política defendida por parte do público não corresponde à trajetória histórica do hip hop. Ele também critica a ideia de que o rap não deveria assumir um lado na disputa eleitoral.

“Achei muito engraçado quando vieram me dizer também que ‘o rap não tem lado’. Algumas pessoas precisam largar o gênero e ir ouvir sertanejo, então. Lá tem artistas com os quais elas podem se identificar mais. Somente isso”, conclui.

Artistas que se posicionaram contra a extrema direita
Alguns artistas do hip hop e rap nacional já se manifestaram em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em defesa da democracia e em oposição aos projetos políticos de Flávio Bolsonaro. Com trajetórias marcadas por diferentes estilos e abordagens, esses nomes também levam para a música debates sobre desigualdade social, racismo, direitos humanos e valorização da cultura.

Rappers homens:

Akira Presidente (RJ)
Alee (RJ)
AnjO 005 (SP)
Baco Exu do Blues (BA)
BK’ (RJ)
Borges (RJ)
Cae (SP)
Delacruz (RJ)
Dexter (SP)
DK47 (RJ)
Djonga (MG)
Don L (DF/CE)
Edi Rock (SP)
Emicida (SP)
Filipe Ret (RJ)
Froid (DF)
GOG (DF)
L7NNON (RJ)
Mano Brown (SP)
Marcelo D2 (RJ)
Matuê (CE)
MC Hariel (SP)
MC Marechal (RJ)
Nabru (MG)
Nikito Lebrae (SP)
Ogoin (MG)
Oklin (SP)
Pelé do Manifesto (PA)
Rashid (SP)
Ruas MC (SP)
Renan Inquérito (SP)
Rod 3030 (RJ)
Rico Dalasam (SP)
Salvador da Rima (SP)
Sant (RJ)
Spinardi (SP)
Tarcis Neggs (RJ)
TZ da Coronel (RJ)
Vandal (BA)
Xamã (MG/RJ)
Yago Oproprio (SP)
Yunk Vino (SP)

Rappers Mulheres:

Ajuliacosta (SP)
Azzy (RJ)
Barona (BA)
Budah (ES)
Ciça (RJ)
Clara Lima (MG)
Cris SNJ (SP)
Drik Barbosa (SP)
Duquesa (BA)
Ebony (RJ)
Flora Matos (DF)
Hanifah (SP)
Karol Conká (PR)
Lívia Cruz (PE)
MC Carol (RJ)
MC Luanna (SP)
N.I.N.A. (RJ)
NandaTsunami (SP)
Rubia RPW (SP)
Sara Donato (SP)
Sharylaine (SP)
Slipmami (RJ)
Stefanie (SP)
Tássia Reis (SP)
Tasha & Tracie (SP)

*ICL


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