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Fux prioriza convidados pró-bets em audiência no STF; governo defenderá proibição das apostas

Ao menos 22 dos 34 expositores chamados pelo ministro já defenderam a derrubada da MP que proibiu apostas no Brasil

O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza nesta terça-feira (3) audiência pública sobre a Medida Provisória (MP) 1.394/2026, que proibiu as apostas de quota fixa, as bets, em todo o país. Dos 34 representantes convidados pelo ministro Luiz Fux, ao menos 22 já se manifestaram contra a medida. Fux é relator da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 8027, movida pela Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que pede a derrubada da MP.

O desequilíbrio aparece na própria ordem do dia. Toda a manhã, das 10h10 às 12h40, está reservada a entidades esportivas. Falam 11 clubes de futebol, entre eles Flamengo, Corinthians, São Paulo e Cruzeiro, além da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e do Comitê Paralímpico do Brasil. Dois dos clubes inscritos, o Botafogo e o Guarani, estão em recuperação judicial. Os clubes têm usado a preocupação com a saúde financeira para defender as bets. A posição é criticada por torcedores.

À tarde, falam a Advocacia-Geral da União (AGU), a Procuradoria-Geral da República (PGR) e os ministérios da Fazenda, do Esporte, da Justiça e Segurança Pública e da Saúde. Em seguida vêm entidades do comércio, da indústria e do setor de apostas, como o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), a Associação Nacional pela Segurança Jurídica dos Jogos e Apostas (Anseja) e a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Cada expositor tem dez minutos. O cronograma completo foi divulgado pelo STF.

Ampliação a pedido da AGU
A lista original tinha 28 entidades, e 20 delas já haviam defendido publicamente a derrubada da MP. A AGU contestou a composição. “O total dos atores convocados parece formar um quadro predominantemente integrado por entidades esportivas (11) e representantes de operadoras de apostas (6), composição que […] pode vir a dificultar a vocalização equilibrada das diversas correntes de opinião”, argumentou o órgão em manifestação ao ministro.

Fux aceitou incluir os ministérios da Saúde e da Justiça e a Associação Brasileira de Supermercados (Abras). Na mesma decisão, porém, também convocou o Comitê Paralímpico, a Fenapaf e o Grêmio. Entidades de saúde e de defesa do consumidor que falaram na audiência de 2024, como a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e o Instituto Alana, não estão na lista. Ao justificar a escolha, o relator lembrou aquela audiência. “Os impactos sanitários e consumeristas já são de conhecimento desta Corte”, escreveu Fux no despacho.

O próprio ministro já se posicionou contra o modelo de negócio das apostas. Em agosto, ao votar em processo sobre a Lei de Contravenções Penais, ele afirmou que a exploração de jogos de azar extrai lucro “a partir da incapacidade cognitiva do sujeito de fazer uma avaliação dos riscos envolvidos em sua decisão”. “Não há um direito fundamental, constitucionalmente protegido, à exploração de jogos de azar”, declarou na ocasião. O julgamento está suspenso por pedido de vista do ministro Flávio Dino.

Impacto social
Entre os defensores da proibição, a Abras deve apresentar ao STF, às 15h10, o estudo que associa o fim das bets ao aumento das compras de comida. Segundo a entidade, a venda de alimentos subiu 6,5% entre 5 e 11 de outubro, na comparação com o mesmo período de 2025, e 6,3% na semana seguinte, com alta em supermercados, atacarejos e mercearias. O crescimento se concentrou em itens básicos, como arroz, óleo, macarrão e café.

A Abras também cita dados do Banco Central que apontaram queda de 10% nas transações via Pix logo após a proibição, recuo que hoje estaria em 7%. O presidente da entidade, João Galassi, avalia que parte do dinheiro antes gasto em apostas migrou para a compra de alimentos, mas reconhece que ainda não é possível cravar a causa do crescimento.

O efeito das apostas sobre o orçamento das famílias também deve ser levado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Na audiência de 2024, a CNC apresentou estudo que atribuiu às bets a inadimplência de 1,3 milhão de brasileiros naquele ano, sobretudo entre quem ganha até três salários mínimos. A entidade e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apoiam a MP.

Na saúde, a AGU reuniu números de órgãos técnicos do Ministério da Saúde. Os atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) ligados ao transtorno do jogo cresceram 140% entre 2018 e 2025, e a AGU estima em R$ 30,6 bilhões anuais os custos sociais das apostas na saúde. Especialistas ouvidos pelo BdF apontam a relação entre as apostas, o endividamento e o adoecimento mental.

Decisão fica para depois
A audiência não define o destino das bets. Ela serve para reunir subsídios ao relator, que ainda vai analisar o pedido de suspensão da MP.

No Congresso, a medida anunciada pelo governo Lula em setembro ainda depende de aprovação para virar lei. Até a última sexta-feira (30), a comissão mista que analisa o texto não tinha sido instalada. A MP passa a trancar a pauta em 9 de novembro. A proibição tem respaldo da população. Uma pesquisa Atlas/Bloomberg mostrou que 75% dos brasileiros defendem o fim das apostas on-line.

*BdF


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Mundo Política

O Texas já não é porto seguro para os Bolsonaro

A possível virada à esquerda no Texas acende um sinal de alerta para Eduardo e Flávio Bolsonaro. O que parecia ser um refúgio confortável para o clã, protegido pela proximidade com a extrema direita americana e pela influência política do trumpismo, pode estar entrando em uma nova realidade.

O problema é que o bolsonarismo apostou todas as fichas na ideia de que os Estados Unidos seriam uma espécie de retaguarda internacional para suas aventuras políticas. Transformou o trumpismo em referência, tratou a política americana como extensão de seus interesses e imaginou que estaria sempre protegido pelo ambiente conservador norte-americano.

