Gerson Camarotti talvez tenha encontrado a melhor definição para a participação de Flávio Bolsonaro na sabatina do Jornal Nacional: o candidato assumiu integralmente o figurino e o gestual do Sambarilove da Escolinha do Professor Raimundo.
Foi um espetáculo à parte. Pergunta de um lado, floreio do outro. O entrevistador apertava, Flávio escorregava. Perguntava-se sobre um assunto, vinha uma pirueta verbal; insistia-se na questão, surgia uma cambalhota retórica. Quando a resposta ameaçava aparecer, lá vinha o velho e conhecido sambarilove: muita movimentação, muito gesto, muita convicção cenográfica e nenhuma substância.
Flávio parecia ter ido ao Jornal Nacional não para responder perguntas, mas para dançar em torno delas, imitando perfeitamente o personagem Armando Volta.
Era como se tivesse levado para a bancada uma cartilha intitulada: “Como falar durante vários minutos sem necessariamente chegar ao ponto”. O problema é que televisão não é salão de baile e entrevista não é concurso de coreografia. Em algum momento, o candidato precisa responder.
E aí apareceu o grande talento do sambarilove político: transformar pergunta incômoda em fumaça, questão objetiva em discurso e cobrança em vitimismo.
Quando surgiam temas espinhosos, especialmente aqueles que exigiam explicações mais concretas, o figurino ficava ainda mais completo. Braços para cá, cabeça para lá, sobrancelha para cima, indignação para todo lado — e a resposta, essa criatura misteriosa, continuava desaparecida.
O curioso é que o Sambarilove original fazia aquilo para arrancar risadas. Flávio, ao que tudo indica, tenta fazer o mesmo movimento para conquistar votos.
Só esqueceram de avisá-lo de uma diferença fundamental: na Escolinha do Professor Raimundo, o sambarilove era personagem. Na política, o eleitor espera encontrar um candidato.
Flávio Bolsonaro conseguiu, portanto, uma proeza rara: transformar uma sabatina presidencial em um número de variedades. Saiu de lá deixando a impressão de que, quando a realidade aperta, o melhor recurso disponível é mesmo tirar o sapato, ajeitar o chapéu imaginário e mandar ver no sambarilove.
Só faltou a musiquinha de entrada.
E talvez o mais revelador seja justamente isso: quanto mais se esperava uma resposta, mais aparecia o personagem. Quanto mais se cobrava conteúdo, mais vinha o gestual. Quanto mais a pergunta exigia precisão, mais o candidato parecia ensaiar uma coreografia.
No fim, Flávio não precisava de marqueteiro. Precisava era de um palco, uma orquestra e, quem sabe, do velho bordão:
“Sambarilove, sambarilove… e resposta que é bom, nada!”
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