Agora, com as eleições americanas colocando em xeque a hegemonia republicana, o Texas, historicamente identificado como um dos grandes bastiões conservadores dos Estados Unidos, também dá sinais de mudança. Pesquisas apontam o democrata James Talarico à frente na disputa pelo Senado, enquanto outras corridas eleitorais se tornaram muito mais competitivas do que os republicanos esperavam.

Pesquisa da AtlasIntel realizada entre 28 de outubro e 1º de novembro, com 1.678 entrevistados, aponta Talarico com 51,3% das intenções de voto, contra 45,4% de Paxton. A vantagem é de 5,9 pontos percentuais, com margem de erro de dois pontos.

Para Eduardo e Flávio Bolsonaro, a notícia tem um significado que vai além das urnas americanas. Afinal, o refúgio político imaginado pelo clã pode deixar de oferecer o ambiente de tranquilidade ideológica que tanto lhe agradava.

É mais uma peça do tabuleiro internacional que começa a escapar das mãos da extrema direita. Depois da derrota de Flávio para Lula, o bolsonarismo ainda precisa lidar com a possibilidade de perder sustentação justamente no território que transformou em referência de sua devoção política.

O Texas pode não virar de uma hora para outra, mas uma coisa já está clara: nem mesmo os antigos redutos da direita americana estão imunes ao desgaste do trumpismo.

O clã Bolsonaro está descobrindo que não existe exílio político capaz de congelar a história. E que até o Texas pode deixar de ser abrigo para quem apostou todas as fichas no fascismo.


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Política

Militantes criam ‘Tinder do Exército do Lula’ no WhatsApp para paquera na esquerda

Paquera acontece em grupos, separados por DDD, onde todos podem conversar — cabem até 1.024 pessoas por vez

Lula (PT) nunca criou o Ministério do Namoro. A pasta fictícia nasceu de um meme na campanha de 2022, mas o petista entrou na brincadeira e, já presidente, chegou a pedir desculpas por não ter cumprido a promessa. Coube à militância colocar a ideia em prática e distribuir os solteiros interessados em grupos, por DDD.

Batizado de “Tinder do Exército do Lula”, o projeto foi anunciado ao meio-dia de terça-feira (27) em canal de WhatsApp. A missão do primeiro dia era uma só: recrutar.

“A brincadeira só fica legal com mais soldades de Lulinha”, escreveu a página, que à tarde já sugeria um tema para engajar: se Flávio Bolsonaro (PL) tinha ou não fugido do país — após o pleito, o senador deixou o Brasil com a mulher e as filhas em um jato privado.

O sistema funciona em duas etapas. No canal, só os administradores publicam, e os seguidores apenas recebem os avisos e os convites. A paquera acontece nos grupos, separados por DDD, onde todos podem conversar — e onde cabem até 1.024 pessoas por vez.

Os primeiros grupos foram criados na noite de terça, para Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal. Vieram em seguida Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre. Antes das 20h, já estavam lotados.

“Estamos contratando moderadores. Vamos contar com a paciência de vocês”, avisou o “ministério”.

Entrar, porém, ainda não significava conversar. “Tropa! Entrem nos grupos e aguardem!”, orientou o canal. Os grupos só seriam abertos para mensagens às 10h do dia seguinte. “Descansem, soldadinhes do amor. Beijos revolucionários.”

Na quarta (28), Recife, Curitiba, Belém, Fortaleza, Campinas e Ribeirão Preto ganharam grupos, com a mesma convocação: “Entre antes que ele lote”.

Nos já abertos, começaram as apresentações. A Folha acompanhou a movimentação no de Curitiba. Muitas mensagens seguem uma ficha padronizada, com emojis: nome, idade, orientação sexual, pronomes, o que busca, se o privado está “aberto” e o perfil no Instagram.

Na noite de quarta, uma mulher de 34 anos se dizia fã de café e vinho e avisava que dificilmente daria conta de acompanhar o grupo: “Se tiver interesse pode chamar no privado”.

Já um morador de Londrina contou ter dois empregos e cursar duas faculdades, o que chamou de “o terror dos que bebem detergente” — provocação a bolsonaristas que, em maio, saíram em defesa da Ypê depois que a Anvisa suspendeu a fabricação e o uso de lotes da marca.

No grupo, um autodeclarado paulistano de 47 anos já se antecipava a eventuais críticas: “votei no Aécio pro governo de MG – não me julguem”. Na ficha, que incluía campos para drogas e álcool, respondeu que não curte surubas.

Entre uma apresentação e outra, os flertes se desdobravam. Uma participante divulgou um grupo paralelo para pessoas com mais de 30 anos “marcarem uns rolês que realmente saiam do WhatsApp”. Outro quis saber se os colegas já se organizavam em algum partido político. E um terceiro resumiu as expectativas: “Se não desencalhar aqui, pode fechar o porto que o navio não vem mais”.

Segundo o canal, ao menos três grupos serão abertos por dia. A ordem de lançamento ficou a cargo dos seguidores, convidados a votar no DDD da sua cidade nos comentários da página do Instagram namoro.gov.br, que originou o canal.

Em menos de quatro horas, o canal tinha 5.000 “soldades do flerte”. Na manhã seguinte, saudava a “tropa mais tesuda e gostosa da esquerda”, próxima aos 30 mil. Horas depois: “Atingimos 40k de delícias revolucionárias. O amor voltou! O tesão voltou!”. Neste domingo (1), ultrapassava 58 mil seguidores — e já havia ao menos 15 grupos formados para as trocas de mensagens.

O vocabulário não é casual. Cada mensagem do canal reproduz o manual do deputado André Janones (Rede-MG), que transformou o canal “Exército do Lula” no quartel-general digital da campanha petista no segundo turno.

O “urgente” acompanha Janones desde 2018, quando se elegeu na esteira de vídeos para caminhoneiros em greve. O “explode”, que viralizou nas madrugadas desta eleição, “surgiu pronto” em sua cabeça, segundo disse à Folha. A “missão” era o formato das tarefas que distribuía aos apoiadores, como coordenar postagens e impulsionar buscas contra o adversário.

Funcionou. Criado em abril, o “Exército do Lula” tinha cerca de 50 mil membros até o primeiro turno e passou de 10,8 milhões na véspera da eleição, segundo o deputado. Lula, que havia terminado a primeira rodada atrás de Flávio, virou a disputa e foi reeleito no domingo (25).

Mesmo a mecânica foi copiada. No “Exército do Lula”, as missões tinham prazo; no Ministério do Namoro, a urgência vem da escassez: “São apenas 1.024 vagas. Explode esse convite para os seus amigos”.

A piada, no entanto, é anterior. O perfil do Instagram, que se apresenta como extraoficial e tem 75 mil seguidores, existe desde 2023. A primeira publicação, com um vídeo de Lula, avisava: “O Ministério do Namoro está sendo montado. Aguardem!”.

Nos meses seguintes, o perfil cobrou a pasta nos cem dias de governo, lançou o fictício programa Meu Crush Minha Vida para o Dia dos Namorados e criou o “Lula da Sorte”, duende que traria um amor em menos de três meses a quem o compartilhasse.

Com a campanha de 2026, o humor encontrou um galã. Depois que um manifestante mascarado e sem camisa viralizou no ato pró-Lula na avenida Paulista, em 11 de outubro, e foi apelidado nas redes de “a picanha que o Lula prometeu”, o perfil anunciou ter acesso à “ficha amorosa” do “Petista Misterioso”.

Na mesma publicação, informou que o presidente procurava para chefiar a pasta alguém de perfil celibatário, para evitar conflito de interesses. E prometeu: “Vai ter Ministério do Namoro no Lula 4”.

Passada a eleição, a tropa ganhou outra frente de batalha, e a conquista de território continua. Diante dos limites do WhatsApp, seguidores sugeriram migrar os grupos para o Facebook. O canal tratou a ideia como mais uma ofensiva: “Seria mais um território do bolsonarismo que invadiríamos? Já resgatamos a bandeira, a camisa amarela, só falta o Facebook”.

*ICL


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Mundo Política

Mossad, EUA e jato suspeito: Flávio Bolsonaro era fantoche de interesses estrangeiros

A decisão de serviços secretos de sair ao resgate do brasileiro não foi um ato de generosidade. A manobra apenas tinha como objetivo proteger seu ativo na região.

Um ex-agente do Mossad envolvido na fuga. Alertas por parte de ex-agentes da CIA sobre o padrão usado para retirar Flávio Bolsonaro do país. Um avião sob suspeita de ligações com empresários mais que suspeitos. Uma manobra de desinformação e um desembarque num aeroporto que fez parte da história das intervenções da Casa Branca na América Latina.

A operação para permitir que o ex-candidato derrotado na eleição brasileira deixasse o território nacional é reveladora. Se ainda existiam dúvidas para uma parcela da população sobre qual bandeira servia de referência para o clã Bolsonaro, essa manobra escancara o fato de que Flávio Bolsonaro ser, no fundo, apenas um fantoche de interesses estrangeiros no país.

Não deveria ser uma surpresa o que foi revelado pela TV Globo neste domingo sobre os detalhes da operação. Afinal, o filho do ex-presidente golpista prometeu entregar as terras raras do país aos EUA, privatizar bens públicos, abrir mão da soberania nacional na defesa do território e ainda reposicionar o Brasil para alinhar sua política externa aos interesses americanos e israelenses.

Se não bastasse, ofereceu formar uma equipe de transição com a participação do Departamento de Estado norte-americano, algo jamais visto na história do Brasil.

Enquanto isso, se disfarçava de patriota, usurpando a bandeira e a camisa da seleção, como uma fantasia para enganar milhões de eleitores.

Abusou do termo patriota, justamente como camuflagem do que poderia ter sido o maior ato de traição já registrado na alta cúpula da política nacional.

A decisão de americanos e ex-agentes do Mossad de sair ao resgate do brasileiro não foi um ato de generosidade. A manobra apenas tinha como objetivo proteger seu ativo na região.

Ao fugir com a ajuda de potências estrangeiras, Flávio Bolsonaro revelou quem de fato é: um títere destinado a entregar o país, em troca de chegar ao poder.

Ao fugir com a ajuda de serviços secretos estrangeiros, o senador nos mostra o que nos esperava caso fosse eleito presidente. Um golpe que teria solapado, ao mesmo tempo, nossa democracia e nossa soberania.

Foi disso tudo que nos livramos.

*Jamil Chade/ICL


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Política

Não haverá saída para André Mendonça

O Institudo de Mendonça

Metade das prefeituras paulistas que contrataram o Iter receberam emendas parlamentares de seu aliado Cezinha de Madureira, investigado no STF

Em novembro de 2023, quando contabilizava quase dois anos como ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça e sua esposa, Janey, lançaram um instituto próprio: o Iter, que oferece cursos livres, programas de treinamento e MBAs em áreas como segurança, gestão pública, advocacia e compliance. São temas na medida para despertar interesse de prefeituras, governos e órgãos públicos – e, assim, o ministro “terrivelmente evangélico” que chegou à corte por indicação de Jair Bolsonaro passou a ter órgãos públicos como clientes.

Em pouco tempo, o Iter se tornou um sucesso, com dezenas de contratos em todo o Brasil. Tempos depois, se tornou assunto quando Mendonça foi sorteado o relator do caso do Banco Master no STF. Logo intersecções entre a entidade educacional privada e o banqueiro Daniel Vorcaro apareceram, por meio do empresário Lucas Kallas, ex-sócio de Vorcaro (leia a reportagem O esgrimista).

São bons assuntos para as aulas de compliance dos cursos do instituto, mas há outros também bastante úteis dentro do próprio Iter: os contratos com prefeituras paulistas. Um levantamento da piauí mostra uma coincidência intrigante: dos 61 municípios paulistas que contrataram os serviços do Iter, trinta foram beneficiados com emendas orçamentárias enviadas especificamente por um mesmo deputado federal: Cezinha de Madureira (PL-SP). Além de ser um dos políticos mais próximos de Mendonça em Brasília, Cezinha tem participação no negócio: ele despendeu 19.353 reais como um “sinal” para a compra futura de 4% do instituto.

O cruzamento das movimentações financeiras foi feito pela piauí, com base em dados do Tribunal de Contas de São Paulo e do Portal da Transparência da Controladoria-Geral da União (CGU) . Eles mostram que esses 61 municípios empenharam 2,4 milhões de reais no Iter. Do total desses recursos, 1,45 milhão foi empenhado por um conjunto de trinta municípios que, paralelamente, receberam juntos 59 milhões de reais em emendas de Cezinha entre 2021 e 2026.

A Prefeitura de Embu das Artes foi a mais graficificada com as recomendações orçamentárias do político do PL. Pagou 295.680 reais ao instituto, entre junho de 2024 e junho de 2026, e levou 16,6 milhões de reais em emendas desde 2021.

São Sebastião, no litoral paulista, recebeu cerca de 986 mil reais em emendas e pagou 290 mil em junho de 2025, por um curso chamado Administração pública do século XXI: liderando para uma gestão de resultados, para cem participantes.

Em Cajamar, foram 12,9 milhões de reais em emendas e 32.520 reais ao instituto pagos pela prefeitura, além de 15.800 pagos pela Câmara. Guarulhos recebeu 7 milhões e pagou 36 mil; Jarinu, 2,5 milhões e 7.900 reais. Araraquara, 600 mil e 32.400. Carapicuíba, 150 mil e 11.520.

O padrão se repete, com variações. Em Miracatu, Cezinha visitou o prefeito em 26 de abril de 2024. O primeiro empenho ao Iter é de 5 de junho. A cidade pagou 63.230 reais e recebeu 2 milhões em emendas, na saúde, em 2025. Em Taboão da Serra, um comunicado da prefeitura diz que Cezinha mandou 10 milhões de reais em emendas; dez dias antes, a prefeitura empenhou 156 mil reais para o Iter. Em Leme, o prefeito agradeceu em vídeo uma emenda de 500 mil reais, e o município empenhou 123.935 reais, dos quais 79.935 reais foram pagos. Em 16 dos 30 municípios, o primeiro empenho é de um ano anterior à primeira emenda de Cezinha; em nove, do mesmo ano; em cinco, de dois a três anos depois.

Além das prefeituras, havia o Cioeste, um consórcio de catorze municípios da Grande São Paulo, parte deles abastecidos por emendas de Cezinha, assinou com a entidade, em 24 de julho de 2025, um contrato de 1,23 milhão de reais para cursos e palestras de direito e administração pública, em um projeto chamado Escola de Governo.

Em 11 de agosto de 2025, menos de três semanas depois da assinatura, o deputado compôs a mesa do lançamento da Escola de Governo na sede do consórcio, em Alphaville. Mendonça deu uma aula magna sobre controle judicial do ato administrativo. Victor Godoy também estava presente. Segundo relato do próprio consórcio, o ministro anunciou que o instituto levaria aos municípios “o que há de melhor do Brasil e de Brasília”. A reportagem não identificou quanto cada prefeitura consorciada colocou isoladamente nesse projeto. No evento de lançamento da parceria entre o instituto e o Cioeste, Guto Issa, prefeito de São Roque e presidente do consórcio, presenteou Mendonça com uma garrafa do Vinho dos Mortos, da Quinta do Olivardo.

Na manhã desta terça-feira, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em São Roque, dentro da Operação Entressafras, que investiga a aplicação de recursos previdenciários de mais de 90 milhões de reais no Banco Master sem amparo técnico. Há suspeitas de gestão fraudulenta, lavagem de capitais, peculato financeiro e delitos praticados contra a administração pública.

Somados, os pagamentos diretos de prefeituras abastecidas por Cezinha e o contrato do Cioeste destinaram cerca de 2,68 milhões de reais ao instituto. É cerca da metade do que a entidade de Mendonça recebeu da empresa de Lucas Kallas, ex-sócio de Vorcaro, mas há uma diferença de natureza: segundo o Iter, o dinheiro do empresário está sendo devolvido.

A coincidência entre o pagamento das emendas e os contratos com o Iter não quer dizer que as primeiras custearam os segundos – nada aponta diretamente para isso. Mas a noção de que os repasses faziam parte de um circuito aparece em um vídeo no Instagram do prefeito de Itariri, um município paulista que recebeu 100 mil reais em emendas de Cezinha em outubro de 2025 e pagou 25.481 ao instituto de Mendonça em três parcelas. O prefeito Carlos Rocha (PL), em julho de 2025, gravou um vídeo ao lado de uma escavadeira de 18 toneladas agradecendo ao deputado “pelo carinho que tem pela cidade”. A máquina era, segundo ele, “fruto da parceria com o deputado federal Cezinha de Madureira”.

À certa altura, o prefeito também fez um agradecimento “por tudo que tem feito e por Itariri” a um outro personagem importante nesta história, que personifica os laços funcionais e familiares entre o gabinete do deputado e o instituto do ministro. José Nagliatti, destinatário do elogio, é cunhado do ministro e trabalha no gabinete do deputado como secretário parlamentar desde março de 2023. Ao mesmo tempo, o cunhado organiza e recepciona visitas de potenciais parceiros do instituto, entre políticos e empresários, como revelado pelo ICL Notícias. Cezinha afirmou ao site que ele exerce funções de apoio à agenda e aos deslocamentos parlamentares e que outras atividades ocorrem fora do expediente. Em uma publicação nas redes sociais do Banco de Olhos de Sorocaba, em 28 de julho de 2025, Nagliatti é descrito de outra forma: “executivo de vendas”.

Olevantamento da piauí no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) dá uma dimensão do rápido êxito do Iter. Entre maio de 2024 e setembro de 2026, o instituto aparece em 74 registros de contratação direta, trinta contratos e 44 notas de empenho com 55 entidades de todo o país, entre elas vinte prefeituras, seis câmaras municipais e dois governos estaduais. Os contratos somam aproximadamente 12 milhões de reais em valores contratados (que não correspondem necessariamente ao total pago).

Entre os clientes estava a Fundação para o Desenvolvimento da Educação (FDE), vinculada ao governo paulista, do aliado Tarcísio de Freitas, que contratou o Iter por 1,63 milhão de reais para dar cursos e pós-graduação a servidores. A Cemig, empresa controlada pelo governo de Minas Gerais, na gestão de Romeu Zema, firmou contrato de 265.200 reais — que não aparece nas bases nacionais de compras públicas porque as estatais publicam seus contratos por regime próprio. A Câmara Municipal de Diadema contratou serviços por 376.900 reais. Em setembro de 2025, a Prefeitura de São Paulo, administrada por Ricardo Nunes, pagou 380 mil reais ao instituto por uma contratação sem licitação.

O Conselho Federal de Contabilidade contratou a instituição por 1,73 milhão de reais em dois instrumentos. Um deles, de 349.800 reais, descrevia um curso de oratória “ministrado pelo Prof. Dr. André Luiz de Almeida Mendonça, Ministro do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral”. O outro, de 1,38 milhão, previa uma imersão corporativa em Campos do Jordão com “conferência Magna de abertura” do próprio Mendonça. Os contratos não demonstram que ele tenha recebido remuneração pessoal pelos serviços. Seu gabinete afirma que o ministro jamais auferiu lucro do instituto, do qual anunciou desligamento em setembro de 2026. Em nota à imprensa do dia 3 de setembro, disse que o instituto será transformado em entidade sem fins lucrativos. E que ele e sua esposa já saíram do Iter.

Procurado pela piauí, o ministro André Mendonça não se pronunciou e não respondeu às perguntas enviadas.

Há uma sobreposição digna de nota entre os interesses do Banco Master, cujo caso está sob a relatoria do ministro, e os contratos do Iter. Em novembro de 2025, o Ministério da Previdência informou que 18 regimes próprios de previdência de estados e municípios tinham aplicado 1,8 bilhão de reais em letras financeiras do Master entre outubro de 2023 e dezembro de 2024 – dinheiro das aposentadorias de servidores, sem a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Sete deles aparecem também entre os clientes do Iter: o Estado do Rio de Janeiro (que aportou 970 milhões de reais no Master apenas entre 2023 e 2024), o do Amapá (400 milhões), o do Amazonas (50 milhões), Maceió (97 milhões), São Roque (93 milhões), Cajamar (87 milhões) e Araras (29 milhões). Juntos, somam cerca de 1,73 bilhão, a maior parte do total.

Os empenhos ao instituto somam 12,1 milhões de reais em 75 registros do PNCP. O Rio de Janeiro de Cláudio Castro – que, segundo a PF, nomeou em 2023 os dirigentes que controlaram o credenciamento do banco – contratou o Iter em sete instrumentos que somam 701.605 reais reais, 518 mil deles em abril de 2026 para treinamento em segurança pública (depois da saída de Castro). O Amazonas de Wilson Lima, onde a Amazonprev comprou 50 milhões, pagou 466 mil pela Secretaria de Segurança Pública e 1,6 milhão pelo Tribunal de Justiça. Maceió, de João Henrique Caldas, o JHC, que nega ter determinado as aplicações, pagou 26 mil por uma secretaria e um instituto municipal; São Roque, de Guto Issa, 2.850 reais (a informação, nesse caso, é do Tribunal de Contas do Estado).

Um dos maiores contratos do Iter, porém, não veio de nenhum desses cofres, e sim de um bem mais opaco: nasceu do leilão do 5G, realizado em 2021 no Ministério das Comunicações bolsonarista, chefiado por Fábio Faria – amigo de farra e de lobby de Daniel Vorcaro. O dinheiro que as operadoras destinaram para cumprir o edital foi para a Entidade Administradora da Faixa 3,5 GHz, a EAF*, entidade privada criada em 2022 que aplica 6,3 bilhões de reais de uso público e, por ser privada, não precisa licitar nem divulgar dados. Em 19 de junho de 2026, três dias depois de Mendonça formar a maioria que manteve presos o pai e o primo de Vorcaro, e quando ele e a esposa ainda controlavam o instituto, a EAF contratou o Iter por 2.454.375 reais, o maior contrato individual conhecido do instituto, para um programa de treinamento de doze meses, com adiantamento previsto de 40%.

Entre os nomes que gravitam em torno do leilão do 5G e da entidade dele derivada, há ao menos outros dois envolvidos até o pescoço no caso Master, além de Faria. Um deles é Alberto Leite, empresário que aparece nos relatórios da PF sobre Toffoli e sobre Ciro Nogueira. O outro é o próprio presidente do Senado, Davi Alcolumbre, cujo grupo, segundo o UOL, loteou cargos de diretoria e conselho da EAF desde o início do ano. Nenhum dos três – Faria, Leite e Alcolumbre – sofreu buscas no caso Master até hoje. Apenas a empresa de Lucas Kallas colocou mais dinheiro no Iter do que qualquer outro cliente individual.

Kallas é o dono da Cedro e, embora negue vínculo societário com Vorcaro, foi sócio do banqueiro na companhia de biotecnologia Biomm e, além disso, recebeu do Master um empréstimo de 57 milhões de dólares. Não há prova de que Kallas tenha financiado com 5,2 milhões de reais o Iter em nome de Daniel Vorcaro. O Iter informou que os recursos financiaram despesas de estruturação e funcionamento da instituição, que os repasses foram interrompidos e que a devolução começou em janeiro de 2026, antes de Mendonça assumir a relatoria do caso Master.

A relação de Kallas com Mendonça, no entanto, não parou nesse repasse. Incluiu a disponibilização ao ministro de um helicóptero para viajar de Belo Horizonte para comparecer a um evento jurídico em Itabira, no interior de Minas, em 4 de agosto de 2025. A piauí apurou um episódio que causou desconforto ao ministro, instantes antes da viagem. Quando o carro que conduzia Mendonça ao Aeroporto da Pampulha chegou de carro ao hangar da Cedro Aviação, foi parado por vistoria. O procedimento padrão incomodou o ministro do STF, que disse que não autorizava a revista. No destino, Mendonça participou da 1ª Jornada Jurídica de Itabira, que tinha entre os patrocinadores um sindicato do setor de trabalhadores da mineração na cidade, além da OAB local. Um dos organizadores era o advogado Sérgio Leonardo, atual defensor de Daniel Vorcaro no Supremo.

Se Kallas e Cezinha o ligavam ao banqueiro em Minas e São Paulo, Mendonça tinha no governo do Rio de Janeiro mais que um vínculo com o poder estadual que remunerava seu instituto. O ministro tinha, na figura do governador Cláudio Castro, um amigo de fé e de política assombrado por investigações de corrupção. E essa relação, também atravessada por Cezinha de Madureira, traria algumas das maiores contradições de Mendonça como ministro do STF e do Tribunal Superior Eleitoral.

Os laços eram antigos. Em dezembro de 2021, poucos dias depois de o Senado aprovar seu nome para o Supremo, Mendonça foi recebido por Castro no Palácio Laranjeiras; mais tarde, o governador compareceu à cerimônia religiosa em sua homenagem, na Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Pouco após a derrota de Bolsonaro nas eleições de 2022, Castro procurou Mendonça por causa de um habeas corpus. Na noite de 11 de novembro de 2022, com o habeas corpus de Cabral em pauta na 2ª Turma e Mendonça com pedido de vista em mãos, Castro escreveu: “Amigo, preciso falar com urgência”, e acrescentou “caso Cabral”. Essa era uma das ações com que o ex-governador Sérgio Cabral, preso desde 2016, buscava deixar a prisão. Mendonça respondeu com a descrição do processo, disse que ligaria em alguns minutos e enviou o andamento no site do Supremo.

As mensagens não esclarecem o interesse do governador no caso, nem registram comprometimento do ministro. Em dezembro, contudo, Mendonça votou pela revogação da prisão preventiva, e a 2ª Turma o acompanhou. Quem lê a mensagem conclui que era Castro diretamente pedindo por um terceiro. O governador, no entanto, diz que só queria confirmar a validade de um alvará. O gabinete afirma que o ministro atuou com base nos autos e não é amigo do ex-governador.

Após a publicação da reportagem, a Entidade Administradora da Faixa (EAF) enviou a seguinte nota à piauí:

*A Entidade Administradora da Faixa (EAF) esclarece que é uma associação privada criada por determinação do Edital do 5G e que tem suas atividades diretamente supervisionadas pelo Gaispi, grupo coordenado pela Anatel, com participação do Ministério das Comunicações.

Vale destacar que as obrigações previstas no edital têm sido rigorosamente cumpridas pela entidade, inclusive com entregas antecipadas e economia de recursos.

Em relação ao contrato com o Instituto Iter, a proposta passou previamente por verificação de integridade, que não identificou impedimentos. O programa contratado, de treinamentos em conformidade e ética, já está 65% executado, dentro do cronograma. Foram entregues, até o momento, cursos presenciais e híbridos (a exemplo de treinamentos da liderança gerencial, capacitação de colaboradores em ética, compliance e integridade e treinamento em inteligência artificial aplicada), materiais audiovisuais, além de evento realizado com a participação de público externo para a discussão de temática relacionada à atuação e às entregas da entidade.

Sobre a menção a indicações políticas, a entidade reitera que a escolha de seus dirigentes segue critérios técnicos, de qualificação, experiência e competência profissional.

*Mateéria publicada originalmente na Revista piauí


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Ex-agente do Mossad ajuda Flávio Bolsonaro a fugir; veja quem é

Flávio Bolsonaro (PL-RJ) teria contado com a participação de Menachem Booky Halevy, ex-integrante do Mossad, serviço de inteligência de Israel, na operação que permitiu sua saída do Brasil após a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026. Segundo informações divulgadas pelo programa “Fantástico”, da TV Globo, neste domingo (1º), o israelense chegou ao país em 19 de outubro, seis dias antes do segundo turno presidencial.

Flávio deixou o território brasileiro na terça-feira (27), apesar de uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia ordenado a retenção de seus passaportes e proibido sua saída do país. O senador atravessou a fronteira com a Argentina, permaneceu aproximadamente 40 minutos em território argentino e embarcou em um avião com destino ao Equador, de onde seguiu para os Estados Unidos.

O Mossad é a agência de inteligência de Israel responsável principalmente por operações de espionagem, coleta de informações e atividades clandestinas no exterior. Seus agentes recebem treinamento para atuar em missões de inteligência, vigilância e operações sigilosas. Um ex-agente do Mossad é alguém que já integrou a organização, mas não necessariamente mantém vínculos operacionais com o governo israelense. A agência responde diretamente ao primeiro-ministro de Israel, atualmente Benjamin Netanyahu.

De acordo com a reportagem, Halevy esteve no Brasil em pelo menos outras três ocasiões durante 2026. Em 16 de fevereiro, desembarcou em São Paulo, vindo de Roma. No dia 23 do mesmo mês, chegou a Brasília em um voo procedente de Lisboa. A terceira entrada ocorreu em 16 de abril, quando viajou de Miami para São Paulo. Sua última chegada registrada aconteceu em 19 de outubro, poucos dias antes da eleição presidencial.

As autoridades brasileiras investigam qual teria sido a participação de Halevy na saída de Flávio Bolsonaro. Segundo o DCM, a suspeita é de que o ex-agente tenha auxiliado na organização da rota utilizada pelo senador. Ele estaria em uma das vans que atravessaram a Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Puerto Iguazú, na Argentina. Até o momento, não há confirmação pública sobre as tarefas específicas que teria desempenhado.

Na quinta-feira (29), Halevy foi abordado pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, quando se preparava para viajar à Colômbia. Após prestar depoimento, foi liberado e adquiriu uma passagem para os Estados Unidos. As informações divulgadas não apontam que o israelense tenha sido preso ou formalmente acusado de participar de um crime.

A viagem de Flávio Bolsonaro foi realizada em uma aeronave executiva operada pela empresa argentina Baires Fly. O empresário Luis Grande, proprietário da companhia, afirmou à agência France-Presse que o voo custou US$ 150 mil, aproximadamente R$ 800 mil. Segundo ele, o pagamento foi realizado por um intermediário do setor aeronáutico estabelecido nos Estados Unidos, mediante transferência de uma conta empresarial estadunidense para um banco argentino. Grande declarou desconhecer a identidade do contratante final.

No sábado (31), o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, negou a participação direta do governo estadunidense na organização da viagem. “Não estávamos envolvidos em nenhum dos acordos ou preparativos que ele fez para deixar o país. Pelo menos, o governo dos Estados Unidos não participou diretamente de nenhuma das ações realizadas”, declarou. Rubio acrescentou que o presidente Donald Trump tomou a decisão “de permitir que Flávio Bolsonaro entrasse no país”.

Informações divulgadas pela imprensa estadunidense apontaram Jason Miller, assessor de Trump, como responsável pelos preparativos da viagem. O jornal argentino “Clarín” também relatou que agentes estadunidenses teriam assumido o controle de parte do Aeroporto de Puerto Iguazú durante a operação. As alegações não foram confirmadas oficialmente. Procurado sobre o episódio, o secretário de Comunicação da Presidência argentina, Fabian Fernandez, afirmou que o governo não tinha declarações a fazer.


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Vídeo: A diferença entre o palpite de Tarcísio de Freitas e a precisão de Rafael Fonteles sobre o resultado da eleição

Tarcísio de Freitas, governador de SP (Republicanos) que chegou a afirmar que diploma não vale nada, resolveu colocar sua conta de comédia a serviço de uma aposta eleitoral com um cálculo estapafúrdio em que Flávio Bolsonaro venceria Lula por 53% a 47%. Uma previsão que revela muito sobre o ambiente político em que se movimentava e sobre a distância entre a bolha bolsonarista e a realidade brasileira.

Do outro lado, Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí (PT) com a maior votação do Brasil, um matemático,  com menos de 2% das urnas apuradas, cravou que Lula estava eleito. Não era uma aposta baseada em torcida ou em bravatas de ocasião, mas uma leitura política e matemática do cenário que se desenhava nas urnas.

O contraste é emblemático: de um lado, a confiança performática de quem transforma desejo em prognóstico; do outro, um grande matemático e a percepção de quem acompanhava o movimento real da eleição.

Tarcísio apostou nos números que gostaria de ver. Fonteles enxergou o que estava acontecendo.

No fim, a urna não se curva a bravatas, pesquisas de conveniência ou apostas de ocasião. A realidade eleitoral tem uma característica implacável: não aceita ser substituída pela fantasia de quem acredita na própria propaganda.


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Os Bolsonaro não são mais úteis para Trump

Exfiltração de Flávio Bolsonaro e isolamento geopolítico marcam o fim da aliança estratégica entre a extrema-direita brasileira e a Casa Branca

A reconstituição da fuga de Flávio Bolsonaro não deixa dúvidas do envolvimento ativo dos governos argentino e estadunidense na operação cinematográfica planejada com pelo menos duas semanas de antecedência numa típica missão de exfiltração do aliado de Javier Milei e Donald Trump.

Apesar da negativa do chefe do Departamento de Estado Marco Rubio, está confirmado que a remoção de Flávio e família do Brasil com traslado secreto para os EUA foi coordenada, executada e financiada diretamente desde a Casa Branca com envolvimento central do assessor presidencial Jason Miller.

Agentes dos EUA atuaram ilegalmente nos territórios brasileiro e argentino – além, obviamente, de assegurarem o ingresso do fugitivo na Flórida mesmo sem documentação válida.

Apesar da notória subserviência dos Bolsonaro às agressões estadunidenses ao Brasil, os elementos conhecidos até o momento ainda não são suficientes para se confirmar que os integrantes da família miliciana sejam agentes recrutados para atuarem pelos interesses de Donald Trump.

É possível, contudo, inferir que no mínimo os Bolsonaro estabeleceram com Trump uma associação por interesses recíprocos.

Flávio receberia apoio irrestrito do governo Trump para vencer a eleição para, com isso, se salvar de condenações criminais, indultar seu pai e outros criminosos da trama golpista e enterrar os escândalos bolsonaristas de corrupção – INSS, Master, Refit etc.

Em contrapartida, o eventual governo miliciano entregaria as riquezas nacionais, sobretudo as do subsolo, e a soberania do país aos EUA, passando a obedecer à potência imperial como um protetorado dócil e servil.

Com a vitória de Flávio, Trump seria retribuído com o domínio total do Brasil sem precisar executar uma operação militar custosa – em termos financeiros e geopolíticos – como a realizada na Venezuela.

Derrotados na eleição, os Bolsonaro perderam, também, a utilidade para Trump e sua política intervencionista na América Latina.

Flávio, seu irmão Eduardo e demais bolsonaristas radicalizados que fugiram para lá até terão liberdade e garantias provisórias de vida nos EUA enquanto durar o governo Trump, porém foram descartados das equações geopolíticas.

Sintoma disso é a ordem de Trump para Flávio Bolsonaro retirar da carta delirante o trecho em que ele se autodeclarava o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Sem outra opção, o fugitivo obedeceu prontamente. A ordem de Trump significa que Flávio não será “promovido” a Guaidó II; e, portanto, não será um instrumento útil da estratégia ingerencista dos EUA no Brasil.

Diferentemente do Guaidó caribenho, a ideia de inventar um Guaidó tupiniquim não tem absolutamente a mínima viabilidade, por algumas razões.

Em primeiro lugar, porque a interferência dos EUA na Venezuela tinha consenso bipartidário. Apesar de ilegal, na ocasião a medida foi apoiada decididamente por democratas e republicanos. E vários governos vassalos da potência imperial aprovaram aquela política aberrante, inclusive o de Jair Bolsonaro.

Além disso, a situação do Brasil no mundo é muito distinta da do ex-regime bolivariano. Sob a liderança de Lula, o país foi reconhecido como referência no enfrentamento exitoso da guerra tarifária.

Após o segundo turno, Lula recebeu o reconhecimento imediato da quase totalidade dos governos nacionais, inclusive os de orientação ultradireitista, com exceção dos de Trump, Milei e Netanyahu.

Por último, é bastante difundida a percepção de que Flávio integra um bando criminoso que foge da polícia e da justiça, e não é um perseguido político por uma ditadura, como alega a narrativa bolsonarista. Essa realidade repercute imensamente nos EUA, e deve prejudicar ainda mais o desempenho dos republicanos na eleição legislativa do próximo dia 3 de novembro, levando Trump a perder maioria no congresso estadunidense e enfraquecendo sua gestão desastrosa.

Não deixa de ser trágico que, enquanto os Bolsonaro são descartados por Trump e são isolados internacionalmente, no Brasil parcelas significativas do eleitorado e setores de uma lúmpen-burguesia dominante continuem reverenciando esses gângsteres enganadores.

*Do blog de Jeferson Miola

*Ilustração: Aroeira


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Depois de demolida pelas urnas, redes e ruas, direita fascista desenterra suas múmias mais sorumbáticas, como Janaína Paschoal

A direita bolsonarista está tão politicamente desidratada que, sem conseguir produzir uma liderança minimamente nova ou apresentar alguma ideia que não tenha cheiro de mofo, resolveu abrir seu próprio sarcófago político. Na falta de novidades, desenterra suas múmias mais sorumbáticas e as coloca novamente na vitrine, como se Janaína Paschoal fosse uma grande revelação e não uma reprise de um capítulo bastante conhecido da política brasileira com o golpe na presidenta Dilma Rousseff.

É o espetáculo da decadência em estado bruto. Depois de apostar todas as fichas no ódio, na gritaria, no golpismo e na fabricação industrial de inimigos, essa direita agora parece condenada a fazer arqueologia de si mesma. Vasculha o passado na lata do lixo, ressuscita personagens desgastados e tenta vender relíquias políticas como se fossem novidades de última geração.

Não há renovação, não há projeto, não há horizonte. Há apenas um ajuntamento de ressentimentos, oportunistas e personagens que parecem ter perdido o bonde da história, mas continuam disputando um lugar na locomotiva.

A cada nova tentativa de ressuscitação, fica mais evidente a dificuldade dessa turma de entender que o Brasil não é propriedade privada do bolsonarismo, muito menos um território condenado a consumir eternamente suas velhas figuras e suas velhas obsessões.

A extrema direita queria escrever o futuro do país, mas acabou transformada em antiquário político. Agora, desenterra suas múmias, tira o pó dos discursos e tenta convencer o Brasil de que defunto requentado é novidade. Não é. É apenas decadência com maquiagem.

A propósito, em 2026, Janaina Paschoal tentou a eleição para deputada federal, porém, teve apenas 46,7 mil votos, menos do que a quantidade recebida quando foi eleita vereadora. Em 2024, a candidatura de Janaína somou 48.893 votos de eleitores da capital paulista.


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